Saúde

Exposição a barulho constante pode causar danos além da perda auditiva

O corpo humano é extraordinariamente capaz de se adaptar ao ambiente ao seu redor. Você provavelmente já passou por isso se alguma vez foi a uma sessão de cinema à tarde e saiu da sala escura sob a luz do sol. Seus olhos ardem, então você os aperta e protege o rosto até que eles se ajustem à claridade intensa.

Da mesma forma, o corpo pode se acostumar ao ruído constante. Com a exposição repetida ao trânsito, a sopradores de folhas, a obras, a música alta, a restaurantes lotados, a aulas de ginástica e a eventos esportivos, você pode se habituar a ambientes barulhentos. Com o tempo, o que antes parecia excessivamente alto pode se tornar quase imperceptível.

Mas o que parece normal não é necessariamente seguro. O ruído é um risco ambiental importante para a saúde, embora muitas vezes negligenciado, com efeitos que vão da perda auditiva às doenças cardiovasculares.

Penso constantemente sobre o ruído porque sou audiologista e cientista da audição, com especialização em exposições ocupacionais. Mas o ruído perigoso não se limita ao ambiente de trabalho. É provável que você seja exposto a ele todos os dias sem saber quando representa um risco. A boa notícia é que muitos dos efeitos nocivos do ruído podem ser evitados —desde que você saiba a que prestar atenção.

O ruído afeta mais do que os ouvidos

A consequência mais evidente do ruído excessivo são os danos à audição. Sons altos podem danificar delicadas células sensoriais do ouvido interno, levando à perda auditiva permanente. O zumbido, ou a percepção de sons nos ouvidos, é outra consequência comum da exposição ao ruído.

Mas os danos auditivos são apenas parte da história. O ruído ambiental crônico também pode afetar a saúde por outras vias. Ele atua como um agente estressor, ativando os sistemas nervoso autônomo e endócrino e afetando a frequência cardíaca, a pressão arterial e outros processos fisiológicos. Também pode perturbar o sono, desencadeando respostas ao estresse mesmo sem nos despertar completamente.

As recomendações sobre ruído no ambiente de trabalho têm como principal objetivo proteger os trabalhadores contra a perda auditiva. Já as diretrizes da Organização Mundial da Saúde para o ruído ambiental recomendam níveis mais baixos, pois consideram períodos mais longos de exposição e efeitos mais amplos sobre a saúde.

Quando o som é alto demais?

O risco do ruído depende de sua intensidade, do tempo de exposição e da proximidade da fonte. Sons extremamente altos, como fogos de artifício ou tiros, podem causar danos à audição quase instantaneamente, sobretudo a curta distância. Outros sons, como os de ferramentas elétricas, música alta ou trânsito intenso, podem representar um risco mais gradual, à medida que a exposição se acumula ao longo do tempo.

O Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos recomenda limitar a exposição ocupacional ao ruído a 85 decibéis ponderados em A, ou dBA, em média durante uma jornada de trabalho de oito horas. A ponderação A ajusta a medição para refletir melhor como o ouvido humano responde ao som. A cada aumento de 3 dBA, o tempo de exposição recomendado cai pela metade.

Parâmetros semelhantes são usados em outros lugares: a Austrália limita a exposição no trabalho a 85 dBA durante oito horas, enquanto a União Europeia e a Grã-Bretanha exigem medidas de proteção a partir de 80 dBA e medidas adicionais a 85 dBA. Ambas proíbem a exposição acima de 87 dBA após considerar o uso de proteção auditiva. Embora os detalhes regulatórios variem, a média de 85 dBA ao longo de oito horas é um parâmetro internacional amplamente utilizado para o ruído ocupacional.

E a contagem não recomeça toda vez que você deixa um ambiente barulhento. Na verdade, a exposição ao ruído se acumula ao longo do dia. Passar quatro horas exposto a 88 dBA equivale à mesma dose diária máxima de ruído recomendada para oito horas a 85 dBA. O tempo passado em meio ao trânsito intenso, usando ferramentas elétricas, participando de um evento esportivo ou ouvindo música alta pode contribuir para essa dose diária.

Para começar, é útil conhecer seu nível habitual de exposição diária. O Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos oferece um aplicativo gratuito chamado NIOSH Sound Level Meter, que pode estimar o nível de ruído ao seu redor.

Quando puder escolher, opte por equipamentos e ambientes mais silenciosos. Ao dirigir em meio ao trânsito intenso, mantenha os vidros do carro fechados. Quando sair para comer, tente escolher uma mesa distante das fontes de ruído em restaurantes barulhentos.

Mas, se você estiver em um ambiente ruidoso, é útil fazer pausas e usar proteção auditiva sempre que possível. Protetores auriculares com filtro reduzem os níveis sonoros e, ao mesmo tempo, permitem que você aproveite a música ou participe de uma conversa.

Sempre que possível, é recomendável diminuir o volume dos fones de ouvido. A maioria dos smartphones permite definir um limite máximo para o volume do áudio, evitando que você aumente o som de músicas ou podcasts a níveis inseguros. À medida que o ruído ambiente aumenta, fones com cancelamento de ruído podem ajudar a manter o volume em um nível seguro.

Aumentar a distância da fonte de ruído também pode fazer uma diferença significativa. Em shows e eventos esportivos, afaste-se das caixas de som. Se permanecer por várias horas em um evento barulhento, saia do local ou procure periodicamente uma área mais tranquila para dar um descanso aos ouvidos. Ao usar ferramentas elétricas, equipamentos de jardinagem ou outras máquinas, coloque desde o início protetores auriculares de inserção ou do tipo concha, devidamente ajustados, em vez de esperar até que o ruído se torne incômodo.

Para ajudar a criar um ambiente mais silencioso em casa, considere o uso de ferramentas de jardinagem a bateria, que geralmente são mais silenciosas —e emitem menos poluentes— do que os modelos movidos a gasolina. Ao comprar eletrodomésticos, como máquinas de lavar louça, compare as classificações de ruído e, quando possível, escolha os modelos mais silenciosos.

A exposição ao ruído é um problema de saúde pública

Os comportamentos individuais são importantes, mas a poluição sonora não será resolvida com um par de protetores auriculares de cada vez. A maioria das pessoas não consegue controlar o ruído ao qual está exposta. Um agricultor não pode diminuir o barulho de um trator. Uma criança não pode mudar o trajeto da rodovia que passa em frente ao seu quarto. Um funcionário de restaurante pode passar o turno inteiro próximo a uma banda tocando ao vivo e a clientes arruaceiros, sem a opção de se refugiar em um ambiente mais tranquilo.

Embora cada um de nós possa tomar medidas para reduzir o ruído ao redor, as ações individuais têm alcance limitado sem mudanças mais amplas. Proteger a saúde pública também exige que os fabricantes comprem ou projetem equipamentos mais silenciosos; que arquitetos e construtores levem a acústica em consideração nos projetos dos edifícios; que urbanistas reduzam o ruído dos transportes e criem espaços públicos mais tranquilos; e que empregadores implementem medidas de controle no ambiente de trabalho para reduzir o ruído em sua origem.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Informação

Folha de São Paulo

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