Política

MST e candidatos progressistas do PR reafirmam compromisso: ‘Eleição de Lula é importante para o mundo’

Candidatos e parlamentares da esquerda paranaense e militantes sem terra se reuniram, nesse sábado (22), para debater a agenda eleitoral no Paraná e no Brasil. A mobilização de acampados e assentados vindos de todas as regiões do Paraná contou com a presença dos candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT) ao Senado Federal, Dr Rosinha e Gleisi Hoffmann. Para a deputada federal, as eleições de 2026 são “encruzilhada histórica”.

Durante o ato, Gleisi Hoffmann recuperou o passado recente de violência política, que culminou no golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff e a prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela destacou que, apesar dos retrocessos, o campo progressista retornou vitorioso: “Aqui tem muita luta, gente. Tem muita memória, tem muita história”.

“E de novo nós vamos para mais um momento histórico das nossas vidas. É uma encruzilhada. Nós temos a obrigação, enquanto campo progressista, político de esquerda, de não deixar a extrema direita voltar a governar o Brasil”, enfatizou.

Outro ponto central no debate foram os ataques recentes aos direitos políticos das mulheres. Pautas como o “voto familiar” tem surgido em falas de ideólogos e políticos da extrema direita. Em junho deste ano, Paulo Figueiredo, blogueiro bolsonarista e apoiador da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), afirmou que mulheres solteiras “votam mal”.

O fim do voto feminino tem crescido como pauta ultraconservadora nos Estados Unidos e no Brasil. Para Gleisi, esse é outro fator decisivo para as eleições deste ano: “É impressionante que hoje a gente volte a ouvir e discutir o direito de voto das mulheres. Algo que nós implantamos lá na década de 1930. Essa é a cabeça dessa gente que acha que a mulher tem que ser submissa. Então vamos falar com as mulheres, vamos apontar o que está em risco, que é a nossa vida, a nossa dignidade, a nossa segurança”, defendeu.

“Hoje, a eleição do Lula não é só importante para o Brasil, é importante para o mundo. Porque o Lula é o principal líder mundial hoje que se opõe à extrema direita”, afirmou Dr Rosinha (PT), também candidato ao Senado pelo Paraná. Além da eleição presidencial, o governo do Paraná está sendo disputado por Requião Filho (PDT), Sergio Moro (PL) e Sandro Alex (PSD).

Para o médico, o campo político da esquerda tem um compromisso de enfrentar todos os tipos de violência e de opressão, “seja ela de gênero, seja ela da homofobia, do racismo, da xenofobia.”

Ele também criticou o desconhecimento dos candidatos da extrema direita sobre o povo paranaense e denunciou as falhas no enfrentamento à violência de gênero pelo governo Ratinho Jr. O Paraná é o terceiro estado com maior número de feminicídios em 2026, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública.  

Roberto Baggio, da direção nacional do MST, comparou a simbologia do espaço de reunião do encontro da militância sem terra ao lançamento da campanha do presidente Lula, em São Bernardo do Campo (SP).

No domingo (16), Lula voltou, 47 anos depois, ao Estádio 1º de Maio ou Vila Euclides, onde reuniu milhares de apoiadores e lançou oficialmente sua candidatura à presidência. Em 1979, no mesmo local, o então sindicalista fez um discurso histórico durante greve dos metalúrgicos do ABC Paulista.

Já no Paraná, o território do Assentamento 8 de Junho, em Laranjeiras do Sul (PR), há 30 anos era o latifúndio Giacomet-Marodin, o maior da região Sul à época, com cerca de 83 mil hectares. Em 1996, cerca de 15 mil pessoas ocuparam aquela terra, que hoje é o maior complexo da Reforma Agrária da América Latina, com cerca de 5 mil famílias camponesas.

“Os operários venceram naquele tempo histórico, e estamos aqui num lugar muito especial também. A Vila Euclides é aqui hoje, para nós camponeses. Aqui também vencemos. E o encontro dessas duas energias tem que ser a fonte pras batalhas adiante. Vamos fazer uma campanha intensiva de organizar o território, fazer o debate e esse debate transformar em voto e organização popular para os trabalhadores”, completou o militante sem terra.

Programação

O ato político iniciou com uma mística – elemento cultural sem terra que mistura música, teatro, poesia, abre e encerra atividades do movimento – que trouxe ao palco elementos da luta internacional pela transformação social, de solidariedade a Cuba e à Venezuela, e também em homenagem ao centenário do aniversário de Fidel Castro. O encontro contou ainda com almoço comunitário. Todos os alimentos oferecidos foram produzidos nas áreas da reforma agrária do estado.

João Pedro Stedile, também da Direção Nacional do MST, que não participou do ato presencialmente por problemas de agenda, falou em vídeo sobre os desafios para as eleições. “Nós temos que disputar o coração das pessoas. Nós temos que ir de casa em casa, conversar com as pessoas, olho no olho. O maldito zap não serve pra convencer as pessoas, porque pelas redes sociais os grupos já estão consolidados e você não muda a opinião das pessoas apenas pelas redes sociais”, afirmou.

Stedile também apontou para a mobilização popular por mudanças estruturais, que são mais rígidas e estão distantes de serem resolvidas por meio de decisões da presidência: “Você muda quando você leva a pessoa a pensar, para que ela decida o melhor caminho pro Brasil”.

Também estavam presentes as candidatas e os candidatos à Assembleia Legislativa do Paraná Vanda de Assis (PT), Teresa Mendes (PT), Professor Lemos (PT), Matteus Henrique (PT), Inácio Werle (PT), Guilherme Mazer (PT) e Bia Alcântara (PT), e as candidatas e os candidatos à Câmara dos Deputados Ana Julia (PT), Carol Dartora (PT), Luciana Rafagnin (PT), Tadeu Veneri (PT), Elton Welter (PT) e Celio Rodrigues (PT). Cada candidato recebeu uma cesta com diversos alimentos vindos das cooperativas de assentamentos e acampamentos paranaenses.

Militantes se reuniram por três dias para estudo e debate sobre a conjuntura política. | Crédito: Fotos: Pedro Ferreira
No total, a mobilização reuniu 15 candidatas e candidatos a cargos do legislativo e cerca de 500 militantes sem terra | Crédito: Foto: Juliana Barbosa
Gleisi Hoffmann e Dr Rosinha são candidatos ao Senado pelo Paraná | Crédito: Foto: Juliana Barbosa

Encontro Estadual da militância sem terra

O ato político de mobilização em torno das eleições foi parte do último dia de programação do Encontro da Coordenação Estadual do MST no Paraná. Neste ano, a militância debateu, como pontos centrais, o enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil, no campo e na cidade. O Programa Agrário do MST, que propõe uma sociedade baseada na equidade e na justiça social, defende o combate à violência de gênero nas mais variadas instâncias.

Também foram realizados no encontro a Assembleia da Juventude Sem Terra, um marco para a organização de jovens militantes do MST, e a Ciranda Infantil Gralha Azul, que recebeu crianças de seis meses a 12 anos de idade para atividades lúdicas e pedagógicas com educadores populares.

O encontro estadual reúne centenas de militantes sem terra vindos de acampamentos e assentamentos de todas as regiões do Paraná para debater a conjuntura política, alinhar estratégias políticas e fortalecer a formação interna da militância.

Além de traçar diretrizes para a Reforma Agrária Popular, para o avanço da agroecologia e a articulação sem terra, o encontro resgata a memória histórica das lutas do movimento e promove o diálogo com sindicatos, universidades, movimentos parceiros e a sociedade civil como um todo.

Associação 8 de Junho como centro organizativo

Há 8 meses, esse mesmo espaço de encontro da militância, a Associação do Assentamento 8 de Junho, foi o centro da resposta humanitária à maior tragédia climática da história recente do estado. Após a passagem de três tornados, em novembro de 2025, com ventos de mais de 400 km/h que atingiram a região, o local se tornou o pólo logístico e operacional da Brigada de Solidariedade do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

O espaço chegou a produzir 2,5 mil marmitas por dia para atender às famílias atingidas. No total, foram mais de 50 mil refeições preparadas e distribuídas. | Crédito: Foto: Thiarles França

Do centro comunitário do assentamento se consolidou uma rede para reerguer a cidade de Rio Bonito do Iguaçu (PR), a mais atingida, e dar suporte às milhares de famílias afetadas. Foi o núcleo das frentes de trabalho de reconstrução de moradias, alimentação diária, saúde popular e suporte pedagógico. Mais de mil militantes vindos de diversas regiões do Paraná e do Rio Grande do Sul atuaram por 43 dias na brigada. A associação foi espaço de alojamento, atendimento de saúde, cozinha comunitária, distribuição de marmitas e produção cultural.




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