Política

‘LuQuel’ e ‘BolsoPaes’: os votos que furam a lógica partidária nos estados

A falta de alinhamento entre palanques regionais e candidaturas a presidente é um fenômeno conhecido da política brasileira, mas que ganhou mais força com a polarização e o Centrão aplicando ao máximo todo o seu pragmatismo diante de um resultado incerto ao Palácio do Planalto. Em pelo menos 20 estados, nomes que disputam o governo não acompanham os presidenciáveis de seus partidos ou de legendas coligadas. O caso do PSD é o mais gritante: embora dispute o Palácio do Planalto com a chapa Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab, candidatos a governador com chances reais de vencer fazem outras alianças. Eduardo Paes, no Rio, tem Lula (PT) ao seu lado, mas conta com alas que fazem a campanha “BolsoPaes”. Da mesma sigla, Raquel Lyra, de Pernambuco, diz não trabalhar para Caiado, nem para Lula ou para Flávio Bolsonaro (PL), mas se beneficia de apoiadores de todos. Partidos como PP, União Brasil e Republicanos, ao declararem neutralidade na disputa nacional, também deram a senha para situações ambíguas. Na Bahia, embora ACM Neto (União Brasil) declare ser Caiado e tenha na coligação o PL, nas ruas o que se vê entre seus correligionários é um esforço para atrair eleitores de Lula, maioria entre os baianos, mesmo numa disputa direta contra Jerônimo Rodrigues (PT). “O centrão e a direita operam para maximizar votos, e localmente não há uma relação linear do voto a governador com o de presidente: o eleitor pode escolher uma força para o estado e fazer uma leitura de país diferente”, explica o cientista político Fábio Vasconcellos, da Uerj. 

Campanhas ligadas a Lula reclamam

É sobre essa lógica que muitos candidatos e partidos se apoiam. Com cenário de empate técnico entre Lula e Flávio no segundo turno, como divulgou a Quest, legendas sem postura ideológica consistente fazem arranjos inusitados, muitas vezes, por baixo do manto do discurso oficial. Isso de olho no poder local – quando há candidatos competitivos ao governo -, na formação de bancadas e nos fundos partidário e eleitoral. “Há partidos compostos por elites locais, que até se articulam nacionalmente, mas cuja missão é o enraizamento territorial”, explica a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, dizendo que o MDB já foi o maior representante desse perfil, hoje mais visível no PSD. Raquel Lyra conta com aliados fazendo o movimento “LuQuel”, principalmente no interior de Pernambuco, associando a candidata a Lula, que por sua vez tem como palanque no estado João Campos (PSB). O candidato ao Senado Tulio Gadelha (PSD) não esconde fazer a dobradinha, enquanto Lyra adotou nessa campanha, quando questionada se é lulista ou bolsonarista, a seguinte resposta: “sou pernambuquista” . Pelo lado de Campos, o movimento é chamado de “oportunismo”. “Ela tem apoio dos candidatos de Flávio e, na Região Metropolitana, tenta surfar no bolsonarismo para conquistar a classe média”, reclama um político do Republicanos, sigla de Carlos Costa, vice da chapa encabeçada pelo ex-prefeito de Recife. 

Na disputa a presidente, o PSD tentou representar uma terceira via, mas Caiado não decolou, e agora é a sobrevivência política que fala mais alto. Presidente nacional da legenda, Kassab, considerado símbolo máximo do pragmatismo, lembra que em 2022, após o partido não conseguir lançar um nome próprio, seus correligionários foram liberados, e parte deles seguiu com Lula. Ele chama de “natural” o fato de alguns nomes, então, receberem apoio do presidente nesta eleição.“São alianças importantes para, na atual conjuntura, disputarem em condições de competitividade”, comenta ele, citando o caso de Paes. Representantes de outros partidos sem candidatura presidencial também se embolam ao tentar evitar o ambiente polarizado. No Ceará, Ciro Gomes, do PSDB, que optou pela neutralidade, é coligado com o partido de Flávio, tendo na sua chapa majoritária ao Senado Alcides Fernandes (PL). Para a população, Ciro diz que não é Lula ou Bolsonaro. Ele atrai a direita no embate direto com Elamano de Freitas (PT), só que uma parte significativa do seu eleitorado é de esquerda – cerca de 30% desse campo declaram voto nele, de acordo com a Quaest. O seu irmão Ivo Gomes, ex-prefeito de Sobral, faz campanha com o slogan “Lula lá Ciro cá”. Por outro lado, o PT tenta colar o adversário ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A campanha do PSDB foi à Justiça Eleitoral contra essa associação: o TRE determinou a perda de 76 minutos da propaganda de Elmano, que recorreu, por causa de uma peça “CiroNaro”. Ela divulgava “Ciro e Bolsonaro. Do mesmo jeito. Do mesmo lado” e recuperava falas do político como “meus bolsonaristas são todos homens honrados”. Há ainda um ponto curioso no Ceará: quem tem sido visto fazendo campanha declarada para Flávio são candidatos do Novo, legenda do presidenciável Romeu Zema. “Aqui é uma salada”, admite uma liderança do partido do ex-governador de Minas Gerais.  

Santinho “LuQuel”: aliados de João Campos chama de “oportunismo” (Instagram/Reprodução)
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Briga na Justiça Eleitoral

Assim como no Ceará, na Bahia também tem conflito entre as principais campanhas na Corte Eleitoral. Lá, os petistas acionam a Justiça para conter manifestações do tipo “LuNeto”. Viraram alvo de questionamentos do grupo de Jerônimo um vídeo de influenciadores que fazem graça ao pedir votos para o candidato do União Brasil e Lula e um jingle de autoria desconhecida ligando os dois. Nas redes, apoiadores de ACM Neto – que tem na chapa o candidato ao Senado João Roma (PL) – espalham posts como “Eu tô com Netinho, eu tô com vovô Lula” e “Eu sou o papai Lula Lá e o Neto aqui”. Chama a atenção a estratégia, nesses casos, de “esconder” o carlismo – a Bahia concentra um dos maiores eleitorados de Lula no Brasil. “Os vídeos de influenciadores não parecem ser manifestações orgânicas, espontâneas, mas sim uma ação articulada”, acusa o presidente do PT na Bahia, Éden Valadares, chamando a chapa de ACM Neto de “anti-Lula”. Não é só no Nordeste que batalhas assim ocorrem diante da fluidez do Centrão. No Sudeste, Minas Gerais é considerado o “estado pêndulo” desta eleição. O presidente tem como candidato Patrus Ananias (PT), e Bolsonaro, Flávio Roscoe (PL). No entanto, quem lidera as pesquisas a governador é um nome do Republicanos, o senador Cleitinho, que se identifica como de direita, declarou voto em Flávio, mas trabalha publicamente para ter eleitores de Lula após ter conquistado parcela importante dos bolsonaristas. 

ACM Neto e Lula sorrindo, com o Farol da Barra e a Baía de Todos os Santos ao fundo. Texto: SOU NETO 44 E PAPAI LULA 13
PT da Bahia foi à Justiça Eleitoral contra propagandas que unem ACM Neto e Lula (Instagram/Reprodução)
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Pela legenda, ele está sem amarras no plano nacional. Mas, para quem segue a campanha, um detalhe chama a atenção: é o apoio escancarado da prefeita do PT Jackeliny Nascimento, do município de Frei Gaspar. A cidade é pequena (o número de habitantes não chega a 6 mil), mas mesmo assim essa aliança – ela, inclusive, divulga propaganda com fotos de Cleitinho e Lula juntos – gera rebuliço e reação entre petistas. Até porque o senador não perde a oportunidade de propagar essa parceria. Ele publica vídeos com discurso anti-polarização, contra a escala 6×1 e já fez estardalhaço ao abraçar um eleitor de Lula de frente para as câmeras: “Seu Luiz está aqui, mas ele é PT, vota no Lula. Vou descer aqui para te dar um abraço, porque isso aqui é democracia”, disse. A atuação calculada de Cleitinho divide os lulistas: ela pode ser benéfica ao presidente quando o candidato não faz campanha para Flávio, mas é sinônimo de dor de cabeça para Ananias, que chegando ao segundo turno oferecerá um palanque forte a Lula. “Do eleitorado de Minas, 6% são Cleitinho e Lula. Se ele fizer campanha para Flávio, perde esse eleitor”, diz Guilherme Russo, diretor de Inteligência da Quaest. Candidato a deputado federal pelo PT em Minas, Pedro Rousseff analisa essa movimentação mirando o plano nacional: “Numa eleição muito apertada a presidente, isso pode ter um impacto no resultado”.

A flexibilidade de Cleitinho é vista no Rio de Janeiro dentro da campanha de Paes, que oficialmente está com Lula e é coligado com o PT no Rio. O ex-prefeito da capital atraiu clãs do centrão e nomes que antes estavam ligados ao bolsonarismo, como a família Reis, de Duque de Caxias. Jane Reis (MDB), irmã do ex-prefeito da cidade da Baixada Fluminense Washington Reis, antigo aliado de Jair Bolsonaro, é a vice na chapa. Os dois se mantêm discretos na corrida a presidente, diferente da postura dos seus irmãos Rosenverg e Gutemberg Reis, respectivamente candidatos a deputado estadual e a federal pelo MDB: nas mãos da dupla, tem santinho de Flávio e de Paes. Como o PSD tem candidato a presidente, o ex-prefeito não pode usar verbas do fundo eleitoral para bancar materiais em conjunto com Lula, o que tem sido usado para justificar a ausência do presidente em seus panfletos e bandeiras. Paes é um exemplo dos que buscam fugir do clima de radicalização, embora seu principal adversário, Douglas Ruas (PL), que se “gruda” a Flávio para chegar a um segundo turno, tente empurrá-lo para o campo da esquerda. “Lideranças importantes podem se afastar da polarização nacional, mas ela continua muito forte e determinante”, conclui Mayra Goulart.   

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