Justiça dos EUA reativa processos que associam Tylenol a autismo

Um tribunal federal dos Estados Unidos reativou na segunda-feira (13) mais de 500 ações judiciais contra a Kenvue, fabricante do Tylenol, sobre a suposta ligação do analgésico com o autismo.
De acordo com o Tribunal de Apelações do 2º Circuito dos EUA, em Manhattan, um juiz de primeira instância excluiu indevidamente o depoimento de três médicos especialistas, apresentado por pais e responsáveis, que associavam o uso de Tylenol durante a gravidez ao autismo e ao TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) em crianças.
Não existem evidências científicas sólidas que comprovem essa relação. A questão ganhou maior atenção depois que o presidente Donald Trump e autoridades de saúde dos EUA sugeriram, em setembro, uma possível ligação do medicamento com o autismo.
Em uma decisão de 64 páginas, proferida por um painel de três juízes, o juiz Guido Calabresi afirmou que o depoimento dos três médicos, incluindo o reitor da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, refletia metodologias utilizadas por outros cientistas e “constitui interpretações aceitáveis de evidências científicas onde os cientistas podem discordar, e de fato discordam”.
Calabresi ressaltou que o tribunal não estava decidindo se o uso de paracetamol causa autismo ou TDAH.
Médicos e sociedades médicas consideram o paracetamol, princípio ativo do Tylenol, a forma preferencial para tratar dor e febre durante a gravidez.
Em um comunicado, a Kenvue reiterou que o Tylenol é seguro e afirmou que a decisão “não altera o fato de que pesquisas científicas confiáveis e independentes não comprovam nenhuma ligação entre o uso de paracetamol e o autismo ou TDAH”.
A empresa planeja tentar novamente demonstrar em juízo que as opiniões dos peritos citados não são confiáveis.
O tribunal afirmou que entre os médicos cujos depoimentos foram indevidamente excluídos estavam Andrea Baccarelli, reitora da área de saúde pública de Harvard; Eric Hollander, professor de psiquiatria do Albert Einstein College of Medicine; e Brandon Pearson, toxicologista da Universidade Columbia.
“Estamos satisfeitos que o painel tenha concluído por unanimidade que nossos principais especialistas aplicaram seus métodos e princípios científicos de forma confiável”, disse Ashley Keller, advogada dos pais, em um email.
Especialistas frequentemente desempenham um papel fundamental em processos de responsabilidade como esses do Tylenol.
A Kenvue está sediada em Summit, Nova Jersey, e foi desmembrada da Johnson & Johnson em 2023.
Os processos judiciais privados foram arquivados em dezembro de 2024 pela juíza distrital Denise Cote, em Manhattan, que criticou a metodologia das testemunhas periciais dos demandantes. A decisão de segunda-feira devolve os processos a Cote para prosseguimento.
Informação
Folha de São Paulo


