Flávio Bolsonaro vence em 9 de cada 10 cidades mais afetadas por tarifaço dos EUA

O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ficou à frente do presidente Lula (PT) na grande maioria dos municípios mais afetados pelo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros.
Levantamento da Folha mapeou as cidades cujas exportações são mais impactadas pelas tarifas anunciadas pelo presidente americano, Donald Trump.
Dos 100 municípios mais afetados, Flávio Bolsonaro foi o candidato mais votado em 92; Lula liderou em apenas 8. Quando consideradas todas as cidades brasileiras, o senador teve maioria dos votos válidos em 52% (2.907 municípios), já o petista ganhou em 48% (2.663).
A lista considera as exportações para os Estados Unidos em 2025, com base em dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). O ranking é uma estimativa criada a partir do cruzamento desses dados com a lista divulgada pelo governo americano dos produtos tarifados.
A maior parte das cidades mais afetadas já era majoritariamente alinhada ao bolsonarismo em 2022. É o caso de Piracicaba (SP), polo industrial de máquinas e equipamentos que lidera o ranking. A estimativa é de que cerca de R$ 5,4 bilhões em exportações anuais da cidade para os EUA estejam sujeitas ao tarifaço.
No domingo (4), Flávio Bolsonaro venceu no município com 63,4% dos votos; Lula teve 27,6%. O resultado mostra um leve salto em relação ao primeiro turno de 2022, quando Jair Bolsonaro (PL) teve 61,1%, e o petista 29,4%.
Mas, embora sejam a exceção, também há casos de cidades que deram vitória a Lula em 2022 e agora inverteram o voto e preferiram Flávio. Das 100 cidades analisadas, 8 mudaram de lado do último pleito para este.
Ouro Branco (MG), cuja indústria siderúrgica tem peso na economia local, é um dos exemplos. Ribeirão Pires (SP), que vive uma queda na exportação de munições para os EUA, também. O mesmo vale para Bituruna (PR), dependente do setor madeireiro.
O ranking de cidades mais afetadas considerou o valor de bens exportados em 2025 que estão sujeitos ao tarifaço. O levantamento desconsiderou as capitais, que apresentam alto valor de exportações taxadas, mas cuja economia local é mais diversificada e, portanto, menos sensível a esses impactos.
Em julho, a gestão Trump anunciou novas tarifas contra o Brasil após uma investigação sobre práticas comerciais brasileiras. Foram duas rodadas: uma de 25%, outra de 12,5%. Em muitos casos, os produtos estão sujeitos às alíquotas somadas, ou seja, 37,5%.
Segundo estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria), cerca de R$ 55 bilhões em mercadorias brasileiras se enquadram na dupla tributação.
A análise da Folha classificou como “taxados” os itens que apresentassem tributação em pelo menos uma das duas alíquotas analisadas (25% ou 12,5%). Somente os itens isentos em ambas as alíquotas foram classificados como tais.
Foi considerada nos municípios a classificação do Sistema Harmonizado de quatro dígitos, um código de mercadorias que circulam no comércio internacional criado pela Organização Mundial das Alfândegas.
O levantamento é uma estimativa, uma vez que em uma mesma categoria pode haver produtos isentos e taxados, e os EUA usam uma classificação diferente da brasileira.
O revés de Lula nessas cidades sugere que uma das principais apostas da campanha petista pode não ter surtido efeito. O objetivo era atrelar Flávio às sanções americanas, dada a proximidade do clã Bolsonaro com o entorno de Trump.
Em 2025, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro —irmão de Flávio— fez uma publicação nas redes sociais agradecendo ao presidente americano pelo anúncio de uma tarifa de 50% contra as exportações brasileiras. A medida —que seria revogada posteriormente— foi tomada em retaliação ao que Washington chamou de “caça às bruxas” contra o ex-presidente Bolsonaro.
Uma das estratégias de Lula na corrida eleitoral era pintar Flávio como alguém subserviente aos interesses do presidente americano. O partido do presidente passou a martelar o termo “tariflávio”, cunhado para associar o senador às medidas americanas e à pecha de traidor da pátria.
Na época, nomes do centrão e até mesmo aliados de Flávio avaliaram que o novo tarifaço seria um entrave para a campanha presidencial do senador.
Para conter o efeito negativo sobre sua imagem, o candidato do PL pediu às autoridades dos EUA que adiassem a decisão sobre as tarifas para depois da eleição, sob o argumento de que a imposição de taxas fortaleceria Lula.
Em seu plano de governo, Lula elegeu política externa e defesa como elementos centrais, conectados à soberania. Variações da palavra soberania aparecem 42 vezes.
Feliciano Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, diz que umas das leituras possíveis de serem feitas sobre o resultado é a de que a população dessas cidades puniu o presidente Lula por conta dos efeitos da tarifa —embora não seja possível cravar nada nesse sentido sem estudos mais aprofundados.
“Isso é contra a noção geral de que as tarifas, na realidade, estavam aumentando a popularidade do presidente. Acho que nessas regiões, em que as tarifas têm um impacto direto, há uma penalização maior do presidente por não defender aquele setor em particular”, afirma.
Guimarães faz um paralelo com outros estudos sobre impactos do comércio exterior, que demonstram como regiões afetadas pela forte concorrência de produtos chineses tendem a reagir elegendo políticos com posições anti-China.
O cientista político José Niemeyer, professor do Ibmec no Rio, também reflete sobre os motivos que levaram Flávio Bolsonaro a ter tanto sucesso eleitoral em municípios afetados pelo tarifaço.
Uma das hipóteses é que a narrativa de Lula sobre “soberania” não ressoou com a realidade do eleitorado de base, sendo vista como uma pauta abstrata e distante.
“Parte do discurso do presidente Lula foi criticada por alguns analistas, por falar muito de soberania econômica, um discurso muito elitizado. Talvez os temas internacionais não tenham sido tão impactantes para o resultado da eleição”, afirma.
Folha de São Paulo



