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Jogo aberto | VEJA

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“Olhem para a pesquisa espontânea”, recomendou a principal executiva do Datafolha em reunião com empresários na semana passada, em São Paulo. O grupo à mesa de almoço se mostrava curioso sobre tendências do eleitorado nesta etapa de definição dos candidatos à Presidência da República. Luciana Chong surpreendeu ao sugerir mais atenção ao menos óbvio retrato estatístico, o do movimento instintivo dos eleitores.

“O que é que mede a intenção de voto espontânea?” — provocou. “Ela mede a cristalização do voto, né? É a primeira pergunta que o pesquisador faz para o entrevistado. Muitas vezes se tem um destaque maior para as intenções de voto no primeiro ou segundo turno, mas é muito importante ver o resultado da espontânea. Ele mostra o quanto as pessoas já estão mobilizadas com a eleição, o quanto a eleição já faz parte da vida de cada um.”

O resultado é um tanto surpreendente: a nove semanas da primeira rodada nas urnas, quase quatro em cada dez eleitores ainda tratam as eleições com evidente apatia. São donos de 37% dos votos disponíveis e não conseguem mencionar, de forma natural, o nome de um candidato a presidente em quem possam votar.

Chong encontrou uma palavra para resumir o quadro eleitoral: desmobilização. E é maior do que havia a essa altura no inverno da temporada eleitoral de 2022. Exemplifica: “25% não tinham candidato na pesquisa espontânea, em 2022, e hoje são 37%. Isso comparando o mesmo período final de julho, tá?”.

É preciso vasculhar os mapas estatísticos para saber quem seriam esses eleitores desmobilizados, apáticos, indecisos ou simplesmente resignados com as ofertas eleitorais que estão aí. Dados coletados pelo Datafolha indicam que são, principalmente, as mulheres. Elas estão “desmobilizadas” numa proporção muito maior (45%) que os homens (28%). Completam o quadro os jovens, residentes nos estados do Sul e, na maioria, não alinhados a agrupamentos políticos tradicionais — classificados como independentes em várias pesquisas.

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“Indecisão de 37 em cada 100 eleitores amplia incertezas a nove semanas da votação”

Espera-se que essa fatia expressiva do eleitorado comece a se mobilizar para definir seus interesses a partir da próxima semana. Por isso, acredita Felipe Nunes, da Quaest, a etapa da campanha dominada pela propaganda e debates terá peso decisivo.

Hoje, apenas dois meses antes da votação, a disputa presidencial permanece um jogo aberto com a indecisão de quase quarenta em cada 100 eleitores. “Parece ser uma eleição muito difícil de cravar”, comentou Nunes para o grupo de empresários, acrescentando: “Lula começa com uma condição de favoritismo maior do que seus concorrentes, isso já está demonstrado. No entanto, se os ‘fundamentos’ do processo eleitoral favorecem o presidente, a agenda de preocupações dos eleitores favorece a oposição”.

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Violência e corrupção se destacam entre as maiores preocupações dos brasileiros, praticamente, em todas as pesquisas. São temas que fomentam “desejos de mudança e costumam favorecer candidatos da oposição, especialmente os mais fortes da direita”, observou o executivo da Quaest. Tem sido uma tendência em eleições na América Latina. O governo Donald Trump, por exemplo, passou a apoiar partidos e candidatos com um modelo de segurança pública para campanhas em países onde a economia do crime organizado se tornou muito relevante.

O desenho prevê uma nova abordagem militarista, legitimada na aplicação das leis antiterrorismo e antimáfia às redes latinas do narcotráfico. Foi usado no palanque por Abelardo de la Espriella, expoente da extrema direita que na semana que vem assume a Presidência da Colômbia. Está sendo copiado por Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, que se esforça para ser reconhecido como representante de Trump na disputa pela Presidência do Brasil.

Em tese, a oposição tem uma vereda eleitoral aberta em questões essenciais para o eleitorado, como violência urbana e corrupção. O problema do candidato hoje na liderança do voto oposicionista é que ficou difícil para ele fazer campanha anticorrupção, comentou Andrei Roman, da AtlasIntel, lembrando a corrosão na candidatura de Flávio Bolsonaro provocada por transações obscuras com o antigo dono do Banco Master, preso por fraudes bilionárias: “O desgaste dele deve continuar e, então, talvez possa existir a possibilidade de emergência de uma terceira via”.

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Os empresários saíram do almoço com os pesquisadores convencidos de que, por enquanto, a única certeza possível sobre a disputa presidencial é a incerteza.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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