Política

Lula tenta tirar verde e amarelo do bolsonarismo sob impulso de Copa, LGBTs e moda

É um fato inédito: a seleção brasileira disputa uma Copa do Mundo sem identidade e uma escalação que pode mudar jogo a jogo. Se as dúvidas atormentam o técnico Carlo Ancelotti, o presidente Lula (PT) não titubeou e entrou em campo. Na nova campanha publicitária do PT, ele se apresenta como um jogador que defende a soberania nacional.

Por extensão, tenta se apropriar das cores verde e amarelo, que se tornaram distintivos do bolsonarismo. A nova estratégia governista é impulsionada pela comunidade LGBT+, que passou a atribuir outro significado à bandeira nacional, e pela estética “Brazilcore”, tendência em alta na indústria da moda, alicerçada na valorização dos elementos da cultura brasileira.

No sábado (13), antes do empate em 1 a 1 entre Brasil e Marrocos na estreia da Copa, Lula gravou vídeo trajando a camisa da seleção e pedindo garra à equipe. Usava também um adesivo com a frase “O Brasil é dos brasileiros”, mote em defesa da soberania adotado desde o tarifaço no ano passado.

No mesmo dia, o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) postou em rede social: “Lula e o PT usam o verde e amarelo apenas nos momentos de eleição e Copa do Mundo. A gente veste essa camisa a vida inteira”. A publicação mostrava imagens de antigos protestos bolsonaristas pelo país.

Segundo Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político da FGV, Lula vê na Copa do Mundo uma oportunidade para romper a polarização e expandir sua presença em segmentos do eleitorado. “A Copa representa um momento de convergência da sociedade para a vitória da seleção, então é uma oportunidade de superar as divergências políticas”, diz.

Intitulada “Lula Joga Pelo Brasil”, a campanha consiste em um vídeo, espalhado nas redes sociais por apoiadores do presidente. A peça traz imagens de brasileiros jogando bola em campos de várzea, nas periferias, e torcedores, de diversas idades, vibrando com gols da seleção. Um deles suspende a camisa do Brasil para mostrar outra que usava por baixo, com o rosto de Lula. O mesmo vídeo também busca mostrar feitos do terceiro mandato do petista.

Em lambe-lambes, leem-se os nomes de alguns programas sociais, como o Gás do Povo, Desenrola e a proposta pelo fim da escala 6×1. Ao fundo, ouve-se um funk com o refrão que diz assim: “Chama quem conhece, sabe dar valor/ A torcida grita ‘Lula é meu jogador’”.

Em maio, Lula disse, no lançamento da plataforma de streaming Tela Brasil, que a esquerda deveria aprender a usar as cores da bandeira, para que elas não fossem tomadas “por nenhum fascista”.

No atual contexto político, o símbolo nacional tem significados distintos, a depender de quem o utiliza. Na visão de Teixeira, lulistas e bolsonaristas não exprimem nacionalismos quando empunham a bandeira. Segundo ele, a esquerda, tendendo ao internacionalismo, quer comunicar justiça social, emancipação e desenvolvimento. A direita, por seu turno, resume, com a bandeira, o conjunto de valores que define a sua identidade. À luz do tarifaço, afirma o professor, torna-se difícil pensar que o bolsonarismo compromete-se com o interesse do país.

Afinal, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), que mora nos Estados Unidos, articulou, no ano passado, o primeiro tarifaço imposto ao Brasil pelo presidente americano, Donald Trump. Na ocasião, a Casa Branca anunciou uma sobretaxa de 50% aos produtos brasileiros. Eduardo é réu no STF (Supremo Tribunal Federal) sob acusação de articular sanções para interferir no julgamento da trama golpista, que culminou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No mês passado, Flávio Bolsonaro foi recebido por Trump na Casa Branca. Dias depois, o governo americano anunciou a possibilidade de novo tarifaço, agora com taxas que podem somar 37,5%. Pesquisa Quaest, publicada na semana passada, mostrou que 47% acharam que Flávio influenciou Trump para anunciar essas tarifas.

O resgate das cores verde e amarelo não começou, no entanto, no terceiro mandato de Lula. Trata-se de um movimento em voga na comunidade LGBT+, como ficou evidente na Parada deste ano, na avenida Paulista. Era bem comum ver os participantes trajados com a camisa da seleção, o que antes era associado exclusivamente aos apoiadores de Bolsonaro. “Quando usamos o verde e amarelo, reafirmamos que nós, cidadãos LGBT+ também fazemos parte da sociedade, somos cidadãos como os outros”, diz Matheus Emílio, diretor da Parada.

Segundo Emílio, a comunidade LGBT+ já influencia o debate eleitoral. “O fim da escala 6×1 foi apresentado por Erika Hilton, uma travesti negra. Nós não apresentamos pautas que só beneficiam a nossa comunidade, mas toda a população.”

O resgate da camisa da CBF tomou impulso quando as cantoras pop passaram a usar a indumentária. Um exemplo disso foi a participação de Pabllo Vittar no show de Madonna, em 2024, nas areias de Copacabana.

A equipe de comunicação de Lula capta, portanto, tendência já estabelecida na indústria da moda sob o nome “Brazilcore”, que designa a valorização por grifes de elementos da cultura brasileira.

Professora da pós-graduação em economia criativa da ESPM, Joana Contino diz que o estilo está originalmente ligado às periferias brasileiras e que ganhou visibilidade, quando foi apropriada por marcas, como a francesa Rabanne. A moda começou a pegar a partir de 2022, ano em que a Copa sucedeu a vitória de Lula nas eleições.

“Lula já tinha vencido o pleito e as pessoas que deixaram de usar a camisa estavam mais tranquilas em usar novamente esse símbolo. É uma sensação de retomada, coroada pelo evento da posse”, afirma Contino.

Folha de São Paulo

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