Esporte

Evolução de regras, formato e negócio acompanha Copa do Mundo desde 1930

Para quem achou a Copa de 2026 disputada em três países um exagero, aguarde. O próximo Mundial, em 2030, terá seis nações como sede, com pelo menos uma partida no Uruguai, na Argentina e no Paraguai —o restante se divide entre Portugal, Espanha e Marrocos.

Os jogos nos vizinhos sul-americanos são ao mesmo tempo um agrado de Gianni Infantino, presidente da Fifa, para a Conmebol (a confederação sul-americana) e uma homenagem aos cem anos da primeira Copa do Mundo, realizada totalmente no Uruguai.

Apenas 13 seleções disputaram a primeira Copa da história, que aconteceu em uma única cidade (Montevidéu), com três estádios abrigando as 18 partidas. A duração foi de 17 dias, pouco mais que um Grand Slam de tênis hoje.

Bem diferente dos 104 jogos que as 16 sedes (11 nos EUA, 3 no México e 2 no Canadá) acumularam em 39 dias.

EDIÇÃO INAUGURAL

Mas a primeira Copa supera o Mundial de 2026 em pelo menos uma estatística: a quantidade de sul-americanos. Foram sete seleções (mais que 50% dos participantes) contra seis equipes desta vez. O clube dos 13 foi completado com dois norte-americanos (EUA e México) e quatro europeus (Bélgica, França, Iugoslávia e Romênia).

Há 96 anos, o Uruguai já era bicampeão olímpico (em 1924 e 1928), daí o apelido Celeste Olímpica. Aliás, a final contra a Argentina (olha eles de novo), no Estádio Centenário, repetia a tensa decisão dos Jogos de 1928, em Amsterdã, quando os uruguaios venceram por 2 a 1 em partida extra.

No Mundial, em casa, a Celeste marcou 4 a 2, de virada (perdia por 2 a 1), para conquistar o primeiro título da história. A taça foi entregue pelo presidente da Fifa, o francês Jules Rimet, ao presidente da federação uruguaia, Raúl Jude.

Ainda na década de 1930, o esporte foi utilizado como instrumento político para fazer inveja até a Donald Trump. As Copas de 1934 e 1938 foram vencidas pela Itália de Benito Mussolini —com uma Olimpíada no meio, na Berlim de Hitler, em 1936.

Reza a lenda que Mussolini se reunia com árbitros, fazia ameaças e facilitava a naturalização de jogadores sul-americanos, entre outras coisas. Em 1938, pela primeira vez um brasileiro foi o artilheiro, com os sete gols de Leônidas da Silva, o Diamante Negro.

Na primeira Copa pós-Segunda Guerra, o Brasil era o lugar ideal, longe da destruição na Europa. O gigante Maracanã, símbolo do Mundial, terminou com a alcunha de Maracanazo com a derrota de 2 a 1, de virada, para o Uruguai.

Dondinho, pai de Pelé, chorou ao ouvir o jogo pelo rádio, fazendo o jovem prometer ao pai que um dia ganharia a Copa para ele.

CHEGADA DA TV

No torneio seguinte, já era possível acompanhar os jogos pela TV em alguns países da Europa.

Pelé cumpriu a promessa ao pai em 1958, participando de duas gerações que marcaram época e deram o tri ao Brasil, em 1958, 1962 e 1970 —essa última, sim, finalmente, com transmissão ao vivo pela TV por aqui.

No primeiro título, em 1958, Pelé se tornou o jogador mais jovem a fazer um gol no Mundial, com 17 anos e 239 dias, recorde que nem a Copa dos recordes conseguiu quebrar —Lamine Yamal se tornou o oitavo da lista, com gol aos 18 anos e 343 dias.

Foi também no Mundial do primeiro título brasileiro que o francês Just Fontaine alcançou a impressionante marca de 13 gols na mesma edição —ajudado pelo jogo-churrasco do terceiro lugar, com quatro gols na vitória de 6 a 3 diante da Alemanha Ocidental.

Foi em 1958 também que se inaugurou o gesto de levantar a taça após recebê-la —dizem que Bellini, o nosso capitão, estava atendendo a pedido de fotógrafos quando ergueu a Jules Rimet (sim, eventualmente, a taça ganhou o nome do ex-presidente da Fifa).

Depois, houve em 1966 a inclusão da primeira mascote, com Willie —que fez mais sucesso do que os ignorados Clutch, Maple e Zayu, de 2026.

Na década de 1980, o número de seleções na competição já era de 24, quantidade que permaneceu intocável até 1994, ainda que a fórmula de classificação tenha sido alterada aqui e ali.

Foi em 1994, nos Estados Unidos, que a Copa deu um salto mercadológico, globalizando definitivamente os interesses comerciais e quebrando o revezamento de sedes entre Europa e América Latina.

Em 2002, aconteceu a primeira competição na Ásia (Coreia do Sul e Japão), em 2010, na África (África do Sul), e em 2018, no Oriente Médio (Qatar).

DINHEIRO MANDA

Em tempos de Gianni Infantino, o tamanho do talão de cheque dos candidatos a sede é o principal Padrão Fifa, não importa que o Mundial precise ser disputado em dezembro, como no Qatar —em 2034, teremos uma Copa na rica Arábia Saudita.

Nas regras do jogo, a competição costuma ser o embrião de novidades. Foi na Copa que criaram o cartão vermelho, já que era necessário um símbolo que jogadores de diferentes línguas entendessem.

Tudo porque um argentino foi expulso de um jogo em 1966, mas não saía de campo de jeito nenhum. Dizem que ele não entendia que tinha sido expulso —ou não quis entender. O cartão vermelho surgiu na Copa de 1970, mas só foi aplicado no Mundial de 1974.

Na Copa de 2014, houve a implementação da tecnologia da linha do gol, e quatro anos depois chegou o VAR.

Agora, de volta aos EUA, a competição teve parada para hidratação, reversão de lateral por tempo e outras novidades para combater a cera —e a ligação de Trump para suspender cartão vermelho. A Copa não para de inovar.


Esporte / Folha de São Paulo

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