Marcos Daniel Xavier explica a neurocirurgia além do centro cirúrgico

Antes de qualquer decisão cirúrgica, existe uma história que precisa ser ouvida. Na neurocirurgia, especialidade em que diagnósticos podem envolver dor, medo e risco, Marcos Daniel Xavier de Oliveira Santos constrói sua atuação a partir de uma ideia que exige presença: o exame mostra a doença, mas não revela sozinho quem é a pessoa que sofre.
A medicina entrou em sua vida depois de outro caminho. Antes do jaleco, vieram os instrumentos, as aulas e a música. Dos 18 aos 24 anos, Marcos atua como professor de música. Aos 25, inicia a faculdade de medicina, depois de cursar fisioterapia por um período e perceber que queria se aprofundar no diagnóstico e no tratamento de doenças.
“A música chegou primeiro porque fazia parte da minha vida desde cedo. Mas eu sempre tive interesse pela saúde. Em determinado momento, entendi que queria estudar doenças, compreender tratamentos e cuidar das pessoas de outra maneira. Foi assim que a medicina se tornou o meu caminho”, relembra.
Filho de uma funcionária pública, ele associa sua formação pessoal a valores que seguem presentes na rotina: resiliência, foco e dedicação. A graduação em Medicina acontece na Faculdade de Medicina de Araguari, em Minas Gerais. Já a escolha pela neurocirurgia nasceu ainda nos primeiros meses de curso, diante de uma peça anatômica que desperta fascínio e responsabilidade.
No laboratório, ao observar um crânio, ele percebe trajetos de nervos, artérias e veias. Enxerga complexidade. Para muitos, aquele cenário poderia intimidar. Para ele, indica uma direção.
“Eu olhei para o crânio e vi um quebra-cabeça difícil. Sempre me atraí pelo que exige mais estudo, mais cuidado e mais responsabilidade. Naquele momento, decidi que faria neurocirurgia. Nunca pensei em seguir outra especialidade”, conta.
Formação, técnica e prudência
A residência médica em Neurocirurgia pela Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, consolida a escolha. A especialidade exige anos de preparo, rotina intensa e contato com situações que pedem firmeza técnica e maturidade emocional. Depois da residência, Marcos obtém o título de especialista pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, etapa que considera relevante para a classe médica e também para o paciente.
Para ele, a formação não termina com um certificado. A técnica é indispensável, mas a experiência ensina algo que vai além do centro cirúrgico: reconhecer o momento certo de operar, entender quando é possível acompanhar e comunicar riscos sem retirar do paciente a possibilidade de decidir com consciência.
“O cirurgião amadurece quando aprende a indicar melhor. A experiência traz segurança, mas também traz prudência. Com o tempo, você passa a conduzir melhor a família, a compreender quem está sofrendo e a escolher com mais responsabilidade cada caminho”, reflete.
Essa relação com o conhecimento também aparece no ensino. Marcos atua como professor da liga de neurocirurgia da UniEvangélica, em Anápolis (GO), e mantém contato com alunos e residentes em sua rotina. Em muitos momentos, entende que o neurocirurgião também precisa traduzir a medicina para o paciente.
O exame não vem antes da história
No consultório, muitos pacientes chegam com exames nas mãos e ansiedade no olhar. Querem mostrar a ressonância antes de contar a própria dor. Marcos prefere outro percurso: primeiro, escuta; depois, examina; só então apresenta as imagens, explica os achados e organiza as possibilidades de tratamento.
Antes da consulta, o paciente responde a uma pré-avaliação sobre dor, tempo de sintomas e impacto na rotina. Esse cuidado permite que a conversa comece de forma mais próxima. O objetivo não é apenas saber onde dói, mas entender o que a dor interrompeu.
“Eu quero saber quando a dor começou, como ela se manifesta e o que ela impede. Muitas vezes, o paciente deixa de sair com a família, abandona atividades que gostava e passa a viver com medo da próxima crise. Isso não é apenas físico. Também existe sofrimento emocional”, explica.
A coluna está entre as áreas mais presentes em sua atuação. Hérnias de disco, doenças degenerativas, fraturas e alterações estruturais podem limitar movimento, trabalho, sono e convivência. Ainda assim, Marcos faz questão de afastar um equívoco comum: nem toda hérnia de disco exige cirurgia.
A conduta depende do quadro clínico, do exame físico, da imagem e da repercussão na vida do paciente. Dor persistente, irradiação para braços ou pernas, dormência e perda de força merecem avaliação especializada.
“A minoria dos casos de hérnia de disco é cirúrgica. O paciente precisa entender que existem caminhos diferentes. A cirurgia não deve nascer do medo, mas de uma indicação clara, construída a partir da história, dos sintomas e dos exames”, afirma.
Humanização também é explicar riscos
A neurocirurgia lida com diagnósticos que costumam assustar. Tumores cerebrais, aneurismas, hidrocefalia, traumas cranianos e doenças da coluna exigem precisão, mas também pedem linguagem acessível. Para Marcos, humanizar não é suavizar a gravidade de um quadro. É explicar com clareza, permitir perguntas e incluir a família quando ela participa do cuidado.
Essa postura aparece especialmente diante de doenças do cérebro. Em vez de começar pelo procedimento, ele prefere começar pela compreensão: o que é a doença, onde está localizada, quais riscos existem e que alternativas podem ser consideradas.
“Quando o paciente recebe um diagnóstico difícil, ele precisa entender o que está acontecendo. Eu mostro os exames, explico de forma simples e tiro as dúvidas. A família também precisa ser acolhida, porque muitas vezes ela carrega o medo junto com o paciente”, comenta.
Esse cuidado não elimina a complexidade. Em tumores cerebrais, a conduta varia conforme localização, tamanho, comportamento da lesão e risco de sequelas. Em aneurismas, a decisão pode envolver acompanhamento, abordagem endovascular ou cirurgia aberta. Em todos os cenários, a avaliação precisa ser individualizada.
Tecnologia com critério
A neurocirurgia avançou nas últimas décadas. Marcos cita recursos como microscopia, endoscopia, exames de imagem mais precisos e monitorização neurofisiológica intraoperatória. Essas ferramentas ajudam a planejar e acompanhar procedimentos em regiões sensíveis do cérebro, da medula e dos nervos.
A tecnologia, porém, não substitui o julgamento médico. Ela amplia a segurança em alguns contextos, permite abordagens menos invasivas e pode favorecer recuperações mais rápidas, mas sempre dentro dos limites de cada caso.
“A tecnologia trouxe cirurgias mais pontuais, cortes menores e mais recursos para proteger estruturas importantes. Mas ela precisa caminhar com planejamento, equipe experiente e indicação correta. Nenhum equipamento substitui responsabilidade”, ressalta.
Ao falar de riscos, Marcos evita promessas. Considera essencial que o paciente saiba o que pode acontecer e quais medidas são tomadas para reduzir complicações. Para ele, transparência não significa assustar. Significa respeitar a pessoa que precisa decidir.
Paixão, futuro e responsabilidade
A escolha pela neurocirurgia, segundo Marcos, não se sustenta por status. A residência é exigente, a rotina cobra renúncias e os desafios continuam mesmo depois da formação. O que permanece é a paixão pela área e o compromisso com uma medicina que exige estudo constante.
Ele lembra que decidiu seguir a especialidade em 2008. Desde então, mantém a mesma convicção, agora acompanhada por uma visão mais madura sobre tempo, família e equilíbrio.
“É paixão pela área. Não existe outro motivo que sustente uma trajetória dessas. A neurocirurgia exige muito, mas também ensina muito. Com o tempo, você percebe que cuidar bem inclui indicar bem, ouvir melhor e entender quem está do outro lado”, diz.
Ao olhar para os próximos anos, Marcos fala em continuidade, seleção mais criteriosa de casos e avanço de técnicas menos invasivas. Também acompanha recursos como realidade virtual, inteligência artificial e robótica, embora reconheça que muitas tecnologias chegam ao Brasil em ritmo mais lento.
Seu desejo profissional não está ligado apenas a operar mais. Está em operar melhor, ensinar quando possível, dividir responsabilidades com colegas mais jovens e manter espaço para a família.
A mensagem que ele deixa a quem tem medo de procurar um neurocirurgião passa pela informação. O paciente deve buscar formação, registro profissional, especialidade e referências, mas também precisa encontrar uma consulta em que possa ser ouvido.
“O mais importante é conhecer o dono da doença, não apenas a doença que ele tem. Quando eu escuto o paciente, entendo o que ele perdeu, o que ele teme e o que deseja recuperar. A partir daí, a medicina deixa de ser só técnica e passa a ser cuidado de verdade.”
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