Família fisga boto raro que só existe no Brasil durante pescaria

A pescaria tinha um objetivo claro: capturar uma piraíba, um dos peixes mais cobiçados do Rio Araguaia. Mas, quando a linha foi recolhida, quem apareceu preso ao anzol não era um peixe. Era um dos mamíferos aquáticos mais raros do planeta: um boto-do-Araguaia (Inia araguaiaensis).
Uma família que pescava na região de Cocalinho (MT), às margens do Rio Araguaia, fisgou acidentalmente a espécie encontrada exclusivamente na bacia hidrográfica Araguaia-Tocantins. O momento foi registrado em vídeo e mostra os pescadores mantendo o animal dentro da água enquanto retiram cuidadosamente o anzol. Em seguida, ele é devolvido ao rio.
As imagens, divulgadas pelo perfil @coracaodepescador nesta semana, rapidamente repercutiram entre pescadores e amantes da natureza por registrarem um encontro considerado incomum até mesmo para quem frequenta o Araguaia.
A reportagem tentou contato com a família responsável pela pescaria e também com Fernando Faria, autor da gravação, para saber detalhes do episódio, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. O espaço permanece aberto para manifestação.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também foi procurado para orientar como pescadores devem proceder em situações semelhantes. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.
Espécie foi descoberta pela ciência há pouco mais de uma década
Embora seja conhecido por moradores da região há muitas gerações, o boto-do-Araguaia só foi reconhecido oficialmente pela ciência em 2014. A descoberta surpreendeu pesquisadores de diversos países porque revelou que os botos da bacia Araguaia-Tocantins eram geneticamente diferentes dos botos-cor-de-rosa encontrados na Amazônia, passando a formar uma espécie própria.
Foi a primeira nova espécie de golfinho de rio descrita oficialmente no mundo em mais de cem anos. Além da raridade científica, o animal possui outra característica que desperta atenção: ele só existe nessa região do Brasil.
Segundo a bióloga Fernanda Flores, isso faz com que cada exemplar tenha enorme importância para a conservação da biodiversidade nacional.”Estamos falando de um mamífero aquático que só existe nessa região do Brasil. É uma espécie única, que representa um patrimônio da nossa biodiversidade. Quando protegemos o boto-do-Araguaia, estamos protegendo também todo o ecossistema do rio”, explicou.
Muito mais que um animal curioso
Apesar de chamar atenção pelo comportamento dócil e pela inteligência, o boto desempenha uma função ecológica fundamental. Como predador de topo da cadeia alimentar, controla populações de peixes e ajuda a manter o equilíbrio dos ambientes aquáticos.
Para Fernanda Flores, sua presença funciona como um verdadeiro indicador da qualidade ambiental. “O boto funciona como um indicador ambiental. Onde existem populações saudáveis desses animais, normalmente existe um rio também saudável. Quando eles desaparecem, é um sinal de que aquele ambiente pode estar sofrendo impactos importantes”,revelou.
Outro aspecto pouco conhecido é a capacidade cognitiva desses mamíferos.”Os botos estão entre os mamíferos mais inteligentes do planeta. Eles utilizam ecolocalização para localizar alimentos, identificar obstáculos, navegar em águas turvas e até se comunicar com outros indivíduos. São animais extremamente sensíveis às alterações provocadas pela ação humana”, revela.
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Capturas acidentais preocupam pesquisadores
Embora o vídeo termine com o animal retornando ao rio, especialistas alertam que esse tipo de ocorrência representa uma ameaça real à espécie.
Segundo Fernanda Flores, os botos costumam frequentar exatamente os mesmos locais procurados pelos pescadores porque se alimentam dos mesmos peixes.”Os botos não são peixes. Eles respiram por pulmões e precisam subir constantemente à superfície. Quando ficam presos por muito tempo em anzóis ou redes, podem sofrer estresse intenso, lesões graves e até morrer por afogamento”, detalha.
A captura acidental é considerada um dos principais fatores de risco para os botos de água doce. Pesquisadores também apontam como ameaças a construção de barragens, a destruição das matas ciliares, o assoreamento dos rios, a poluição da água, o aumento da navegação e a contaminação por mercúrio proveniente do garimpo ilegal. Por possuir uma distribuição geográfica restrita, qualquer impacto ambiental na bacia Araguaia-Tocantins pode afetar diretamente toda a população da espécie.
Não é um episódio isolado
Embora raramente ganhem repercussão nacional, acidentes envolvendo botos e equipamentos de pesca já foram registrados em outras ocasiões na bacia Araguaia-Tocantins. Em anos anteriores, bombeiros e pescadores precisaram resgatar animais presos em redes de pesca ou linhas de anzol no Araguaia. Também há registros frequentes de botos acompanhando embarcações de pesca e interagindo com pescadores durante a temporada de praias. Para pesquisadores, essas ocorrências demonstram como a convivência entre a fauna silvestre e as atividades humanas se tornou cada vez mais intensa.
Como agir ao fisgar um boto
Segundo a bióloga, a atitude da família registrada no vídeo contribuiu para aumentar as chances de sobrevivência do animal. “O fato de o grupo ter conseguido retirar o anzol e devolver rapidamente o boto ao rio aumenta bastante as chances de sobrevivência. Mesmo assim, ele pode apresentar lesões internas ou desenvolver infecções posteriormente”” explica.
Ela orienta que o animal jamais seja retirado completamente da água. “Nunca se deve colocar o boto dentro da embarcação ou deixá-lo exposto ao sol apenas para fazer fotografias. Quanto menor for o tempo de manipulação, maiores são as chances de sobrevivência”, revela.
Quando o anzol estiver profundamente alojado, a recomendação é interromper a tentativa de retirada e comunicar imediatamente o Ibama ou outro órgão ambiental. “A retirada forçada pode causar lesões muito mais graves. Nessas situações, o correto é cortar a linha e acionar equipes capacitadas”, pontua.
Um símbolo da biodiversidade brasileira
A presença do boto-do-Araguaia vai muito além da beleza que desperta nos visitantes da região. Além de ser uma espécie exclusiva do Brasil, o mamífero tornou-se símbolo da riqueza ambiental da bacia Araguaia-Tocantins, considerada uma das mais importantes áreas de biodiversidade de água doce da América do Sul.
Para Fernanda Flores, proteger o boto significa preservar toda a vida existente no rio.”Cada boto salvo representa muito mais do que um único animal. Estamos preservando uma espécie exclusiva do Brasil e ajudando a manter o equilíbrio ecológico de um dos rios mais importantes do país”, conta.



