Lula chama Flávio de traidor da pátria após rival sugerir a Trump decisão sobre tarifaço depois da eleição

O presidente Lula (PT) criticou o documento enviado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao governo dos Estados Unidos em que pede, entre outros pontos, uma “libertação” do Mercosul e a postergação do tarifaço para depois das eleições brasileiras.
Os comentários do pré-candidato à Presidência pelo PL, principal rival de Lula na disputa eleitoral, foram feitos em dossiê ao USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA).
“É inaceitável que a família Bolsonaro, com o seu entreguismo, queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos, como fica claro no documento enviado hoje por um de seus integrantes ao governo norte-americano”, escreve o perfil de Lula no X (antigo Twitter).
“Nós sempre vamos dialogar de igual pra igual com qualquer nação do mundo. Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois”, diz Lula.
Flávio pediu a suspensão da aplicação de sobretaxas ao Brasil ao menos até a realização das eleições presidenciais no Brasil. No documento, ele afirmou que a confirmação do tarifaço de 25% proposto pelo órgão daria ao governo Lula uma “vitória política”.
Ainda no documento, o senador propõe vantagens comerciais aos americanos, como a eliminação de tarifas para o etanol e a redução da carga tributária de empresas de cartão de crédito.
As sugestões ao governo americano foram enviadas por seu gabinete na posição de senador brasileiro, pré-candidato à Presidência e “figura proeminente da oposição” no Brasil.
No âmbito do Mercosul, Flávio propõe uma “busca agressiva” de acordos comerciais que aumentem o comércio e o investimento entre as duas nações. Nesse sentido, propõe que o Brasil “se liberte das amarras” do Mercosul —o bloco de comércio restringe negociações bilaterais— como fez o presidente argentino, Javier Milei.
Em sua publicação nas redes, Lula se refere à proposta de Flávio como um pedido pelo fim do Mercosul, e afirma que o comentário é um novo ataque ao interesse do povo brasileiro. O bloco econômico firmou parceria com a União Europeia neste ano, após uma longa negociação entre os continentes.
“Como se não bastasse, querem entregar o Pix a interesses estrangeiros. Não vão conseguir. O Pix é uma conquista do Brasil e não vamos abrir mão dele. Nossa pátria não está à venda. Nossa soberania é inegociável. O Brasil é dos brasileiros”, finaliza a postagem de Lula.
O entorno do presidente da República identificou na manifestação de Flávio Bolsonaro uma chance de reforçar o discurso de soberania nacional de Lula, que deve ser um dos temas principais de sua campanha de reeleição neste ano.
A avaliação é de que o movimento do senador pode reavivar no eleitorado a memória de que o grupo político bolsonarista agiu para jogar o governo americano contra a gestão Lula, e que isso teria influenciado no tarifaço.
Por essa análise de aliados do petista, Flávio adotou uma estratégia arriscada. Tenta se colocar contra o tarifaço e reduzir o desgaste ao qual foi submetido, mas pode acabar trazendo o assunto para mais perto de si.
Caso Trump retire as tarifas contra o Brasil, deverá ser criada uma guerra de narrativas em que os bolsonaristas tentarão creditar a medida à ação de Flávio, e lulistas, à ação de Lula.
O governo federal mantém conversas com autoridades de comércio norte-americanas para tentar contornar o tarifaço. As reuniões têm sido comentadas publicamente por integrantes do governo brasileiro inclusive como uma vacina contra uma tentativa de apropriação de um eventual fim do tarifaço pelo grupo político bolsonarista.
A gestão Lula ofereceu ao governo norte-americano a possibilidade de baixar tarifas em setores nos quais os produtos americanos são competitivos, como máquinas e equipamentos, equipamentos de saúde e de tecnologia da informação.
Folha de São Paulo



