AgroCultura

Guardiões de sementes: conheça o trabalho de quem preserva a biodiversidade e a cultura agrícola



A produtora rural Aparecida Teixeira aninha a espiga de milho branco rente ao corpo, como quem tem algo muito precioso nas mãos. “Olhar para esta espiga é olhar para a vida”, afirma. Foi um produtor que cultiva o grão há mais de 60 anos que repassou algumas sementes para a agricultora, que mantém essa e várias outras espécies sob seus cuidados. Trata-se de uma variedade de milho crioulo que ainda está no início do desenvolvimento. “Mas já dá para ver que o milho será muito bom”, diz.
Guardiões de sementes
Cida – este é o apelido pelo qual todos a conhecem no distrito de Itaiacoca, na área rural de Ponta Grossa (PR), onde vive – e o marido, Antônio Ostrufk, atuam como guardiões de sementes crioulas. Segundo a Lei de Sementes e Mudas, de 2003, essas sementes têm características muito próprias, que as diferenciam de cultivares comerciais, e são também um elemento cultural das comunidades que as utilizam.
Indígenas, assentados da reforma agrária e produtores da agricultura familiar são os grupos que mais se dedicam ao cultivo dessas variedades, conhecidas por nomes como sementes da resistência ou sementes da paixão, a depender da região do país. O plantio desses grãos ocorre em sistemas agroecológicos, e há várias gerações, o que faz com que esse trabalho ajude a perpetuar não somente as espécies, mas também as memórias e os hábitos alimentares dos territórios.
Vera Lúcia Félix, guardiã de sementes em Palmeira dos Índios (AL): “Tenho aqui sementes com quase meio século de história”
Arquivo pessoal
Não se sabe ao certo quantos pequenos produtores atuam como guardiões de sementes no Brasil, mas já existem dados que atestam o enorme efeito positivo do trabalho dessas pessoas. Em 2022, a Embrapa identificou mais de 3.000 variedades crioulas, de mais de 20 espécies alimentícias, sob os cuidados desses agricultores em todo o país.
Em ao menos três pontos há consenso entre pesquisadores sobre a importância das sementes crioulas. Um deles é a boa adaptação a seus respectivos locais de ocorrência: como a seleção das cultivares ocorreu ao longo de muitas gerações e sempre no mesmo ambiente, as variedades crioulas tendem a ser mais estáveis quando ocorrem problemas climáticos, como estiagens.
As sementes crioulas também dão mais autonomia aos produtores, que, ao guardá-las e replantá-las, conseguem reduzir a necessidade de compra de sementes comerciais todos os anos. E, por fim, já existem estudos que mostram que os valores nutricionais dos itens alimentícios produzidos com sementes crioulas são mais altos do que os de cultivares que tiveram melhoramento genético voltado prioritariamente a ganhos de produtividade.
O agricultor Antônio Ostrufk: produtor mantém uma casa de sementes crioulas e um centro de treinamento em agroecologia para difundir as práticas dos guardiões
Henry Mileo
“Ser um guardião de sementes é cuidar do futuro das próximas gerações”, resume Cida, que começou a plantar milho branco há cinco anos. Ela também cultiva milhos amarelo e roxo e vários tipos de feijão, fava e amendoim, em um trabalho em sistema de rotação. Neste ano, a produção de feijões chegou a 200 quilos; com os três tipos de milho, a expectativa é colher 6.000 quilos.
Cida relata que o plantio de cada variedade ocorre separadamente, em pequenas áreas, a fim de evitar a polinização cruzada. Ela e o marido selecionam os melhores grãos e os armazenam no banco de sementes, uma casa de adobe construída no próprio sítio.
O casal utiliza o estoque para trocar sementes com outros guardiões ou, então, para replantio – e consome o volume que sobra. A renda da propriedade sai do plantio e comercialização de hortaliças e frutíferas.
Variedades crioulas tendem a ser mais estáveis quando ocorrem problemas climáticos, como estiagens
Henry Milleo
Ostrufk criou, no próprio sítio, o Centro de Estudos e Treinamento em Agroecologia (Ceta), onde compartilha informações sobre cultivo de sementes crioulas e outros aspectos do sistema agroecológico com agricultores e interessados. Para ele, a educação é um instrumento central nos esforços para perpetuar a figura do guardião de sementes crioulas. “Resistência é a palavra-chave”, diz. Nos encontros, os campesinos também participam de cantos, orações e de uma refeição coletiva.
Para atrair o interesse das novas gerações para a guarda de sementes, o pedagogo João Henrique Silva Vera põe a atividade no dia a dia de crianças e jovens. Ele dirige o Educandário Humberto de Campos, na área rural de Alto Paraíso de Goiás (GO), na Chapada dos Veadeiros, que mantém, desde o ano 2000, um banco pedagógico de sementes crioulas.
Os mais de 150 alunos aprendem todas as etapas do cultivo das sementes no espaço, que “funciona como um seguro biológico da humanidade”, como define o educador.
E funciona também como uma aula de história na prática. O trigo veadeiro, uma das preciosidades do local, tem uma relação tão forte com a história de Alto Paraíso que a imagem de um ramo do cereal até compõe a bandeira do município.
A professora Lia Maris Antiqueira, da UTFPR: para ela, o avanço da agricultura de larga escala e o desinteresse das novas gerações pela atividade são desafios para os guardiões
Henry Milleo
O cereal teria chegado à região da Chapada dos Veadeiros em 1738, por iniciativa de uma família de egípcios – embora haja relatos de que a chegada ocorreu em 1780, e por obra de ciganos egressos da Bahia. Mas, qualquer que tenha sido a origem, o fato é que o trigo veadeiro tem importância histórica e também agronômica. Nos tempos do Brasil Colônia, houve uma série de tentativas de introduzir a cultura no país, no entanto, poucas variedades conseguiram vingar.
Com isso, os agricultores começaram a plantar uma mistura de tipos, e os trigos que se sobressaíam eram os que permaneciam nas safras seguintes. Os chamados trigos coloniais, ou crioulos, surgiram dessa forma. O veadeiro tinha um reconhecido bom desempenho na região, mas, ainda assim, perdeu espaço, pois os agricultores passaram a dar preferência a variedades mais comerciais. Um dos motivos teria sido a coloração do veadeiro, um pouco mais escuro do que as opções comerciais.
José Luís das Chagas, guardião de sementes em Pauliceia (SP): “É um trabalho muito valioso para o planeta e para a humanidade”
Arquivo pessoal
Com esse virtual abandono, o veadeiro praticamente desapareceu. O Banco Genético da Embrapa preservou sementes da cultivar e repassou algumas para o Educandário Humberto de Campos. A escola cultivou o trigo e, em 2023, entregou a variedade a agricultores do quilombo do Vão das Almas, em Cavalcante (GO), um dos locais que deram origem ao veadeiro.
“Foi muito emocionante participar do resgate desse trigo, que tinha sido extinto devido ao que chamamos de erosão genética”, afirma o pedagogo.
O banco pedagógico da escola também guarda sementes crioulas de milho, favas, abóboras, melancia e de mais de 20 variedades de feijão. Todas elas são próprias para os períodos de baixa umidade característicos do Cerrado, o que faz do banco, também, um repositório para os cerca de 800 agricultores que vivem no entorno.
Ainda que as variedades crioulas tenham íntima relação com hábitos e tradições eminentemente locais, muitos guardiões fornecem sementes não apenas a suas comunidades, mas também a agricultores de outras regiões do país. É o caso de José Luís das Chagas, que mantém o Santuário das Sementes Crioulas em sua propriedade de dez hectares, localizada no assentamento Regência, em Pauliceia (SP).
Sementes armazenadas em garrafas PET
Henry Milleo
“Tenho muitas parcerias e atualmente forneço materiais para agricultores e povos indígenas do Paraná, do Rio Grande do Sul e de Mato Grosso do Sul”, relata. As sementes ficam em um paiol de barro, mantidas em garrafas PET e tambores de metal ou plástico. Milhos e feijões são as principais variedades, e há também amendoim, gergelim e arroz.
Faz 58 anos que Chagas atua na agricultura familiar e há duas décadas que é guardião. Ele vende, troca e também doa as sementes crioulas e alimentos que produz – o volume total é de mais de dez toneladas por ano. O agricultor observa que, apesar de existirem muitas organizações que fornecem apoio a quem adota o manejo agroecológico, não há quem cuide especificamente dos guardiões. “Estamos desprotegidos”, afirma.
Para além dessa falta de proteção, o avanço da agricultura de larga escala e o desinteresse dos mais jovens pela atividade estão entre os fatores que mais limitam a expansão do trabalho dos guardiões de sementes, avalia a professora Lia Maris Antiqueira, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
Oficina da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, coordenada pela pesquisadora Marília Lobo Burle, com guardiões de sementes crioulas de todo o país
Arquivo pessoal
A professora lidera o grupo de pesquisa, ensino e extensão em conservação da natureza e educação ambiental (Conea) do campus Ponta Grossa da UTFPR, onde acompanha o trabalho desses agricultores e os conecta com pesquisadores de várias áreas.
Se, por um lado, falta proteção, como relata Chagas, de outro, o trabalho dos guardiões de sementes crioulas tem recebido atenção crescente no universo da pesquisa. “Sentimos necessidade de fortalecer esse vínculo (…) Sabemos que essa conservação, própria do manejo nos sistemas agrícolas familiares e em comunidades tradicionais, é de extrema importância”, diz Marília Lobo Burle, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.
+ Semente de abóbora sem casca poderá ser lançada no mercado
Essa unidade, localizada em Brasília, abriga o Banco Genético da estatal de pesquisa agropecuária e, nos últimos seis anos, tem conduzido o projeto Conserva-In, que tem como objetivo fortalecer a conservação de recursos genéticos vegetais nas próprias fazendas (o chamado “on farm”). Participam da iniciativa 18 unidades da Embrapa das regiões Sul e Nordeste, além de organizações sociais, associações, comunidades e sindicatos.
A troca de informações e as discussões sobre as demandas resultaram na criação de um coletivo, e os debates desse grupo farão parte de uma publicação que a Embrapa prevê lançar no segundo semestre deste ano.
Não existem estatísticas oficiais sobre o trabalho dos guardiões, mas, segundo Marília, a Embrapa já identificou a existência de mais de 300 bancos comunitários de sementes crioulas. Alimentam essas estruturas pessoas como Vera Lúcia Félix, moradora da comunidade Serra Bonita, em Palmeira dos Índios, no agreste alagoano.
Banco de sementes no Semiárido
Arquivo pessoal
A produtora conta que já chegou a cultivar 45 variedades de sementes crioulas, entre cereais, leguminosas e frutíferas, destinadas a um banco de sementes coletivo, porém, hoje, trabalha com 12 variedades para subsistência e multiplicação, entre fava, milho e feijões de arranca e andu.
Ela faz o plantio nos arredores de casa, em consórcio com árvores frutíferas como jaca, manga, caju, acerola, jamelão, amora e pitomba. A agricultora decidiu reduzir a produção em 2022, quando ela deixou de trabalhar como feirante. “Não pretendo parar, só se um dia eu não puder mais ir para a roça”, afirma. “Tenho aqui sementes com quase meio século de história.”
+ Recorde da piscicultura brasileira é destaque da nova edição da Globo Rural
Em Alagoas, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) lançou, em parceria com a Embrapa Alimentos e Territórios, o catálogo “Sementes da Resistência”, que apresenta 47 variedades de sementes crioulas, cultivadas em 21 comunidades de cinco municípios do estado.
O pesquisador Fernando Curado, da Embrapa Alimentos e Territórios, diz que a parceria com o MPA inclui ainda o monitoramento de sementes crioulas na região, uma tarefa que permite identificar eventuais contaminações, e o fortalecimento do processo de produção, por meio da instalação de campos de multiplicação.
Segundo a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), só na área de atuação da rede há 18.000 guardiões de sementes crioulas. Um levantamento de 2025 mapeou 875 casas e bancos de sementes em 29 territórios do interior do Nordeste e do norte de Minas Gerais; 262 tipos de feijão; 108 de milho; 75 de fava; e oito de abóbora.
Sementes crioulas
Henry Milleo
Mardônio Graça, coordenador executivo da ASA, afirma que o cultivo de sementes crioulas dá mais autonomia ao agricultor familiar e ajuda a reduzir custos. Ele cita um exemplo: um pacote de dez quilos de semente de milho transgênico custa, em média, de R$ 500 a R$ 700 na região do Semiárido; já um pacote de 60 quilos de semente crioula custa R$ 500. “E os agricultores adotam amplamente a cultura da troca”, observa.
Os guardiões não estão apenas no campo. A professora Ana Andréa Jantara, de Palmeira (PR), lidera a Casa de Sementes Urbanas, onde é possível encontrar cultivares de feijão, fava e vagem, e também variedades ancestrais de milho, como o teosinto e os bolivianos preto e vermelho.
A guardiã urbana mantém uma horta de 800 metros quadrados no quintal de casa, na qual planta 70 tipos de sementes crioulas – ou, se os porongos (frutos rígidos usados na produção de itens como cuias, casas de passarinhos e peças de artesanato) entrarem na conta, são mais de 100 variedades.
Do Rio Grande do Sul para a Noruega
Em Ibarama, município da região central do Rio Grande do Sul, onde vivem menos de 4.000 pessoas, um grupo de guardiões fez história, em fevereiro de 2025, ao enviar sementes de cultivares tradicionais para o Banco Global de Sementes de Svalbard, na Noruega.
Conhecido como o “cofre do Juízo Final”, o local recebeu da Associação dos Guardiões das Sementes Crioulas de Ibarama 59 variedades que os produtores da cidade cultivam (os agricultores enviaram exemplares desses mesmos materiais para o Banco de Sementes da Embrapa). “Foi uma alegria e um importante reconhecimento do nosso trabalho”, diz Mário Raminelli, presidente da associação.
O grupo, que conta com 30 famílias de guardiões de sementes, vai realizar em agosto mais uma edição da festa “Dia da Troca das Sementes Crioulas de Ibarama”, que tem atraído agricultores do Rio Grande do Sul e de outros Estados e países há 25 anos.
Além de se dedicarem ao cultivo de variedades crioulas e de culturas tradicionais da região, como fumo, parreirais e árvores frutíferas, os agricultores familiares da associação de Ibarama cuidam também da formação de guardiões mirins. “Estamos há várias gerações preservando e guardando a pureza das sementes”, afirma Raminelli. A entidade mantém ainda parcerias com Embrapa, Emater e universidades públicas da região.


Globo Rural

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo