Política

Militares se afastam da política e devem permanecer distantes dos palanques em 2026

Em meados de 2022, assim como agora, a pré-campanha presidencial começava a esquentar. As pesquisas mostravam uma ampla vantagem de Lula, então candidato da oposição. O cenário desfavorável ao governo criava um ambiente ideal para a profusão de variadas teorias. Jair Bolsonaro, por exemplo, acreditava piamente que só perderia a eleição se as urnas eletrônicas fossem manipuladas para alterar votos em favor de seu adversário. E alguns militares que cercavam o presidente tinham certeza disso. O resultado é conhecido. As teorias deram origem a reuniões secretas, planos tresloucados, movimentações nos quartéis e ações que resultaram nos ataques do 8 de Janeiro, na barulhenta investigação que se seguiu depois da baderna e na condenação dos envolvidos, entre eles o próprio presidente e vinte militares, sendo cinco de alta patente. Quatro anos depois, a disputa pelo Planalto promete ser tão ou mais acirrada que a da vez passada, mas com um importante diferencial: a caserna, desta vez, está completamente apartada do processo eleitoral.

Ao assumir o governo, Lula exonerou praticamente todos os mais de 6 000 militares que ocupavam postos na administração, escolheu um civil para chefiar o Ministério da Defesa e indicou oficiais sem histórico de intromissão política para comandar o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. O presidente não tem e nunca teve uma boa relação com os quartéis, mas hoje os problemas nessa área se restringem à falta de recursos para reequipar as Forças. Em paralelo, o Supremo Tribunal Federal puniu exemplarmente os envolvidos na trama golpista, particularmente os generais Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil), Augusto Heleno (ex-ministro-chefe do GSI), Paulo Sérgio Nogueira (ex-comandante do Exército e ex-ministro da Defesa) e o almirante Almir Garnier (ex-comandante da Marinha) — condenados a penas que ultrapassam 26 anos de prisão. Essa combinação restabeleceu o ordenamento natural de uma democracia, além de desestimular novas aventuras.

APOSTA - Bolsonaro: milhares de fardados ocuparam postos no governo (Wilton Junior/Estadão Conteúdo/.)

Empenhado em criar uma imagem de moderação junto aos eleitores, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, ao contrário do pai, não se cercou de militares e afirma que não pretende fazê-­lo. Pelo contrário. Ele tem assegurado que, em caso de vitória, seu ministério será composto por técnicos qualificados em todas as áreas. A única menção ao papel reservado aos fardados em seu eventual governo aparece no conjunto de propostas sobre segurança pública, na qual considera a possibilidade de emprego das Forças Armadas no combate às facções criminosas nos portos e nas fronteiras.

Analistas, porém, alertam para uma promessa de campanha anunciada pelo senador e por outros candidatos de oposição que pode acabar novamente levando o embate político para dentro dos quartéis. O senador já disse que, se eleito, vai conceder perdão aos condenados no processo da trama golpista. Além dele, os pré-candidatos do PSD, Ronaldo Caiado, e do Novo, Romeu Zema, também já deram declarações públicas em favor de uma anistia a Jair Bolsonaro e aos envolvidos no 8 de Janeiro. “Com anistia ou indulto, teremos um retrocesso”, alerta Octavio Amorim Neto, professor titular da FGV.

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TRAMA GOLPISTA - Braga Netto, Heleno, Garnier e Nogueira: presidenciáveis de oposição prometem perdão aos condenados
TRAMA GOLPISTA - Braga Netto, Heleno, Garnier e Nogueira: presidenciáveis de oposição prometem perdão aos condenados (Joédson Alves/EPA/EFE; Andressa Anholete/Getty Images; Ton Molina/STF; Evaristo Sá/AFP)

É unanimidade entre juristas que, se provocado, o Supremo tende a declarar a inconstitucionalidade de qualquer tipo de perdão ou anistia. Há, inclusive, um precedente da própria Corte, que, em maio de 2023, anulou um indulto de Jair Bolsonaro ao ex-deputado Daniel Silveira, condenado pelos crimes de coação e tentativa de impedir o livre exercício dos Poderes. “A garantia que a gente tem de que fatos como os ocorridos não se repitam é justamente garantir que o ordenamento jurídico não vai ser descumprido”, diz a jurista Eneá de Stutz e Almeida, professora da Universidade de Brasília. Em abril, o Congresso derrubou o veto presidencial ao projeto que reduzia as penas dos condenados pela trama golpista. Dias depois, o ministro Alexandre de Moraes, sorteado relator de uma ação que questiona a medida, suspendeu a eficácia da lei. Um futuro perdão, dependendo do contexto, pode gerar conflito entre os Poderes, mexer em feridas ainda abertas e ressuscitar instituições e personagens que hoje estão completamente afastados do processo político — e assim devem continuar.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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