Lobista tratou com ex-chefe de gabinete de Lula sobre tentativa de acelerar compra de kits de dengue, diz PF

A lobista Roberta Luchsinger pediu que o então chefe de gabinete do presidente Lula (PT) Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, intermediasse uma tentativa de venda de kits de teste da dengue para o Ministério da Saúde, segundo investigação da Polícia Federal.
A suspeita da PF tem como base conversas de Roberta que expõem uma negociação ocorrida no fim de 2024 e no primeiro semestre de 2025. Naquele período, as investigações mostram que a lobista havia pago despesas pessoais de Marcola.
A empresária tentava fechar um contrato com o Ministério da Saúde para a venda de material derivado do canabidiol, mas enfrentava dificuldades de concluir o negócio. Como alternativa, sugeriu ao governo a compra de kits de teste de dengue. Nenhum dos dois contratos saiu do papel.
As negociações se tornaram alvo de inquérito sobre suspeitas dos crimes de corrupção e tráfico de influência, que está sob relatoria do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal).
As conversas sobre a venda dos kits para a detecção de dengue começaram em novembro de 2024 e se estenderam até meados de 2025.
A polícia analisa diálogos entre a empresária, o ex-chefe de gabinete do presidente e outros interlocutores, aos quais ela envia por mensagens dados a respeito dos testes de dengue. Nas conversas, ela diz que é preciso agilidade para que o Ministério da Saúde adquira os exames.
Em uma das conversas analisadas pela PF, de 21 de novembro de 2024, Roberta faz uma chamada telefônica com Marcola. Em seguida, ela encaminha uma série de documentos, entre eles um material sobre a detecção sanguínea da dengue.
No dia seguinte, ela escreve ao chefe de gabinete de Lula: “To com Fabio aqui. Tem que deixar claro que é kit de teste tá (sic)”.
“Não eh vacina. Vacina vamos buscar. E esse aí é o kit teste pra saber se tem dengue”, afirmou Roberta, na mensagem analisada pela PF.
Em nota, a defesa de Marcola diz que ele “jamais intermediou negociações ou encaminhou qualquer documento referente a compras ou licitações no âmbito do Ministério da Saúde, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou de qualquer outro órgão do governo federal”.
“A defesa de Marco Aurélio Santana Ribeiro continua sem acesso à íntegra dos autos e do inquérito. Os vazamentos seletivos de trechos da documentação, em vez da totalidade do conteúdo, têm objetivo de distorcer os fatos e interferir no processo eleitoral.”
Procuradas desde as 9h de quarta-feira (26) por mensagem, a defesa de Roberta não se manifestou. Anteriormente, os advogados dela tinham afirmado que não se posicionariam sobre inquérito sob sigilo.
Segundo a investigação, Roberta queria que o então chefe de gabinete de Lula pressionasse o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger do Nascimento Barbosa, o Berger, a fechar a compra dos kits de teste de dengue, além de produtos a base de canabidiol.
A Folha também procurou Berger na manhã desta quarta, mas ele não respondeu até a publicação deste texto.
O início das tratativas coincidem com o período em que Roberta Luchsinger pagou R$ 217 mil em faturas de cartão de crédito, financiamento de um veículo e outras despesas para Marcola, entre fevereiro e novembro de 2024, segundo a PF. Ele afirma que os valores são de um empréstimo pessoal e foram quitados.
Ao negociar contratos com o governo, Roberta teria como objetivo ajudar financeiramente Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS. Para isso, a PF suspeita que a lobista contava com a ajuda de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente.
A defesa de Antunes não quis se manifestar.
Na troca de mensagens com o ex-chefe de gabinete de Lula, Roberta se movimenta para conseguir fechar os negócios, a pedido do Careca do INSS, antes de Lulinha se mudar para a Espanha, em 2025.
Lulinha é investigado pela Polícia Federal sob suspeita de ter atuado com Roberta para favorecer negócios do Careca do INSS junto ao governo.
Em janeiro de 2025, ela afirma a um interlocutor que o Careca tinha dívidas e precisava de dinheiro. Ela afirmou ter o sentimento de que “a casa do Antônio vai cair”. Em 27 de janeiro, Roberta tenta acelerar o negócio. “[Temos que] Correr para o Berger comprar isso logo”, escreve a empresária sobre a venda dos kits de teste da dengue.
Procurada, a defesa de Lulinha afirmou que ele “não sabe a que se refere essa menção e [que] nós não temos por ora como atestar a autenticidade das referidas mensagens”.
“Não conhecemos a cadeia de custódia dessa suposta prova e não sabemos se ela está íntegra. Não só a defesa do Fábio, mas nenhuma outra tem condição de dizer que essas mensagens são verdadeiras”, disse o advogado Marco Aurélio de Carvalho.
A defesa afirma que ele “nunca, em nenhum momento, fez nenhuma intervenção e nenhuma reunião” em favor de negócios do Careca do INSS ou de outro empresário com o governo Lula.
A investigação constata que Roberta insistiu nos negócios mesmo depois do início da Operação Sem Desconto, cuja primeira fase ocorreu em abril de 2025 e mirou suspeitas de desvios de benefícios de aposentados e pensionistas —tendo como alvo o Careca do INSS, que seria beneficiado pelos negócios com o Ministério da Saúde.
Segundo a PF, em maio de 2025, ainda havia conversas entre Roberta e Antônio Camilo Antunes a respeito dos negócios de canabidiol e dos testes de dengue.
“A interlocução entre Roberta e Antonio após a deflagração da Operação Sem Desconto permite inferir que, para além da tentativa concreta de exercer influência junto ao Ministério da Saúde, o tema relacionado ao canabidiol permanecia em pauta”, disse a PF no pedido de abertura do inquérito. Antônio Camilo Antunes está preso desde setembro do ano passado.
Como a Folha mostrou, a PF apontou que Lulinha atuava em “comunhão de interesses econômicos” e conduzia negócios em conjunto com Roberta, que trabalhava para obter contratos com o governo federal.
O órgão indicou a suspeita de que Lulinha, Roberta e Fernando Bittar —empresário que era um dos donos do sítio de Atibaia (SP) investigado na Lava Jato— mantiveram uma “sociedade oculta” nos negócios relacionados à Cannabis medicinal, que tentaram vender ao Ministério da Saúde. Lulinha é alvo de outros dois inquéritos na corte.
Folha de São Paulo



