Moradores da Pensilvânia se unem contra expansão de data centers

Explosões de dinamite têm abalado a casa de Ken e Dolly Potteiger, na região central da Pensilvânia (estado dos EUA), há dois meses, enquanto equipes de construção desmontam a encosta ao lado da qual a família vive há décadas.
As colinas estão sendo destruídas para dar lugar ao PAX-1, um projeto de data center que ocupa cerca de 283 hectares e é separado da propriedade rural dos Potteiger por uma cerca de arame.
“Nós nem conseguíamos enxergar o nosso quintal ou o campo, de tanta terra que havia no ar”, disse Dolly Potteiger sobre as explosões que destruíram a paisagem que ela observava havia mais de 53 anos.
A apreensão dos Potteiger se repete por toda Middlesex Township, onde tantos moradores contrários à construção do PAX-1 lotaram uma recente reunião pública que ela acabou sendo cancelada por exceder a capacidade de 150 pessoas do local.
A reação contra a rápida expansão dos data centers se tornou um ponto de tensão na Pensilvânia —um estado decisivo nas eleições americanas— e em todo o país antes das eleições legislativas de novembro. A questão embaralha divisões partidárias em disputas acirradas, enquanto democratas e republicanos tentam se posicionar como defensores de uma postura mais rigorosa em relação ao setor.
A crescente preocupação da população com possíveis perdas de empregos, aumento das tarifas de eletricidade e da conta de água e degradação ambiental ocorre apesar de os investimentos em inteligência artificial e data centers responderem por cerca de um terço do crescimento econômico dos EUA neste ano.
A reação também colocou alguns candidatos republicanos em desacordo com o presidente Donald Trump, que nesta semana afirmou que os americanos que se opõem aos data centers de IA querem que o país fique “atrasado e pobre”.
No Lehigh Valley, na Pensilvânia —região onde fica Bethlehem e onde o Financial Times conduz um projeto jornalístico de vários anos— placas contrárias a propostas para seis data centers estão espalhadas pelos gramados.
No 7º distrito congressional, uma disputa acirrada que abrange boa parte do Lehigh Valley, os planos para o Project Atlas, em um terreno de 166 hectares a 20 minutos a leste de Bethlehem, colocaram o tema no centro da campanha eleitoral.
Os candidatos do distrito, o democrata Bob Brooks e o republicano Ryan Mackenzie, apoiam uma ordem executiva assinada em agosto pelo governador democrata Josh Shapiro. A medida vai desacelerar a aprovação de data centers, ampliar a transparência sobre acordos propostos, exigir que os complexos produzam ou obtenham sua própria energia e fortalecer o poder das autoridades locais para se oporem aos projetos.
As posições dos candidatos estão alinhadas às de quase dois terços dos moradores da Pensilvânia, que consideram os data centers um problema, segundo uma pesquisa do Muhlenberg College.
Os moradores veem os empreendimentos como uma invasão de “interesses externos” e de uma “classe privilegiada”, em uma reação que atravessa as divisões partidárias, afirmou Christopher Borick, professor de ciência política da Lehigh University.
A ordem executiva de Shapiro representou uma mudança de rumo para o governador, um possível candidato democrata à Presidência em 2028 que havia elogiado o compromisso da Amazon de investir US$ 20 bilhões (R$ 101,8 bilhões) em data centers no estado.
“Vejo que ele está um pouco incomodado com essa questão, e nunca o vi incomodado antes”, disse Borick. “Os políticos estão tentando tirar proveito da reação contra os data centers, mas também estão apavorados com a possibilidade de já estarem atrás da opinião pública.”
Roger Wehner, vice-presidente de desenvolvimento econômico da Amazon Web Services, afirmou que o investimento da empresa geraria receita tributária e oportunidades para empreiteiros locais, além de empregos permanentes, “a grande maioria dos quais não exige um diploma universitário de quatro anos”.
Para os trabalhadores da construção civil, até mesmo os empregos temporários criados pelo avanço dos data centers são bem-vindos. “Todo emprego na construção é temporário”, disse Paul Anthony, presidente do Lehigh Valley Building Trades.
“Não é como na antiga Bethlehem Steel, onde você conseguia um emprego depois do ensino médio e trabalhava lá durante toda a carreira”, afirmou, referindo-se à siderúrgica que chegou a empregar dezenas de milhares de pessoas em seu auge.
“Quanto mais obras houver, mais oportunidades poderemos oferecer para que as pessoas cheguem à classe média.”
Alguns moradores também apoiam, de modo geral, os novos empreendimentos. Ralph Witkowski, que vive há 60 anos ao sul da cidade vizinha de Allentown, perto do local previsto para o projeto Atlas, disse que, embora esteja preocupado com o aumento das contas de energia e água, considera que o potencial da inteligência artificial vale o risco.
“No fim das contas, precisamos de data centers… algumas pessoas vão sair um pouco prejudicadas. Mas, no longo prazo, acho que muitos de nós teremos vidas melhores”, disse.
Na Pensilvânia, 29 projetos de data centers foram propostos no último ano, segundo a empresa de inteligência de mercado DC Byte. Legisladores estaduais responderam com dezenas de projetos de lei, incluindo propostas de moratórias e de redução de incentivos fiscais estimados em US$ 1,7 bilhão (R$ 8,66 bilhões) ao longo de cinco anos.
O senador estadual Jarrett Coleman, republicano do Lehigh Valley, disse ter ficado surpreso com a rapidez com que os data centers se tornaram uma das principais questões políticas. “Eu não achava que seriam, mas são”, afirmou Coleman. “Alguma coisa mudou.”
A resposta dos legisladores foi rápida. Mais de um terço dos municípios assessorados pela Lehigh Valley Planning Commission adotou normas para data centers, estabelecendo regras sobre zoneamento, ruído e áreas de proteção ao redor de propriedades existentes.
“Nunca vi uma resposta de autoridades eleitas como a que tenho visto em relação aos data centers“, disse Becky Bradley, diretora-executiva da comissão.
Mesmo onde regulamentações mais rígidas já estão em vigor, autoridades locais sofrem pressão dos moradores diante de novos empreendimentos.
Em South Whitehall Township, reuniões extraordinárias da comissão de planejamento foram marcadas para analisar o Projeto Atlas, que ficará do outro lado da rua da quinta maior escola de ensino médio da Pensilvânia. O projeto provocou preocupações com o aumento do tráfego, além de ruído e calor.
Greg Sussman, que mora em frente ao terreno, ficou surpreso ao saber do projeto em uma reunião do município em janeiro. Muitos de seus vizinhos também não tinham conhecimento da proposta.
“Havia uma deficiência enorme na visibilidade das pessoas”, disse Sussman.
Sussman ajudou a reunir uma equipe de voluntários para enfrentar os responsáveis pelo projeto, que devem investir US$ 8,9 bilhões (R$ 45,34 bilhões) no empreendimento. Engenheiros e advogados do grupo analisam a proposta de 2.900 páginas em busca de qualquer ponto que possa violar as normas locais.
A oposição ao projeto se tornou um raro ponto de união em um momento de intensa polarização política na comunidade, segundo Sussman.
“Conversamos com pessoas da extrema esquerda, da extrema direita e de todos os pontos do espectro… isso serviu como um ponto de convergência para que as pessoas percebessem que não somos tão diferentes assim”, afirmou.
De volta a Middlesex Township, as terras agrícolas que restam ao redor da casa dos Potteiger brilhavam sob a luz do fim da tarde, enquanto uma brisa levantava nuvens de poeira entre a vasta extensão de escavadeiras e caminhões basculantes que se estendia até o horizonte no terreno do projeto PAX-1.
“Entendo que este é o futuro e que isso precisa acontecer”, disse Dolly Potteiger. “Mas passo muitas noites chorando.”
Folha de São Paulo>



