Tecnologia

Lançamentos chineses de IA diminuem diferença para modelos dos EUA e ganham popularidade

A disputa entre China e EUA pela supremacia em inteligência artificial escalou na sexta-feira (17), quando a startup chinesa Moonshot AI lançou o modelo Kimi K3 que pareceu reduzir a vantagem mantida por concorrentes norte-americanos bem financiados.

A empresa chinesa afirmou que o modelo era o maior sistema de IA de código aberto do mundo, permitindo que qualquer pessoa o use, modifique e desenvolva livremente. A companhia destacou que o Kimi K3 teve desempenho tão bom quanto os principais modelos da OpenAI e da Anthropic em algumas tarefas-chave.

O lançamento coincidiu com um discurso do líder chinês, Xi Jinping, no qual ele delineou uma visão ambiciosa para o desenvolvimento global de IA que posicionou a China como defensora de uma abordagem aberta à tecnologia.

“O desenvolvimento da IA não deve ser uma apresentação solo de um único país, mas uma sinfonia de cooperação internacional”, declarou Xi em uma conferência sobre inteligência artificial realizada em Xangai. “(A China está) pronta para trabalhar com todas as partes para aproveitar as oportunidades do desenvolvimento da IA”, comentou Xi.

A reação do mercado foi imediata. As ações caíram na sexta-feira, com a Nasdaq recuando cerca de 1% enquanto investidores vendiam papéis de empresas que fabricam os chips de computador necessários para alimentar a IA, como Nvidia e Intel.

Os acontecimentos ressaltaram as implicações geopolíticas da disputa entre EUA e China pela liderança no que muitos consideram a corrida tecnológica definidora dos novos tempos. O presidente norte-americano, Donald Trump, tem repetidamente enquadrado a manutenção da liderança americana em IA como uma prioridade estratégica para preservar a segurança econômica e nacional do país.

O surgimento da IA como uma tecnologia fundamental com amplas implicações econômicas e militares levou os Estados Unidos a desacelerar o progresso da China, restringindo seu acesso aos chips avançados necessários para treinar sistemas de IA de ponta.

O lançamento de um modelo de IA chinês gratuito e de código aberto que poderia rivalizar com o desempenho de sistemas caros e intensivos em computação das empresas mais bem financiadas do Vale do Silício reacendeu preocupações sobre se os enormes gastos da indústria com data centers são justificados. A mesma situação havia ocorrido no ano passado quando a DeepSeek lançou seu modelo de IA.

Nos últimos 18 meses, empresas de tecnologia chinesas lançaram uma série constante de modelos de IA de código aberto que se aproximam do desempenho de seus rivais americanos, alegando exigir menos recursos computacionais. Essa combinação de forte desempenho e custos mais baixos tornou os sistemas de IA chineses a escolha preferida de muitos desenvolvedores em todo o mundo.

O lançamento da Moonshot nesta semana contribui para esse impulso e levanta a possibilidade de que uma empresa chinesa possa em breve igualar —ou até superar— os modelos de ponta construídos pelas principais empresas de IA dos EUA, que levantaram centenas de bilhões de dólares para construir modelos fechados e caros de operar.

De acordo com benchmarks realizados pela Vals AI, empresa independente que avalia o desempenho de modelos de IA, o Kimi K3 tem desempenho logo abaixo do modelo Fable 5 da Anthropic, mas supera o modelo principal GPT-5.6 Sol da OpenAI, informou Rayan Krishnan, CEO da Vals AI.

Os modelos de IA mais recentes da Anthropic se tornaram tão poderosos que suas capacidades —incluindo identificar vulnerabilidades em infraestruturas críticas como redes bancárias e redes elétricas— alarmaram governos ao redor do mundo.

Graham Webster, professor da Universidade Stanford que estuda o ecossistema de IA de código aberto da China, declarou que não importa muito se um modelo está na vanguarda absoluta, porque a diferença de desempenho entre os principais modelos americanos e chineses diminuiu.

“Cada um tem um número diferente sobre quantos meses a China está atrás dos EUA, e as estimativas giram em torno de seis meses…Isso não é muita vantagem”, analisou.

A Moonshot comunicou que divulgará os detalhes completos do Kimi K3 no final deste mês.

Samm Sacks, pesquisadora sênior da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Johns Hopkins que participou da conferência de IA em Xangai na sexta-feira, onde Xi discursou, afirmou que muitos especialistas acreditam que é apenas uma questão de tempo até que uma empresa chinesa lance um modelo disponível gratuitamente que iguale os sistemas mais avançados da Anthropic.

Segundo Sacks, esse avanço levantaria questões difíceis para reguladores que tentam conter tecnologia de IA poderosa uma vez que ela tenha sido lançada.

No mês passado, outra startup chinesa, Z.ai, lançou um modelo chamado GLM-5.2 que era quase tão poderoso quanto o Fable 5 da Anthropic, o principal sistema norte-americano. E diferentemente do Fable, esse modelo chinês estava amplamente disponível.

Muitos desenvolvedores de software e startups no Vale do Silício adotaram rapidamente o modelo, em grande parte porque era muito mais barato que os principais sistemas dos EUA. Ele chegou justamente quando empresas americanas perceberam que precisavam encontrar maneiras de reduzir seus gastos com IA.

O Kimi K3 é ainda mais poderoso que o GLM-5.2, de acordo com benchmarks realizados pela Vals AI. O modelo chega enquanto o governo Trump considera regular a tecnologia. Muitos executivos do Vale do Silício começaram a apoiar tal regulamentação, dizendo que tecnologias de ponta podem permitir ciberataques maliciosos e potencialmente ajudar a construir armas biológicas.

MOONSHOT FOI CRIADA HÁ TRÊS ANOS

A IA da Moonshot foi amplamente adotada na China desde que a startup sediada em Pequim foi fundada em 2023.

Quase todos os principais sistemas de IA da China são de código aberto, ajudando-os a ganhar usuários ao redor do mundo. Mas diferentemente dos sistemas fechados preferidos no Vale do Silício, os modelos chineses se mostraram mais difíceis de monetizar. O desafio de transformar a adoção global em um negócio lucrativo está agora fragmentando alguns dos principais laboratórios de pesquisa em IA da China, incluindo a gigante da internet Alibaba.

Pesquisadores chineses de IA rotineiramente citam a escassez de poder computacional —causada pelos controles de exportação dos EUA— como a maior restrição da indústria, e as empresas gastaram pesadamente para garantir chips escassos.

Algumas empresas, incluindo MiniMax e Z.ai, abriram capital para levantar dinheiro de investidores. A Alibaba está cada vez mais direcionando clientes para modelos que exigem pagamento dos usuários.

Mas a escala de captação de recursos por empresas chinesas de IA é insignificante em comparação com suas rivais americanas. Em maio, a Moonshot levantou US$ 2 bilhões em uma rodada de financiamento apoiada pela China Mobile, a estatal de telecomunicações, e pelo braço de investimentos da gigante de delivery de comida Meituan. Em comparação, a Anthropic levantou US$ 65 bilhões no mesmo mês.

Folha de São Paulo

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