EUA entram em pauta no debate eleitoral – 21/09/2026 – Encaminhado com Frequência

Um relatório da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) colocou novamente o tema da soberania em discussão após apontar o risco de interferência do governo de Donald Trump na eleição brasileira.
O documento foi revelado pela Folha no sábado (19), véspera do embarque do presidente Lula para Nova York, onde ele discursará na terça-feira (22) na abertura da Assembleia Geral da ONU. Auxiliares do Planalto indicam que soberania e não intervenção estarão no discurso, sem menção direta a Trump.
Analisando o debate digital entre 13 e 20 de setembro, a Palver registrou que, entre as mensagens sobre Lula e Estados Unidos, pouco mais de 40% são focadas na discussão de soberania e interferência. No sábado, com a revelação do relatório da Abin, o tópico teve alta de 140% na mensageria comparado com a média da semana.
Com as atenções voltadas para Nova York, o tema deve permanecer em evidência, fato que pode funcionar como catalisador para a campanha do presidente, visto que o tema da soberania já foi testado anteriormente e o saldo foi positivo na popularidade de Lula e ainda conta com o impulso dado pelo relatório da Abin.
No Instagram e no X, considerando a amostra da Palver, há um predomínio de mensagens favoráveis ao governo. Na mensageria, onde a direita tem estrutura mais consolidada, a divisão cai um pouco, mas ainda se mantém em patamar elevado pró-governo, com 62,5% de menções positivas contra 37,5% de negativas.
A narrativa governista gira em torno do entreguismo, tema que concentra quase um quarto das mensagens pró-Lula, com críticas a Flávio Bolsonaro, que é chamado de “entreguista” ou “político vira-lata”. A segunda narrativa com maior engajamento fala de terras raras e minerais estratégicos e aparece em 17,3% dessas mensagens, adotando o mesmo tom de críticas a Flávio.
Do lado bolsonarista, o foco é abordar o tema internacional pela lente do crime organizado. Em 31,7% das mensagens contrárias a Lula o assunto vira segurança pública, com PCC e Comando Vermelho chamados de “narcoterroristas” e a coalizão militar liderada por Washington, à qual o Brasil não aderiu, apresentada como “escudo das Américas”.
Uma segunda linha narrativa, ainda mais popular, foca em trazer o STF para a discussão, com pedidos de novas sanções a ministros, principalmente Alexandre de Moraes. Aqui é interessante o posicionamento dos usuários de ressaltar que as sanções devem ser aplicadas aos ministros e não ao país.
A agenda internacional de Lula confere ao governo a oportunidade de mudar a pauta de discussão que estava focada no STF ao longo das últimas semanas. Para o governo, essa mudança é crucial uma vez que o desgaste institucional do Supremo gera um desânimo generalizado da população, aumentando o desejo de mudanças.
Já com a discussão focada no tema da soberania e com o risco de interferência dos EUA nas eleições, como apontado pela Abin, os dados da Palver confirmam que o governo tende a se beneficiar.
O principal desafio para as campanhas é conseguir endereçar os problemas reais identificados pela população. Na pesquisa Palver divulgada neste domingo (20), custo de vida e inflação são apontadas como as principais questões que afetam a família dos entrevistados. Flávio tem sido mais efetivo em endereçar esses tópicos, enquanto Lula ainda precisa encontrar uma forma de traduzir a soberania nacional na discussão econômica.
Há menos de duas semanas para o primeiro turno das eleições, a ida de Lula para Nova York é importante para o governo ao deslocar a atenção da população da crise institucional do STF para o tema da soberania.
Flávio Bolsonaro torce para que um deslize possa ser transformado em narrativa contra a capacidade de governar do presidente, mas, principalmente, para que Trump não dê um presente a Lula ao atacar ou ameaçar o Brasil.
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Folha de São Paulo>



