Menina picada por jararaca em Cavalcante segue na UTI de Brasília

Uma menina de 4 anos permanece internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB) após ser picada por uma cobra jararaca na comunidade Kalunga do povoado do Prata, em Cavalcante, no nordeste de Goiás. Segundo a unidade hospitalar, a criança apresenta boa evolução clínica, permanece estável e segue sob acompanhamento da equipe multiprofissional.
O acidente ocorreu na manhã de quinta-feira (9), quando a menina foi mordida no pé esquerdo. Ela recebeu os primeiros atendimentos no Hospital Municipal de Cavalcante, onde foram administradas quatro ampolas de soro antibotrópico.
Durante a transferência para Brasília, realizada pelo Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBMGO) com apoio do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF), a criança permaneceu estável. Segundo os bombeiros, o atendimento precoce e a administração inicial do soro contribuíram para a estabilização do quadro. Ao chegar ao Hospital Materno Infantil de Brasília, a paciente recebeu atendimento imediato e complementação da soroterapia, conforme os protocolos do Ministério da Saúde para acidentes com animais peçonhentos.
A equipe de reportagem tentou contato com Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB) na manhã de domingo (12) mas não recebeu novas informações sobre a saúde da menor até o fechamento da matéria.
Apesar da repercussão do caso, especialistas destacam que a jararaca não é uma cobra agressiva. Ela costuma atacar apenas quando se sente ameaçada ou quando é pisada ou encurralada. O problema é que seu veneno está entre os mais perigosos do país.
De acordo com o Ministério da Saúde, os acidentes botrópicos — provocados por serpentes do gênero Bothrops, como as jararacas — representam a maior parte dos acidentes ofídicos registrados no Brasil. Essas serpentes estão distribuídas em praticamente todo o território nacional, incluindo áreas de Cerrado, como a região de Cavalcante.
Dados do Instituto Butantan mostram que o grupo das jararacas responde por cerca de 70% de todas as picadas de cobras peçonhentas registradas no país. Em 2024, o Brasil notificou 31.735 acidentes com serpentes, que provocaram 127 mortes. Mais da metade dos pacientes tratados recebeu soro antibotrópico, específico para acidentes envolvendo jararacas e outras serpentes do mesmo gênero.
O Instituto Butantan alerta que a gravidade do acidente depende principalmente do tempo entre a picada e o início do tratamento. Segundo o Instituto Butantan, quando o atendimento ocorre nas primeiras três horas após o acidente, o risco de morte é significativamente menor. Já atrasos superiores a 12 horas praticamente quadruplicam a letalidade.
Veneno pode causar hemorragias e insuficiência renal
O veneno da jararaca possui ação inflamatória, hemorrágica e coagulante. Entre os principais sintomas estão dor intensa, inchaço, sangramento no local da mordida, manchas arroxeadas, alterações na coagulação do sangue e hemorragias. Em situações mais graves, podem ocorrer necrose dos tecidos, insuficiência renal aguda e comprometimento de outros órgãos.
Por isso, o único tratamento específico recomendado é a administração do soro antibotrópico em ambiente hospitalar. O Ministério da Saúde orienta que não sejam feitos torniquetes, cortes no local da picada ou aplicação de substâncias caseiras, medidas que podem agravar o quadro clínico. A recomendação é manter a vítima em repouso e procurar atendimento médico imediatamente.
Especialista explica comportamento da espécie
Ao Mais Goiás, a bióloga Fernanda Flores explicou que as jararacas desempenham papel importante no equilíbrio ecológico por controlarem populações de roedores, anfíbios e outros pequenos animais. Segundo ela, apesar da fama, a espécie não costuma atacar seres humanos de forma espontânea.
“A jararaca não ataca pessoas deliberadamente. Na maioria dos acidentes, a mordida ocorre porque o animal foi pisado, surpreendido ou se sentiu ameaçado e reagiu para se defender. É uma serpente essencial para o equilíbrio do ecossistema, mas que exige atenção principalmente em áreas rurais, trilhas e locais com vegetação nativa”, afirmou.
A especialista destaca que crianças merecem atenção especial em acidentes desse tipo, pois possuem menor massa corporal, o que faz com que a quantidade de veneno inoculada tenha impacto proporcionalmente maior no organismo.
“A rapidez no atendimento foi determinante para a evolução favorável dessa criança. Em acidentes com serpentes peçonhentas, o tempo entre a picada e a administração do soro faz toda a diferença para reduzir o risco de complicações e salvar vidas”, disse ao Mais Goiás.
Maior território quilombola do Brasil
O acidente ocorreu na comunidade Kalunga do Prata, na zona rural de Cavalcante, município localizado no nordeste de Goiás e integrante da região da Chapada dos Veadeiros. A cidade está situada a aproximadamente 500 quilômetros de Goiânia e cerca de 310 quilômetros de Brasília, para onde a menina foi transferida em aeronave após o atendimento inicial.
O território Kalunga é reconhecido como o maior território quilombola em extensão do Brasil e ocupa áreas dos municípios de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás. Com centenas de nascentes, matas de galeria, veredas e extensas áreas preservadas de Cerrado, a região abriga uma das maiores biodiversidades do bioma.
Segundo Fernanda Flores, essas características ambientais favorecem a presença de diversas espécies de serpentes, entre elas as jararacas (Bothrops), responsáveis pela maior parte dos acidentes ofídicos registrados no país.
“O Cerrado reúne condições ideais para essas serpentes, como oferta abundante de alimento, vegetação que serve de abrigo e ambientes úmidos onde elas encontram proteção. Nos períodos mais quentes e chuvosos, a atividade desses animais aumenta, o que também eleva a probabilidade de encontros com moradores e visitantes”, explicou.
A bióloga reforça que a prevenção continua sendo a principal forma de evitar acidentes.
“Quem frequenta áreas rurais ou de vegetação nativa deve utilizar botas de cano alto, evitar caminhar em locais com pouca visibilidade e nunca colocar as mãos em buracos, sob pedras, troncos ou montes de folhas. São locais frequentemente utilizados pelas serpentes como abrigo. Além disso, ao avistar um animal, a orientação é manter distância e jamais tentar capturá-lo ou matá-lo”, orientou.
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