Preconceito e falta de protocolo dificultam detecção de HPV em pessoas transgênero
A falta de protocolos estabelecidos para cuidados relacionados ao HPV (papilomavírus humano) em pessoas transgênero pode levar à detecção tardia de casos de câncer e outras complicações. A afirmação é de Janaina Janine, doutora em enfermagem pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
HPV é uma família de mais de 200 vírus, e 8 em cada 10 pessoas sexualmente ativas entrarão em contato com o patógeno ao longo da vida, segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer).
Enquanto a maior parte dos subtipos causam verrugas e outras lesões de menor gravidade, há 12 de alto risco, relacionados ao desenvolvimento de cânceres de colo de útero, pênis, ânus, orofaringe, vulva, vagina e, no caso de algumas pessoas trans, de neovagina.
Janine realizou uma revisão sistemática que analisou mais de 80 casos de câncer em vaginas de pessoas que realizaram a transgenitalização cirúrgica e concluiu que o aparecimento do câncer neovaginal está relacionado ao HPV.
Os cânceres foram detectados já em estágio avançado, com sangramentos, corrimentos, dor e até massa tumoral visível.
A detecção tardia de cânceres diminui a chance de tratamento e de obter desfechos positivos.
Embora uma decisão do STF de 2020, confirmada em 2024, estabeleça que “marcações de consultas e exames de todas as especialidades médicas devem ser realizadas independentemente do sexo biológico registrado”, na prática o preconceito limita o atendimento a esse grupo demográfico.
Uma pesquisa realizada pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), com 1.100 pessoas trans em todos os estados do Brasil, constatou que 94% das pessoas entrevistadas relataram episódios de preconceito durante atendimentos de saúde. Dessas, 36% disseram que já tiveram atendimentos recusados por serem trans.
Ginecologista endócrina com pacientes trans e docente da Universidade Federal de Uberlândia, Camila Toffoli diz já ter ouvido colegas dizerem em congressos “eu não cuido de homem”.
Um argumento comum entre ginecologistas, segundo Toffoli, é o de que “não sabem atender” pessoas que fizeram transição de gênero, sejam homens que preservaram ou aparelho reprodutor genital feminino ou mulheres que fizeram vaginoplastia.
A impressão é registrada em dados por um estudo publicado por pesquisadoras da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Alfenas (MG) em 2022. As autoras ouviram ginecologistas cisgênero quanto a atendimento prestado a homens transgênero.
Mais da metade (52,77%) nunca tinha recebido nenhum paciente trans; 74,98% disseram não se sentir plenamente preparados para lidar com a situação; e 19,42% afirmaram não se sentir plenamente confortáveis para atendê-los.
Com a falta de acesso ao especialista, o cuidado é assumido por outras especialidades, que não estão prontas para detectar e tratar casos de HPV, sejam os de baixo risco, sejam os tipos oncogênicos.
“Fica-se ali com o cuidado assumido pelo médico de família, ou pelo endocrinologista, que entende da questão hormonal, mas não da saúde ginecológica propriamente dita”, diz Tóffoli.
Uma questão de protocolo
Além do preconceito, a falta de pesquisas sobre a saúde trans também é outro desafio para o cuidado integral dessa população.
Pilar Estevez, oncologista e diretora de corpo clínico do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), conta que é possível detectar com exames laboratoriais inflamações potencialmente cancerígenas ligadas ao HPV em neovaginas.
Contudo, não há padronização, e a literatura médica não especifica, por exemplo, sinais de atenção para a detecção precoce, que motivaria uma coleta e análise subsequente. Atualmente, o único câncer plenamente rastreável é o do colo do útero.
Janine, percebendo essa deficiência em suas pesquisas, busca desenvolver uma nova estratégia de saúde pública para a população LGBT+ no estado do Rio de Janeiro. Entre as inovações propostas está um protocolo de inspeção precoce do HPV em neovaginas.
O procedimento se justificaria em pesquisas como a realizada em 2025 pela farmacêutica MSD, fabricante da vacina contra HPV utilizada no Brasil, que encontrou prevalência do vírus 53,3% maior em pessoas trans do que em pessoas cis.
Mas, segundo Janine, seria preciso que houvesse de início um interesse por parte da academia, “que daria os instrumentos para o desenvolvimento de políticas públicas”.
Prevenção
A principal forma de prevenção do vírus HPV é a vacina. A tetravalente, que é oferecida pelo SUS para crianças de 9 a 14 anos, independente do gênero, protege contra os tipos 16 e 18, de alto risco, e contra dois tipos de baixo risco que causam verrugas, o 6 e o 11.
Fora dessa faixa etária, a aplicação gratuita do imunizante se limita a casos específicos: pessoas imunossuprimidas de 9 a 45 anos; pessoas vivendo com HIV; transplantados; pacientes com câncer; usuários de PrEP (antirretrovirais usadas antes da exposição ao HIV); vítimas de violência sexual e pessoas com papilomatose respiratória recorrente.
Para Camila Tóffoli, é importante traçar estratégias complementares. Ela defende que o imunizante seja administrado após o tratamento de HPV, para fortalecer a reação imunológica das pessoas atingidas pelo vírus.
“O que se tem feito em mulheres cis que são diagnosticadas com HPV é vacinar para ajudar a eliminar o vírus. Só que, para as mulheres trans, ainda não temos isso definido, não tem protocolo específico.”
Pessoas que não fazem parte do público-alvo das campanhas podem tomar a versão nonavalente na rede particular. O custo, contudo, é um fator de dificuldade. O imunizante, que protege contra os mesmos quatro tipos da tetravalente e mais cinco de alto risco, deve ser tomado em três doses, cada uma custando cerca de R$ 900.
Esta reportagem foi produzida durante o 11º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha, que teve apoio do Einstein Hospital Israelita e do Laboratório Roche.
Informação
Folha de São Paulo



