Insegurança pública mobiliza a campanha, mas propostas dos candidatos erram os alvos

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Debaixo de uma chuva fina e diante de um público de apoiadores que beirou 30 000 pessoas no 7 de Setembro, o senador e candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL) resumiu em poucos minutos, em cima do trio elétrico que cortava a Avenida Paulista, o seu plano para enfrentar a criminalidade no Brasil: linha dura e tolerância zero. O candidato foi interrompido por aplausos da aglomeração verde-amarela quando jurou “guerra aos narcoterroristas”. Também prometeu trabalhar pela castração química de criminosos sexuais, pela redução da maioridade penal e por uma pena mínima de oito anos para quem roubar um aparelho celular. Por fim, deixou claro que nos territórios dominados pelo crime organizado, se depender dele, será cadeia ou morte. “Eu vou livrar vocês desses caras”, disse à multidão, complementando que “nessas pautas, eu vou ser um radical”.
O discurso inflamado, prometendo ações enérgicas que soaram como música aos ouvidos dos apoiadores, não é um episódio isolado na cena eleitoral. Atentos à crescente preocupação do eleitor com a segurança, os presidenciáveis têm gastado saliva para mostrar que têm a solução para a criminalidade — o que nem sempre quer dizer propostas razoáveis, exequíveis ou compatíveis com a Constituição. Romeu Zema (Novo), por exemplo, prometeu um presídio de segurança máxima no coração da Amazônia para abrigar líderes de facções, à moda do presídio de Cecot, em El Salvador, governado por Nayib Bukele. O modelo que inspira a direita abriga até 40 000 pessoas na mesma unidade prisional — o dobro do que há no Complexo de Bangu, no Rio, por exemplo —, mantém uma luz branca acesa 24 horas por dia, não permite visitas, nem que o preso veja a luz do sol. Flávio, que se encontrou em São Paulo há poucos dias com o ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, sugere cinco novos presídios em um complexo chamado de Treva, seguindo os moldes de Bukele, que abrirá 500 000 vagas no sistema carcerário do país.
Outras propostas de apelo eleitoral, mas de efetividade discutível, se espalham pela campanha. Quatro dos principais presidenciáveis — as exceções são Lula (PT) e Augusto Cury (Avante) — defendem reduzir a maioridade penal para 16 anos e enquadrar PCC e CV como terroristas (veja o quadro), algo que os EUA de Donald Trump já fizeram. Renan Santos (Missão) prega que a polícia tenha “passe livre” para matar quem resistir à prisão, mesmo em caso de furto de celular. Em mais de uma oportunidade, prometeu um “banho de sangue” contra os líderes das facções. Ronaldo Caiado (PSD), em que pese ter bom desempenho na área como governador de Goiás e propostas mais detalhadas que os rivais, endossa a linha dura e pautas difíceis de saírem do papel, como o congelamento dos bens de condenados por violência doméstica.

A dedicação dos candidatos ao tema se ancora em um termômetro que subiu bastante nos últimos meses. Uma pesquisa BTG/Nexus divulgada no último dia 8 confirmou um diagnóstico já feito por outros institutos: a criminalidade lidera entre as preocupações do eleitor (35%), acima de saúde (31%), corrupção (23%) e educação (17%). O problema aflige o cidadão mesmo com a queda de vários indicadores criminais nos últimos anos, como o de mortes violentas intencionais, que recuaram de 50 448 em 2020 para 40 775 em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Apesar da queda, a taxa de 19,1 mortes por 100 000 habitantes é uma das maiores do mundo, muito superior à dos EUA (em torno de 5) e de países europeus, que ficam abaixo de 1.
Parte do pânico vem do avanço de determinadas ocorrências, que têm o condão de espalhar a sensação de insegurança. Uma delas é a violência contra as mulheres, um dos temas que têm colocado o eleitorado feminino no topo da pauta. Apenas no primeiro semestre de 2026, o Brasil contabilizou 848 feminicídios e 36 233 vítimas de estupro ou de estupro de vulnerável, segundo dados do Ministério da Justiça. Outras ameaças que tiram o sono dos brasileiros são roubos e furtos de celulares, que somaram 831 000 ocorrências em 2025, e os golpes digitais, que cresceram 430% desde 2018, chegando a 2,26 milhões de casos no ano passado, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Dados à parte, também há explicações de ordem social para esse sentimento. “Há uma constante exposição midiática e nas redes sociais de questões ligadas à segurança e aos crimes, o que amplifica os eventos de violência de forma desproporcional”, avalia o professor e cientista social do Mackenzie Rodrigo Prando. Ele também vê a instrumentalização do tema na política, o que cria um sistema de retroalimentação. A tendência é que discursos radicalizados ganhem ainda mais espaço na arena pública por causa das redes sociais e sua forma fragmentada de se comunicar. “A lógica dos algoritmos cria um incentivo para candidatos que esticam a corda, que propõem soluções duras. Propostas estruturantes na segurança são caras, lentas e não tão visíveis dentro de um mandato”.
O tema também está na pauta por outro bom motivo: o eleitor não está contente com o que está sendo feito. Pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta-feira 9 mostra que apenas 21% dos entrevistados consideram ótimo ou bom o trabalho do governo Lula nessa área, enquanto 45% consideram ruim ou péssimo e 31%, regular. Parte da má avaliação pode ser explicada pela própria letargia do petista, que só correu para ter algo para apresentar ao eleitor nos meses finais de seu mandato. Em maio, lançou com pompa o Programa Brasil contra o Crime Organizado, um conjunto de ações calcadas na asfixia financeira das facções, no combate ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro e na melhoria da elucidação de casos de homicídios. No último dia 2, conseguiu fazer avançar em comissão do Senado a PEC da Segurança Pública, que dá mais poderes à União no combate ao crime, mas a proposta não deve ir a plenário até a eleição. Caso seja reeleito, Lula promete recriar o Ministério da Segurança Pública. “Não se trata de concentrar em Brasília a execução da segurança, mas de dotar o governo de capacidade para induzir boas políticas”, avalia Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e coordenador do Atlas da Violência.
Leniência, letargia e projetos no papel, definitivamente, não servem para reduzir a insegurança do eleitor. Discursos e propostas demagógicas também não vão ajudar a derrotar um monstro que já tem garras e dentes à mostra por todo o país. As facções dominam territórios cada vez mais amplos pelo Brasil e avançaram em estados como Ceará e Bahia. Os grupos movimentam cifras bilionárias nos setores de combustíveis, finanças, provedores de internet e apostas ilegais, e têm agentes embrenhados nas polícias, Ministério Público, governos e assembleias legislativas, conforme escancarado pelas operações Carbono Oculto, em São Paulo, e Unha e Carne, no Rio.
Também é preciso tomar cuidado com a política de prender a todo custo. O país já tem a terceira maior população carcerária do mundo, segundo o World Prison Brief (731 000 detentos, em um sistema onde só cabem pouco mais de 500 000), e isso não ajudou o Brasil a ser menos violento — pelo contrário, os presídios nacionais servem como notórios quartéis do crime, onde líderes faccionais recrutam os recém-chegados e emitem ordens para soldados do lado de fora. Só em 2026, o sistema prisional drenou mais de 11 bilhões de reais dos cofres públicos — cada detento custa, em média, 2 503 reais por mês ao contribuinte. “Prender pequenos traficantes em massa custa caro, não impacta os mercados de drogas e reforça o recrutamento das facções”, diz Rodrigo Azevedo, pesquisador associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Mais do que a presença policial nas ruas, a política de segurança eficiente exige inteligência para mapear as áreas mais vulneráveis e direcionar as operações. Os números comprovam o sucesso de medidas nessa direção adotadas por alguns estados. É preciso, ainda, investir em capacidade investigativa para solucionar assassinatos ou rastrear complexas estruturas de lavagem de dinheiro. Nesse campo, lamentavelmente, o Brasil vai mal: em 2024, os estados brasileiros gastaram 52,2 bilhões de reais com as polícias militares contra 20,2 bilhões com as polícias civis e meros 2,5 bilhões com as polícias científicas, segundo a ONG Justa. Para cada 4 877 reais direcionados às forças policiais, 1 221 vão para o sistema prisional e apenas 1 real é aplicado na reintegração de egressos da cadeia. “Tirar dinheiro da investigação para colocar em policiamento ostensivo gera um ciclo vicioso de prisões de criminosos facilmente substituíveis e dificulta chegar aos líderes das organizações”, afirma Cristiano Maronna, fundador da Justa e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM).
O peso eleitoral da segurança pública se fez notar nas pesquisas a despeito da saraivada de escândalos e crises institucionais que foram se avolumando no noticiário e nas campanhas. Ao lado de temas como custo de vida e endividamento, o combate à criminalidade deve ganhar tração nas reflexões finais do eleitor. Para os candidatos, o desafio é convencê-lo de seu preparo para combater essa chaga, e isso talvez motive o discurso duro e a demonstração de firmeza no palanque. Para debelar o problema, se eleito, será necessário um arcabouço mais consistente de ideias, planejamento e investimentos em aparelhamento, inteligência, tecnologia e na melhoria de vida do cidadão, hoje refém de um Estado ineficiente e de um crime mais organizado.
Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012
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