Escolas cívico-militares, privatizações e traição: confira o que foi pauta no debate entre candidatos no Paraná

O debate entre os candidatos ao governo do estado, nesta terça-feira (29), teve como pautas educação e saúde no Paraná, privatizações dos serviços públicos, corrupção e traições políticas. Requião Filho (PDT) criticou a gestão educacional do governo Ratinho Jr. (PSD). Sergio Moro (PL) e Sandro Alex (PSD) trocaram acusações e disputaram o eleitorado à direita. O embate foi exibido pela RPC, filiada da TV Globo no Paraná.
Os candidatos administraram o próprio tempo de fala e o debate foi dividido em quatro blocos – três de tema livre e um dedicado às considerações finais. Em cada bloco, os candidatos fizeram uma pergunta e responderam ao menos uma vez. Os três participantes aprovaram as regras em 22 de setembro.
Escolas cívico-militares e desvalorização dos professores
Requião Filho, candidato do campo progressista do estado, criticou o modelo de escolas cívico-militares do atual governo do Paraná. O pedetista criticou a situação da educação paranaense, como falta de investimentos nas escolas do campo e falta de liberdade dos professores. “A minha proposta para educação é a volta da alegria para a sala de aula, com ensino técnico adaptado às demandas regionais”, explicou Requião.
Alex, ex-secretário do governo Ratinho Jr. (PSD) anunciou que planeja abrir mais escolas cívico-militares e acusou Requião Filho de planejar o fechamento das escolas existentes. “Não tem um professor feliz com a realidade das escolas. O governo dele e ele são desaprovados por nove em cada dez professores. Não vamos fechar as escolas, vamos mudar o modelo [cívico-militar]”, declarou o pedetista.
Alex e a base governista defendem que a educação do Paraná é uma das melhores do país — um argumento rebatido ao longo do debate. “Educação de verdade valoriza o professor e o aluno. Paguem o salário aos professores. Hoje, a maioria dos professores no Paraná são PSS [Processo Seletivo Simplificado]”, rebateu Requião Filho.
Violência contra a mulher
A violência de gênero também foi pauta do debate, no primeiro bloco. Moro descreveu propostas de punição a agressores. Requião Filho argumentou que a extrema-direita não respeita as mulheres e recuperou o episódio em que Jair Bolsonaro afirmou que teve sua primeira e única filha após uma “fraquejada”.
Entre as propostas apresentadas por Requião Filho, está o Centro da Mulher, inspirado na Casa da Mulher Brasileira, para fornecimento de atendimento policial especializado, apoio psicológico e acolhimento às mulheres vítimas de violência. O candidato também citou a proposta de crédito para mulheres empreendedoras, além de imposto zero para pequenas e microempresas.
“A gente não quer cuidar da violência contra a mulher depois que ela aconteceu, a gente quer trabalhar na prevenção”, argumentou.
Troca de acusações
Moro acusou Alex de fake news e de aliança com o Partido dos Trabalhadores (PT). Alex acusou Moro de mentir sobre Rafael Greca (PSD), vice de Alex, ter pedido votos para Luis Inácio Lula da Silva (PT) e disse que Moro teria convidado Greca para ser seu vice. “O senhor traiu ele e o pai dele várias vezes [Flávio e Jair Bolsonaro]”, afirmou Alex. Moro e Alex se acusaram de produzir fake news sobre obras públicas no Paraná, como a ponte de Guaratuba (PR).
O ex-juiz da Lava Jato fugiu de pergunta sobre Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), que Moro acusou de corrupção no passado. “Combate à corrupção se faz na prática e não com discurso”, disse Requião.
Requião Filho listou casos de corrupção ocorridos no Paraná, que não tiveram atuação por parte de Moro enquanto foi ministro do governo Bolsonaro e durante o período como senador. “Nós fizemos diversas denúncias de corrupção aqui do Paraná que ficaram sem resposta […] Talvez, se as denúncias fossem em São Paulo, ele tivesse feito alguma coisa”, argumentou.
Mais uma vez, Sandro Alex reafirma traição de Moro com Bolsonaro e questiona vaga que será deixada no Senado caso Moro seja eleito. “Ele não cumpre nada do que se propõe a fazer”, destacou. Moro interrompeu, por diversas vezes, as falas dos outros candidatos.
Saúde no Paraná
Moro afirmou que o estado do Paraná gasta pouco na área da saúde. “Ele [Sandro Alex] fala que a saúde está boa, mas pergunta para o paranaense?”, questionou Moro. Alex acusa Moro de, enquanto senador, não cobrar reajuste da Tabela do SUS (SIGTAP) para o Paraná.
A situação da saúde também foi tema de questionamento por Requião Filho. “No atual governo, mais do que dobrou a fila do transplante”, disse. O candidato cobrou a entrega de hospitais prometidos e falou que uma das preocupações do governo deveria ser não apenas construir, mas pensar na abertura desses espaços.
“Não tem concurso, não tem enfermeiro, não tem médico, […] Se não fosse o governo federal, a saúde do Paraná estava parada”, destacou.
Requião Filho apresentou a proposta de implementação de centros de hemodiálise e quimioterapia em cada um dos hospitais regionais do estado. Também destacou a falta de concursos na saúde e gastos com a terceirização: “Terceirizar tem custado muito caro, e os resultados têm sido péssimos.
Infraestrutura e privatizações
O candidato do PDT foi questionado sobre o Porto de Paranaguá, comandado pelo tio Eduardo Requião entre os anos de 2003 e 2008. Requião Filho defendeu o fortalecimento do Porto e acusou o governo de ser negligente com as práticas do crime organizado. Argumentou que as bebidas falsificadas, com metanol, entraram pelo local. E destacou a necessidade de garantir melhor ligação de rodovias e ferrovias ao terminal portuário, para beneficiar produtores e indústria.
Falou ainda sobre os desafios para reerguer a indústria e apoiar os produtores rurais. Finalizou dizendo que o único aumento promovido pela gestão de Ratinho Jr. e Sandro Alex foi o aumento do pedágio.
O aumento da conta de luz e o impacto sobre produtores e indústrias também foram pontos do debate. O candidato do governador Ratinho Jr. tentou atribuir a alta dos preços ao governo federal, mas foi rebatido por Requião Filho e Moro. “Quem pediu reajuste de 20% da tarifa foi a Copel”, argumentou o ex-juiz. Apesar de admitir a queda da qualidade dos serviços da Companhia Paranaense de Energia (Copel), Moro reafirmou a concordância com a privatização.
Requião nega que reestatizaria a empresa, caso seja eleito. “Copel mista, como sempre foi, mas voltada ao interesse público”. Tanto Requião Filho quanto Moro criticaram também a queda na qualidade dos serviços da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar).
“Sandro pode ser um bom capataz, mas não um bom gestor”, afirmou Requião. Sandro Alex foi secretário de Infraestrutura e Logística do Paraná, no governo Ratinho Jr. O pedetista também criticou o alto Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), de 19,5%, no Paraná – um dos maiores do país.
Alex devolveu descrevendo propostas alinhadas à continuidade do governo atual. “’Vamos fazer o que não fizemos’ é o resumo do debate de hoje do Sandro Alex”, provocou Requião Filho. Preço alto do pedágio foi criticado por Requião Filho e Moro. Alex argumentou que Moro não tem plano de governo e que não entende do Paraná.

O que mostram as últimas pesquisas?
De acordo com as últimas pesquisas de intenção de voto no Paraná, Moro lidera a disputa, seguido de Requião Filho e Alex, que aparecem empatados ou com leve vantagem do pedetista no primeiro turno.
O levantamento do Instituto Paraná Pesquisas dessa segunda-feira (28) aponta liderança do ex-juiz da Lava Jato, Sergio Moro (PL), com 46,2% das intenções de voto. Atrás dele, tecnicamente empatados, aparecem Requião Filho (PDT), que tem 23,6%, e Sandro Alex (PSD), com 21,5% – no cenário estimulado de primeiro turno, quando os nomes dos candidatos são apresentados aos participantes.
Na última pesquisa, pela contagem de votos válidos, ou seja, excluindo nulos e brancos, Moro venceria no primeiro turno, com 50,1%. O cenário é de certa estabilidade, em relação ao último levantamento do Instituto, de 18 de setembro. Há dez dias atrás, Moro tinha 44,7%, contra 23% de Requião Filho e 19,7% de Alex, na pesquisa estimulada.
A pesquisa Quaest, nessa quinta-feira (24), também mostrou liderança de Moro, que apareceu com 36% no primeiro turno — um ponto a menos em relação à pesquisa passada do mesmo instituto. Requião Filho (PDT) e Sandro Alex (PSD) tinham 20%. No cenário de segundo turno, Requião Filho e Alex diminuíram a vantagem de Moro, em relação a um mês antes. Moro apareceu com 48% (antes, eram 51%), contra 32% de Requião Filho (eram 27%). Na outra possibilidade de disputa, Moro tinha 43% (eram 48%) e Sandro Alex, 29% (eram 19%).
Mateus Albuquerque, cientista político e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que Requião Filho ainda não atingiu seu potencial de possíveis votos. “Sua meta de campanha deve ser transferir os votos de Lula para si, coisa que ainda não conseguiu fazer. Essa é uma dificuldade histórica da esquerda no estado: não conseguir transferir os votos da majoritária nacional às suas candidaturas locais, o que lhes garantiria mais vagas nos parlamentos, por exemplo”, explica.
Cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Cervi, conta pode haver um possível limite de crescimento de apoiadores: “O ‘piso’ de Moro é alto, aproximadamente 40%, mas o ‘teto’ talvez seja baixo”, interpreta. Em um eventual segundo turno, Requião Filho ou Sandro Alex podem obter vantagem.
“Para Requião, vai depender de para onde vão os votos de Sandro Alex, que precisa de mais tempo para ser reconhecido [como candidato de Ratinho Jr.]”, avalia Cervi sobre o cenário de segundo turno.



