Política

Fake news sobre Flávio e Nossa Senhora Aparecida circula entre católicos

Quinta-feira (24) à noite, Nossa Senhora Aparecida entrou na campanha presidencial. Circulou rapidamente pelas redes sociais e por grupos de WhatsApp católicos a notícia de que Flávio Bolsonaro (PL) pretendia retirar dela o título de padroeira do Brasil. Era falsa. Não existe qualquer proposta do candidato nesse sentido.

Ao reagir, Flávio negou a história e aproveitou para acusar Lula (PT) com outro tema que havia circulado na semana anterior.

Em um encontro com lideranças religiosas no Palácio do Planalto, Lula havia criticado o celibato e a exclusão das mulheres do sacerdócio católico. Disse que já havia falado sobre isso com o papa Francisco e associou essas regras às dificuldades enfrentadas pela Igreja Católica diante do crescimento evangélico.

A fala provocou reação da Frente Parlamentar Católica, que pediu respeito à autonomia da Igreja, e foi rapidamente incorporada por Flávio Bolsonaro ao repertório eleitoral como prova de que Lula estaria “se metendo” nos assuntos internos do catolicismo.

Foi nesse caldo de crescente tensão em torno da relação de Lula com a Igreja Católica que apareceu a notícia falsa sobre Flávio e Nossa Senhora Aparecida. A disputa então ganhou os contornos da acusação de Flavio que Lula estava interferindo na Igreja. E agora a fake news de que Flavio Bolsonaro colocará as mãos em um dos símbolos mais importantes do catolicismo brasileiro.

Lula também já foi envolvido em fake news envolvendo religião. A história está longe de ser nova.

A acusação de que o petista fecharia igrejas acompanha sua trajetória eleitoral praticamente desde a primeira candidatura à Presidência. Em 1989, setores evangélicos já difundiam o temor de que sua eleição pudesse resultar em perseguição religiosa. Mais de 30 anos depois, em 2022, a mesma história voltou a circular com força.

Esse tipo de boato e disputa funciona acionando o medo religioso. A religião se torna, assim, um idioma privilegiado da disputa eleitoral: o adversário não é apenas alguém de quem se discorda, mas alguém que ameaça aquilo que o eleitor considera sagrado. É uma espécie de guerra santa estável da política brasileira, alimentada pela sensibilidade da fé e pela possibilidade de transformar diferença política em ameaça existencial.

O recurso ao medo também empobrece o debate público justamente quando ele deveria se tornar mais substantivo. Faltando pouco mais de uma semana para o primeiro turno, as polêmicas envolvendo catolicismo mostram como essa é uma fatia religiosa que ainda importa muito para as campanhas.

É uma pena que o debate se dê nesses termos. Há temas mais concretos e, por isso mesmo, mais espinhosos que poderiam mover a discussão sobre religião e política nesta eleição. Entre eles está o uso de recursos públicos, inclusive emendas parlamentares, para iniciativas que tensionam os limites da laicidade do Estado.


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Folha de São Paulo

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