Frete de petróleo dos EUA para China já custa mais do que lançar um foguete ao espaço

Para ter uma ideia de quão extraordinários se tornaram os custos de transporte de petróleo, considere o seguinte: hoje é mais caro fretar um navio-tanque dos Estados Unidos para a China do que lançar um foguete ao espaço.
Essa viagem custa cerca de US$ 80 milhões, em comparação com os US$ 74 milhões de um lançamento padrão do foguete Falcon 9, da SpaceX, informou a corretora marítima Gibson nesta semana. Com esse mesmo valor, seria possível comprar à vista um navio-tanque quase idêntico no início deste ano.
Os preços exorbitantes são resultado de uma escassez global de petroleiros que piora a cada barril adicional de petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz. Há semanas, o mercado de superpetroleiros vive um boom sem precedentes, segundo veteranos do setor. A corretora SSY afirma que, mesmo descontada a inflação, as tarifas estão nos níveis mais altos desde que os primeiros superpetroleiros começaram a operar nos oceanos, nos anos 1960, superando inclusive as chamadas “guerras dos petroleiros” da década de 1980, quando Irã e Iraque atacavam embarcações comerciais no Golfo Pérsico.

“Realmente não há navios suficientes para atender toda a demanda”, afirmou Russell Hardy, diretor-presidente da Vitol Group, a maior trading independente de petróleo do mundo, durante uma conferência nesta semana. “Os preços tiveram um comportamento praticamente parabólico.”
A disparada representa um novo desafio para um mercado de petróleo que passou meses se adaptando à ruptura histórica provocada pela guerra envolvendo o Irã. Custos mais elevados de transporte tornam o petróleo bruto mais caro para os compradores, reduzem as margens de refino e aumentam as pressões inflacionárias nos mercados de energia.
No centro desse boom está um problema simples: não há navios suficientes para transportar de forma eficiente todos os barris que precisam ser movimentados. Produtores do Oriente Médio têm recorrido cada vez mais ao transbordo de petróleo em embarcações próximas ao Estreito de Ormuz, à medida que a guerra com o Irã remodela os fluxos comerciais da região.
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Essas operações adicionam, em alguns casos, cerca de uma semana a cada viagem, reduzindo a disponibilidade efetiva da frota global. O impacto aumentou com a recuperação do tráfego pelo estreito para aproximadamente 80% dos níveis registrados antes da guerra, segundo executivos do setor.
A natureza irregular desses fluxos comerciais agravou ainda mais a escassez. Quando o movimento por Ormuz despencou, petroleiros passaram semanas navegando vazios do Oriente Médio para outras regiões do mundo em busca de carga. Agora que os embarques do Golfo voltam gradualmente, os navios precisam ser reposicionados novamente, um processo que pode levar semanas.
A interrupção das exportações iranianas para a China também aumentou a pressão, obrigando compradores chineses a buscar petróleo em outros mercados e elevando a demanda por navios-tanque na rota tradicional.
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Ataques iranianos que tiraram embarcações de operação para reparos reduziram ainda mais a capacidade disponível, enquanto alguns navios passaram a percorrer milhares de quilômetros adicionais contornando a África para evitar ataques dos houthis.
“Já vimos mercados de frete extraordinários antes, mas a velocidade, magnitude e abrangência desta alta são notáveis”, disse Lauren Gallinari, chefe de inteligência de mercado da corretora marítima MJLF & Associates.
Aperto no frete
O que antes representava um custo relativamente pequeno na cadeia do petróleo passou a ter peso significativo. Nesta semana, uma contratação partindo dos EUA foi fechada a uma tarifa equivalente a US$ 41 por barril transportado, ante média de US$ 4,50 na mesma rota no ano passado.
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Isso equivale a cerca de 45% do valor do petróleo WTI, negociado próximo de US$ 91 por barril na sexta-feira.
Para os proprietários de navios, os fretes recordes representam um ganho extraordinário. A disparada está rendendo milhões de dólares a um grupo restrito de armadores, incluindo um enigmático magnata sul-coreano, famílias gregas e empresários noruegueses que dominam o setor.
Quando as tarifas atingiram novos recordes neste mês, o sentimento no mercado era de que a alta ainda estava longe do fim. Muitos armadores continuam otimistas no curto prazo e, até agora, quem apostou contra eles saiu perdendo.
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“Com pouca capacidade adicional disponível, os fretes passam a depender cada vez mais do quanto os fretadores conseguem pagar”, escreveram analistas da Clarksons Securities.
A volatilidade se tornou tão extrema que traders têm dificuldade para estimar os custos de transporte mesmo com margem de erro de vários dólares por barril, afirmou Hardy, da Vitol.
Mercado busca alternativas
O setor já começou a se adaptar. Cargas vindas da África Ocidental e da América do Sul, que normalmente seriam transportadas em um único superpetroleiro, estão sendo divididas entre dois navios menores do tipo Suezmax.
Ao mesmo tempo, produtores de petróleo tentam comprar embarcações ou garantir contratos de longo prazo para se proteger da volatilidade. Iraque, Emirados Árabes Unidos e Kuwait estão entre os produtores que passaram recentemente ao mercado em busca de navios.
Como resultado, a pressão se espalhou para outros segmentos. Os ganhos diários médios de navios Suezmax ultrapassaram US$ 680 mil, cerca de cinco vezes mais do que no início do mês.
As tarifas para embarcações que transportam gases como propano também se aproximam de níveis recordes, depois de mais que triplicarem desde o fim do ano passado.
Comprar uma saída para o problema também está cada vez mais caro. O valor de um petroleiro moderno no mercado de usados alcançou US$ 240 milhões, o maior da história, segundo a Clarkson Research Services, divisão da maior corretora marítima do mundo, mais de 60% acima do nível registrado no fim do ano passado.
Para os produtores, a escalada dos fretes começa a alterar a economia das exportações de petróleo. Na África Ocidental, região que depende fortemente das refinarias chinesas, situadas a cerca de 16 mil quilômetros de distância, os preços do petróleo estão recuando à medida que vendedores oferecem descontos para compensar o aumento dos custos de transporte.
Em atualização ao mercado nesta semana, a Shell informou que parte de seus resultados do terceiro trimestre sofrerá impacto do aumento dos componentes variáveis em contratos de afretamento de longo prazo, em meio ao atual ambiente macroeconômico. A companhia já havia feito observação semelhante anteriormente neste ano.
Enquanto isso, o valor de mercado das maiores empresas de transporte marítimo listadas em Bolsa atingiu um novo recorde, superando US$ 70 bilhões.
A principal pergunta agora é até onde essa alta pode ir antes de tornar inviável o negócio de comprar petróleo bruto, transportá-lo ao redor do mundo e transformá-lo em combustíveis.
Por enquanto, a escassez global de diesel mantém as margens de refino elevadas. No entanto, o aumento dos fretes já começa a corroer esse colchão. Embora a refinadora espanhola Repsol tenha reportado margens de US$ 36 por barril no terceiro trimestre, analistas do RBC estimam que esse valor tenha caído para cerca de US$ 15 por barril em outubro, em parte devido aos altos custos de transporte.
Se os fretes continuarem subindo, refinarias poderão eventualmente reduzir o volume de petróleo processado.
“O mercado segue ganhando força”, disse Tor Svelland, fundador do hedge fund Svelland Capital e ex-trader de fretes marítimos. “Em determinado momento, as refinarias podem simplesmente fazer uma pausa. Quando o transporte passa de 5% para 50% do valor da carga, os fluxos comerciais param.”
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