Mouhamed Harfouch celebra nova temporada de peça e vive fase de liberdade artística: ‘É libertador’

Prestes a iniciar uma nova temporada de ‘Meu Remédio’ em São Paulo, Mouhamed Harfouch (48) chega a um momento especial de um projeto que nasceu de sua própria história e acabou se transformando também em um marco de sua trajetória artística. Depois de quase dois anos, cerca de 100 apresentações e mais de 20 mil espectadores, o ator retorna aos palcos paulistanos carregando uma relação diferente com o material que escreveu, produz e protagoniza.
Se inicialmente havia receio em transformar experiências tão pessoais em matéria teatral, a resposta do público mudou sua relação com o espetáculo. “É claro que o medo que tinha de levar uma história tão pessoal para os palcos deu lugar à certeza de que dividir isto com o público foi algo muito especial”, afirma Mouhamed em entrevista exclusiva à CARAS Brasil.
A transformação não aconteceu apenas diante da plateia. Enquanto ‘Meu Remédio’ percorria diferentes palcos, a própria vida do ator continuava acontecendo. E, em alguns desses momentos, estar em cena ganhou um significado ainda maior. “Muita coisa aconteceu na minha própria vida durante essa jornada e estar no palco nestes momentos foi fundamental”, conta.
Humor como ‘tábua de salvação’
Embora parta de memórias, questões de identidade, família e pertencimento, ‘Meu Remédio‘ está longe de seguir apenas por um registro dramático. O humor ocupa espaço fundamental na montagem, inclusive quando Harfouch reproduz vozes, maneiras de falar e trejeitos de pessoas que atravessaram sua história.
Para quem acompanha sua carreira principalmente pela televisão, essa faceta pode parecer uma descoberta. Para o ator, no entanto, ela sempre esteve presente.
“É engraçado porque o humor sempre caminhou comigo. A comédia sempre esteve presente nos meus papéis no teatro e não só nele”, diz. Ele lembra, entre outros trabalhos, de Hussein, personagem de sua primeira novela, ‘Pé na Jaca’, e de Isaías, de ‘Rensga Hits!‘, como exemplos dessa relação com a comédia.
Mais do que uma ferramenta profissional, fazer rir também atravessa sua maneira de lidar com a vida. “O humor é minha tábua de salvação, minha maneira de filtrar os acontecimentos da vida e, claro, um lugar onde tenho um enorme prazer em estar e voltar sempre”, revela.
Origens, identidade e personagens que deixaram marcas
Ao olhar para trás, Mouhamed percebe que algumas das questões que hoje coloca no palco em primeira pessoa já apareciam, de formas distintas, em personagens que encontrou pelo caminho. “A nossa história sempre acaba nos achando. Não adianta fugir dela ou tentar fingir que não a vê”, reflete.
O ator cita personagens como Pérsio, de ‘Viver a Vida’, Ali, de ‘Órfãos da Terra’, e Farid, de ‘Cordel Encantado‘, ao falar sobre trabalhos que o aproximaram de discussões relacionadas à origem, identidade e pertencimento. Com ‘Meu Remédio’, porém, a investigação deixa de pertencer somente à ficção e chega diretamente à sua própria trajetória.
“Acredito que os meus personagens acabaram por me trazer essa consciência sobre a importância de sabermos de onde viemos, quem somos”, explica. “’Meu Remédio’, agora, é a forma que também encontrei de agradecer ao teatro por me dar ferramentas e meios para entender de onde venho, quem sou e para onde quero ir. ‘Meu Remédio’ celebra as minhas origens e também a importância do teatro na minha caminhada.”
Uma sequência de novos desafios
A nova temporada chega em meio a uma fase particularmente movimentada. Paralelamente ao espetáculo, Harfouch vem se dedicando a projetos bastante diferentes entre si, transitando por histórias ligadas ao esporte, à espiritualidade e também pelo universo policial.
Entre os trabalhos estão ‘Viver de Vento’ e ‘Emmanuel’, além de uma nova série policial, ‘Delegacia de Homicídios’, da Disney+. A diversidade dos personagens poderia exigir sucessivos processos de despedida e recomeço, mas, para o ator, existe algo que conecta projetos aparentemente tão distantes.
“Tantas histórias lindas, verdadeiras e potentes! São diferentes em personagens, gêneros e até veículos. Mas todas guardam entre si oportunidades para contar boas histórias”, afirma.
A variedade também ganha um significado particular para alguém que, durante parte da carreira, se preocupou com a possibilidade de ser enquadrado em determinados tipos de personagem.
“Por muito tempo tive medo de rótulos e, hoje, no momento em que menos me preocupo com isso, me chegam tantos personagens fortes e diferentes. Estou muito feliz!”, comemora.

Ator, autor e produtor
‘Meu Remédio‘ trouxe ainda outra mudança importante para Mouhamed: assumir simultaneamente as funções de autor, ator e produtor. A experiência ampliou sua autonomia, mas também multiplicou responsabilidades. “Acho que se produzir é das coisas mais desafiadoras para um artista e, no meu caso, ainda arrumei de escrever, produzir e atuar, ou seja, loucura total!”, brinca.
Apesar da intensidade, a experiência despertou um desejo de continuidade. “Estou muito feliz em realizar. É libertador! Não quero parar mais”, afirma. A liberdade de conduzir o próprio projeto também se tornou uma aliada diante de uma agenda que inclui teatro, cinema, séries e outros compromissos profissionais. “O que ajuda muito no meu caso em ‘Meu Remédio’ é que me produzir me possibilita organizar a minha própria agenda para evitar os conflitos entre tantos trabalhos.”
No meio dessa engrenagem, existe uma prioridade que o ator procura preservar: a família. Pai, Mouhamed conta que a intensidade profissional dos últimos anos aumentou também a necessidade de encontrar maneiras de permanecer próximo dos filhos.
“Tem a minha necessidade de estar com meus filhos, família, estar em casa. Isso me reorganiza. Acho que nunca viajei tanto nesses últimos dois anos e muitas vezes levo a família comigo para estar mais perto mesmo”, conta. E, embora reconheça que a carreira alterna momentos de maior e menor intensidade, ele não esconde qual cenário prefere: “Sei que tem fases mais intensas e fases de maré calma, mas gosto mesmo é de mar agitado e muito vento!”
‘A maturidade é libertadora’
Aos 48 anos, depois de uma trajetória construída entre televisão, cinema e teatro, Mouhamed identifica justamente na maturidade uma das razões para viver essa fase com mais autonomia. “Sim! A maturidade é libertadora!”, afirma.
Hoje, os critérios para aceitar um novo projeto passam menos pela necessidade de estar constantemente trabalhando e mais pela história que deseja contar e pelo lugar em que pretende investir sua energia. “Tenho mais tranquilidade para dizer não, para saber que história quero contar, onde realmente quero colocar minha energia. Isso traz muita paz e nos faz caminhar com menos inquietação e medo”, explica.
O ator não diz ter eliminado inseguranças e cobranças, mas aprendido a estabelecer outra relação com elas. “Claro que sempre estarão lá, mas de forma mais harmônica, com menos pressão e cobranças comigo mesmo.” Talvez a maior mudança esteja justamente naquilo que ele já não sente necessidade de perseguir. “Sinto que uma das minhas maiores conquistas é que estou aprendendo a soltar, deixar ir. Não preciso fazer tudo, estar em todos os lugares ou agradar a todos.”
Depois de quase 100 apresentações de uma peça dedicada a investigar suas raízes e sua própria trajetória, Mouhamed parece chegar à nova temporada interessado tanto no artista que se tornou quanto naquele que ainda deseja preservar. “Quero seguir com essa maturidade, mas sem perder o garoto que se encanta com a vida”, resume. “Conciliar essas duas chamas dentro de mim.”



