Política

Ex-pescador vive do turismo em Paraty, recebe benefício do governo e está indeciso sobre voto

Arnor da Cruz Conceição, 78, tem dificuldade para lembrar em quem votou nas eleições presidenciais de 2022. “Na última, era o Lula o presidente, né? Ou não?”, diz, sentado na popa de seu barco, ancorado em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro.

Depois de alguma hesitação, afirma à Folha ter votado em Jair Bolsonaro (PL), candidato que saiu derrotado do pleito de quatro anos atrás. “Política é meio complicado, é que nem futebol. Você descarrega tudo naquele time, chega na hora, o time perde”, brinca, sem parecer lamentar muito.

Arnor se considera um “trabalhador do mar” desde os 12 anos. Natural de Paraty —não do centro histórico, faz questão de ressaltar, mas das comunidades caiçaras da “beira do continente”—, ele iniciou a vida marítima na pesca. Há alguns anos, porém, mudou de ramo.

“Aqui o forte era a pesca e o turismo, mas o turismo venceu a pesca; ficou mais forte para nós”, explica. Num dia bom, ele consegue fazer pelo menos dois passeios —cada um a R$ 150 a hora.

Para apaziguar o impacto financeiro dos períodos de baixo movimento, como outono e inverno, quando fica até três dias sem nenhum serviço, Arnor conta com um benefício do governo federal. Ele recebe o BPC (Benefício de Prestação Continuada), pago a maiores de 65 anos em situação de vulnerabilidade ou baixa renda.

“Olha, dá para resolver alguma coisa, principalmente para a gente que trabalha aqui, que não tem um salário fixo”, afirma e dá umas batidinhas no casco do barco. “Porque se a gente depender de um bichinho desses… dá um gasto de manutenção que você não imagina.”

Para o ex-pescador, as eleições municipais são as mais importantes porque mexem no cotidiano dos moradores de Paraty. No entanto, não votou na mais recente, em 2024. “Eu estava trabalhando e quando voltei, estava muito cansado, aí não fui.”

Se fosse, talvez tivesse votado em Zezé Porto, atual prefeito, político do Republicanos, que está em seu terceiro mandato. “Zezé pegou agora, está começando, tem muitas coisas aí que ele tá melhorando.”

Quando vota, Arnor costuma escolher candidatos mais conservadores porque tem “a impressão de que as coisas vão melhorar com a direita”. Nunca elegeu Lula, diz, mas também não se lembra em quem votava antes de Bolsonaro.

O voto é facultativo para maiores de 70 anos no Brasil e, na última eleição presidencial, só 45% dessa população apareceu na urna no segundo turno.

As notícias, ele acompanha pelos telejornais da Globo, e pelo celular, em aplicativos de redes sociais —quais usa, não sabe muito bem dizer. Mas vê tudo com os filhos e netos.

O filho é barqueiro como ele —”tem uma lanchinha para dez pessoas”. Já a terceira geração, dois meninos de 13 e 9 anos e uma menina desta mesma idade, não quer saber da vida na água.

“Quando fui trabalhar no mar, era molecotezinho. Eu gostei do mar. É um negócio que você se sente bem, passa uma energia que parece que você tá viajando”, diz. “Mas eles querem fazer serviço de terra, querem estudar para médico, para advogado.”

Perguntado se vê algum dedinho da política na mudança geracional, aponta as escolas das comunidades caiçaras. “É tudo pelo governo, né? Então, quer dizer, já é uma função do governo, né?”. Pondera, porém, que o principal fator para a educação de qualidade é a “força de vontade das professoras”.

“Estava conversando com um rapaz daqui da beira do continente, que falou: ‘Arnor, essa escola aqui da praia do Baré está muito boa. Olha, as crianças estão aprendendo rapidinho aí, por quê? Porque a professora deve estar dando aula bem'”, conta.

Arnor aprova os planos dos netos. “Eles estão com muita boa ideia, espero que Deus ilumine a mente deles e continue assim”, diz. “Quem dá a vida é Deus, mas o médico cura as pessoas. É uma profissão muito boa.”

Quanto a si próprio, o que queria mesmo é que o próximo presidente ajudasse a baixar o preço do diesel, combustível de seu barco pintado de azul, branco e amarelo. Está angustiado com as notícias sobre o tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, ao Brasil.

“O governo que tem que ver isso aí”, diz ao ser questionado sobre de quem é a culpa do tarifaço, para depois ponderar que acha que a gestão Lula até que está lidando bem com a crise com os americanos. “A gente às vezes fala as coisas sem saber, mas ele deve estar sabendo o que estão fazendo.”

O diesel tem aumentado com outros derivados do petróleo principalmente por causa da instabilidade global causada pela guerra no Oriente Médio.

Na atual disputa, Arnor não sabe se gosta muito de Flávio Bolsonaro (PL), sucessor político do pai, mas também não está convencido a ajudar a eleger, pela primeira vez na vida, o presidente petista. Também não sabe se vai à urna. “É assim coisa de repente, né? Se me der vontade, eu vou votar.”

Folha de São Paulo

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