Política

Lula, Flávio Bolsonaro, o deserto de ideias e o futuro negado ao Brasil

No mundo ideal, uma campanha eleitoral se presta à análise dos principais problemas de um país, ao debate de propostas de interesse da população e até à negociação de acordos sobre pontos convergentes e pautas capazes de unir os eleitores, independentemente de preferência partidária ou inclinação ideológica.

No Brasil, tal qual em grande parte do mundo, a polarização está impedindo que isso aconteça. Como ocorreu em 2022, a sucessão presidencial deste ano tende a ser um deserto de ideias. Rejeitados por metade do eleitorado e convencidos de que o mais importante não é ser o mais querido, mas o menos detestado, Lula e Flávio Bolsonaro, os líderes das pesquisas, não estão preocupados em apresentar propostas detalhadas para problemas crônicos, da crise na área da segurança pública ao desajuste das contas públicas.

Reeditando a batalha de rejeições da eleição passada, eles preferem apostar as fichas para desgastar um ao outro. Quando deixam de lado a troca de acusações, pouco falam sobre o futuro do país. Em seu primeiro ato de campanha, o presidente foi a estrela de um comício no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), palco das greves históricas que liderou em 1979.

Como de costume, Lula exaltou a própria biografia, cujo sucesso creditou ao “dedo de Deus”, citou ações de governo que considera bem-sucedidas e se apresentou como o quadro talhado para evitar a volta da direita bolsonarista ao poder. “Que futuro você quer para o povo brasileiro se (o governante) ri de um velhinho que está morrendo asfixiado por falta de ar”, declarou, referindo-se ao descaso de Jair Bolsonaro com a vida alheia durante a pandemia de Covid-19. 

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Flávio Bolsonaro mantém a estratégia de pegar carona na popularidade do pai, condenado a vinte e sete anos e três meses de prisão por tentativa de golpe. O Zero Um abraçou de vez a ideia de ser uma espécie de avatar do ex-presidente. Mesmo a tentativa de marcar um pouco de diferença e encenar moderação está ficando pelo caminho. O plano é difundir a ideia de que votar no rebento significa redimir o patriarca. Até uma motociata o senador tentou fazer, mas não deu certo.

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A situação pode ser resumida da seguinte forma: o presidente só fala dos programas de sempre, não consegue explicar por que merece mais quatro anos de mandato nem vender um sonho sobre o Brasil do futuro, enquanto Flávio Bolsonaro, vidrado no retrovisor, vive de menções à gestão do pai.

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“O Lula vende o presente, e os Bolsonaros vendem o passado. Existe um problema crônico no mundo inteiro, que é a dificuldade de vender o futuro”, diz Christian Lynch, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro. No comício da Vila Euclides, o presidente teve a sensatez de declarar que “este país está devendo a si mesmo se transformar numa grande nação”.  É verdade. Pena que, pelo nível da campanha, isso não ocorrerá tão cedo. 

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