Saúde

EUA voltam a enfrentar riscos ‘esquecidos’ do sarampo

Por trás dos sintomas conhecidos de febre e manchas na pele está um vírus altamente contagioso, que pode causar danos permanentes ou levar à morte. Essa é a realidade do sarampo.

Mas muitas pessoas nos Estados Unidos parecem ter se esquecido da gravidade da doença, e os surtos ocorrem hoje principalmente em comunidades com baixa cobertura vacinal.

Os casos já atingiram o maior nível em 35 anos, à medida que a queda das taxas de vacinação criou bolsões crescentes de pessoas suscetíveis à doença.

Especialistas alertam que, com o passar do tempo, a memória da doença, antes comum, foi se apagando, deixando muitas pessoas sem consciência dos riscos.

O que significa o aumento de casos?

O número de casos de sarampo nos Estados Unidos até meados de julho de 2026 superou o registrado em todo o ano passado.

Na semana de 13 a 19 de julho de 2026, foram notificados 2.321 casos, em comparação a 2.286 casos ao longo de 2025, segundo uma ferramenta de monitoramento mantida pela Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins.

O epidemiologista William Moss, da Universidade Johns Hopkins, acredita que a alta dos casos levará os Estados Unidos a perderem o classificação de livre do sarampo que o país mantém desde 2000. A “eliminação” não significa ausência total da doença, mas que não há transmissão endêmica contínua do vírus por 12 meses ou mais dentro do país.

“A importância desse marco é que os EUA não conseguiram interromper a transmissão do vírus do sarampo nem conter surtos como fizeram no passado”, afirmou à DW.

Segundo ele, o vírus agora está se espalhando “de uma comunidade suscetível para outra dentro dos Estados Unidos”, em vez de se limitar a infecções importadas do exterior.

Contágio antes dos sintomas

O sarampo é altamente contagioso, propagando-se com muito mais facilidade do que um resfriado comum. Nove em cada dez pessoas sem imunidade expostas ao vírus serão infectadas.

A transmissão ocorre por meio de gotículas contendo o vírus liberadas pelo nariz, garganta e pulmões de uma pessoa infectada ao respirar, falar ou tossir. As partículas menores podem permanecer suspensas no ar muito tempo após a pessoa ter deixado o ambiente.

“Basta estar no mesmo espaço aéreo de alguém até duas horas depois de essa pessoa ter estado ali”, disse Paul Offit, diretor do Centro de Educação sobre Vacinas do Hospital Infantil da Filadélfia.

As pessoas podem transmitir o sarampo antes mesmo de perceber que estão infectadas. Em geral, os pacientes tornam-se contagiosos cerca de quatro dias antes do surgimento das manchas ou erupções cutâneas características da doença.

A combinação de partículas em suspensão no ar, alto poder de contágio e transmissão antes dos sintomas mais evidentes favorece a disseminação do vírus. Ele pode se aproveitar até mesmo de pequenas lacunas na cobertura vacinal.

Complicações podem surgir anos depois

Nos Estados Unidos, cerca de uma em cada cinco pessoas infectadas pelo sarampo precisa ser hospitalizada.

Uma em cada 20 crianças infectadas desenvolve pneumonia, enquanto cerca de uma em cada mil apresenta encefalite, uma inflamação cerebral que pode causar danos permanentes ao cérebro.

Entre uma e três a cada mil crianças infectadas morrem em decorrência de complicações respiratórias ou neurológicas.

“Tivemos duas crianças não vacinadas, uma saudável de seis anos e outra saudável de oito anos, que morreram de sarampo no último ano”, disse Offit à DW.

As duas vieram a óbito em consequência de pneumonia. “É como morrer sufocado”, afirmou. “É uma forma terrível de morrer”.

Entre os sobreviventes, os danos podem persistir muito depois do desaparecimento da febre e das manchas. O sarampo pode suprimir o sistema imunológico durante anos, apagando parte da proteção que o organismo havia desenvolvido anteriormente contra outros vírus e bactérias.

Outra complicação tardia é a panencefalite esclerosante subaguda, uma doença degenerativa rara, mas fatal, que pode surgir até dez anos após a infecção original.

“As crianças são infectadas, melhoram e ficam bem”, acrescenta Offit. “Então, cinco ou sete anos depois, apresentam deterioração da caligrafia, mudanças de personalidade e acabam entrando em estado vegetativo antes de morrer”.

Uma “amnésia coletiva”

A vacinação retirou o sarampo do cotidiano dos americanos. Mas esse sucesso também enfraqueceu a compreensão pública sobre por que a imunização continua sendo necessária.

“As complicações mais graves do sarampo são relativamente raras e só se tornam evidentes quando há um grande número de casos”, aponta Moss. “Infelizmente, o aumento dos casos de sarampo nos EUA voltará a nos ensinar que esta nem sempre é uma infecção infantil inofensiva.”

A epidemiologista Katelyn Jetelina explica que a queda das taxas de vacinação reflete uma “amnésia coletiva em relação a essas doenças”, a disseminação de informações falsas nas redes sociais e uma perda mais ampla de confiança nas instituições.

“Os surtos continuam concentrados em comunidade s com baixa vacinação”, disse a especialista. “Existem bolsões de pessoas não vacinadas em todo o país. Basta uma faísca para que essa doença se espalhe como fogo em palha seca nesses locais.”

Informação

Folha de São Paulo

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