Flávio se nega a prestar contas sobre ‘Dark Horse’, tenta colar Master em Lula e diz que respeitará urnas

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, recusou-se a explicar o uso do dinheiro dado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ao filme “Dark Horse”, disse se tratar de uma relação privada e afirmou não ver nada de errado.
“Não tem absolutamente nada de errado em um filho buscar financiamento privado para um filme do próprio pai. E alguém que, obviamente, apesar de ser senador, não teve nenhuma contrapartida para esse investidor”, disse nesta sexta-feira (28) à TV Globo.
O senador resumiu a prestação de contas do filme à perícia privada feita pela própria produtora. O candidato disse que “tudo já veio à tona” e que o caso é um “livro fechado”, recusando-se a mostrar o contrato com o Master, a planilha de gastos ou mesmo os demais investidores do filme.
As declarações foram dadas aos âncoras do Jornal Nacional, durante entrevista que faz parte de uma série com presidenciáveis nesta semana.
Flávio também não explicou o que quis dizer quando falou para Vorcaro, em uma troca de mensagens, “estou e estarei contigo sempre”. O senador afirmou que a relação dele com o ex-banqueiro “sempre foi relativa ao filme”.
Ele também tentou colar o episódio ao governo Lula (PT), dizendo ter inclusive defendido a criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre o Master para que políticos como o ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT), dessem explicações.
Em maio, o site The Intercept revelou mensagens trocadas entre Flávio e Vorcaro em que o senador pede dinheiro para bancar o filme Dark Horse, uma biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo a publicação, o valor total negociado foi de R$ 134 milhões e ao menos R$ 61 milhões foram pagos.
Flávio inicialmente disse que não tinha qualquer relação com Vorcaro, mas depois admitiu que os dois se encontraram pessoalmente em dezembro —quando Vorcaro já havia sido preso e o Master, liquidado. Nesta sexta, disse que não queria que “essa obra de arte” sobre o pai fosse perdida.
Como mostrou a Folha, Flávio prometeu, na época, prestar contas sobre o financiamento do filme, mas terceirizou esse balanço para a produtora da obra, a Go Up Entertainment, que apresentou apenas uma perícia própria e privada.
Segundo Flávio, o dono do Banco Master também patrocinou o programa de Luciano Huck, da TV Globo, e evento do Valor Econômico, publicação pertencente ao Grupo Globo. O apresentador César Tralli afirmou que a publicidade da emissora respeita as leis e regras de transparência.
Na entrevista, o candidato do PL afirmou que vai respeitar o resultado das urnas e disse que errou ao afirmar, em julho, que as urnas eletrônicas brasileiras eram fabricadas por uma empresa venezuelana, o que é mentira.
“Falei errado, a empresa venezuelana não fabricou as urnas. […] Eu fui bem claro ao dizer que jamais questionei o processo eleitoral. Vou respeitar o resultado das eleições“, declarou.
Ao falar sobre o julgamento da tentativa de golpe de 2022, Flávio afirmou que seu pai foi vítima de uma farsa para ser retirado da vida pública. O senador disse ainda que Bolsonaro foi julgado por seus inimigos, mencionando os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e Flávio Dino, e reforçou que dará anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro de 2023.
Flávio também foi questionado pela homenagem que concedeu, enquanto deputado estadual do Rio de Janeiro, ao miliciano Adriano da Nóbrega, chefe do grupo de matadores conhecido como Escritório do Crime.
“Eu não posso ser responsabilizado pelo que a pessoa se transforma depois de cinco, dez anos”, disse. “Na época ele não era isso [matador de aluguel], na época ele era um policial exemplar.”
Adriano já acumulava 29 dias de detenções administrativas pela Polícia Militar em junho de 2005, quando foi homenageado.
Diante da pergunta a respeito de Eduardo Bolsonaro ter agradecido publicamente Donald Trump pelas tarifas impostas ao Brasil, Flávio disse que o irmão errou, mas que a decisão de taxar o país foi do presidente americano, não de seu irmão. “Acho que ele errou em agradecer em relação às tarifas”, disse.
Flávio afirmou que a tarifa foi culpa do Lula e voltou a falar sobre Moraes. “Não acho correto que Alexandre de Moraes, uma pessoa interessada, condene o Eduardo”, disse.
Ao impor a primeira rodada de tarifas ao Brasil, no ano passado, Trump justificou a medida em parte como uma retaliação ao que considerava uma perseguição da Justiça a Bolsonaro. Nos EUA, Eduardo vinha trabalhando a favor do tarifaço.
Neste ano, Flávio passou a culpar Lula pela imposição de tarifas e teve um encontro com Trump para pedir que os EUA classificassem facções como terroristas. Dias após a reunião, o americano anunciou um novo tarifaço, em mais um revés para Flávio.
Assim como fez seu pai nas entrevistas ao Jornal Nacional em 2018 e 2022, Flávio mostrou anotações feitas à caneta na própria mão. As câmeras mostraram as palavras “mudança” e “futuro” e “7/set” em aparente referência ao ato bolsonarista marcado para 7 de Setembro na avenida Paulista, em São Paulo.
Bolsonaro usou a mesma estratégia em entrevistas do Jornal Nacional nas duas campanhas presidenciais que disputou. Em 2018, escreveu “Deus”, “família” e “Brasil” na mão. Quatro anos depois, apareceu com as palavras “Nicarágua”, “Argentina”, “Colômbia” e “Dario Messer”.
Nesta sexta, Flávio afirmou que fará um tesouraço de cargos e ministérios, mas não detalhou outras medidas que possam efetivamente gerar economia. O presidenciável não respondeu, por exemplo, qual será o ajuste feito por ele, em um eventual governo, em reais ou pontos do PIB (Produto Interno Bruto).
O senador acrescentou que a taxa básica de juros, a Selic, hoje em 14% ao ano, vai cair apenas pelo fato de ele ser eleito. “Uma equipe séria vai fazer com que a taxa de juros caia na reunião seguinte”, declarou.
Ele prometeu “não fazer economia em cima dos aposentados”.
Ao ser perguntado se acredita em aquecimento global, Flávio afirmou que nem todos os eventos climáticos podem ser atribuídos à intervenção humana. “Eu acho que tem eventos climáticos extremos”, disse.
Durante a entrevista, o senador afirmou que, em caso de vitória, o médico Cláudio Lottenberg será seu ministro da Saúde. Lottenberg é presidente do conselho do Hospital Albert Einstein e presidente da Confederação Israelita do Brasil. Ele foi secretário de Saúde da cidade de São Paulo na gestão de José Serra.
Folha de São Paulo



