Mulheres são 34,35% das candidaturas no RS, mas avanço na representação política segue lento

As mulheres representam 34,35% das candidaturas registradas para as eleições de 2026 no Rio Grande do Sul. São 361 candidatas entre as 1.051 candidaturas consideradas no levantamento. Apesar de o percentual ser ligeiramente superior ao registrado em 2022, quando as mulheres representavam 33,47% das 1.437 candidaturas, o crescimento é considerado insuficiente pela professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Maria Lúcia Moritz.
O dado chama atenção também quando comparado à composição do eleitorado: as mulheres representam 52,84% dos eleitores brasileiros em 2026 e são maioria do eleitorado também no Rio Grande do Sul. A presença feminina entre as candidaturas, portanto, permanece abaixo de sua participação no eleitorado. “Crescimento das candidaturas de mulheres no RS e no Brasil segue lento e não pode ser considerado um avanço entre um pleito e outro”, avalia Moritz.
Em 2026, das 361 candidaturas femininas, 182 são para deputada estadual e 161 para deputada federal. Há ainda seis candidaturas para segunda suplência do Senado, quatro para primeira suplência, três para o governo do estado, Juliana Brizola (PDT), Priscila Voigt (UP) e Rejane de Olivieira (PSTU), três para o Senado (Manuela d’Ávila (Psol), Daniela Maidana da Silva (PSTU) e duas para vice-governadora, Naf Nascimento (UP) e Silvana Covatti (PP).
Entre os partidos, PL e PSD aparecem com o maior número absoluto de candidaturas femininas, com 28 cada. Na sequência estão MDB e Republicanos, com 27 candidatas cada; PDT, com 26; Podemos, com 25; PT e PSDB, com 24 cada; Novo, com 22; e Psol, com 20. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral.
“Quanto mais poder, menos mulheres estão presentes”
“As mulheres continuam tendo dificuldade em acessar espaços de poder e quanto mais acirrada for a competição, menos chances as mulheres terão. A lógica que prevalece é: ‘quanto mais poder, menos mulheres estão presentes’”, afirma Moritz.
Na avaliação da professora, das seis candidatas que disputam o governo do estado e o Senado em 2026, apenas duas apresentam competitividade e reais chances de vitória: Juliana Brizola e Manuela d’Ávila, respectivamente. Moritz destaca ainda que as seis candidatas estão vinculadas a partidos do espectro político de esquerda.
A dificuldade de transformar candidaturas em representação também aparece em uma pesquisa recente coordenada por Moritz. O estudo “Mulheres e (sub)Representação Política no Brasil: trajetórias e enfrentamentos na política institucional (1998–2022)”, desenvolvido em parceria entre o Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Mulher e Gênero (Niem/UFRGS) e o Observatório Nacional da Mulher na Política da Câmara dos Deputados, analisou a trajetória de 233 mulheres que ocuparam 380 cadeiras na Câmara dos Deputados entre 1998 e 2022.
Segundo o levantamento, as mulheres passaram de 29 cadeiras titulares, ou 5,6% da Câmara, em 1998, para 91, ou 17,7%, em 2022. Apesar do crescimento, as pesquisadoras consideram o avanço lento.
Ao longo das sete eleições analisadas, as mulheres conquistaram apenas 10,6% das 3.591 cadeiras disputadas na Câmara.
Menos mulheres negras entre as candidatas
A desigualdade também aparece no recorte racial. Entre as mulheres que disputam as eleições de 2026 no Rio Grande do Sul, 276 são brancas, o equivalente a 76,45%; 51 são pretas, ou 14,13%; 30 são pardas, 8,31%; e quatro são indígenas, 1,11%.
Em 2022, eram 360 candidatas brancas, 82 pretas, 36 pardas e duas indígenas. Naquele ano, as mulheres pretas representavam 17,05% das candidaturas femininas, enquanto as brancas correspondiam a 74,84%.
Para Moritz, a redução proporcional das candidaturas de mulheres pretas é um sinal de que a desigualdade racial continua estruturando o acesso à política institucional. “Desde 2014, no cenário político nacional, tem havido o crescimento de ‘mulheres negras’, tanto entre candidaturas como entre eleitas, mas dentro deste grupo, o crescimento maior é das mulheres pardas. As candidatas pretas são as que menos se elegem, apenas 13 foram eleitas deputadas federais em 2022 das 91 vagas que as mulheres conquistaram.”
A professora acrescenta que “76,5% de candidaturas de mulheres brancas revela que este grupo segue sendo o hegemônico e o marcador racial – branquitude – as favorece”.
“As candidatas pretas e pardas estão em maior desvantagem que essas mulheres. Elas sofrem mais violência política, tem menos capital político, menos capital social, menos capital cultural e econômico. Por isso a importância de se ter políticas de ações afirmativas.”
Segundo Moritz, a baixa presença feminina na política não pode ser explicada por um único fator. “A sub-representação política das mulheres é multicausal, estudos na área da ciência política indicam que há razões institucionais e extrainstitucionais.”
Entre as barreiras institucionais, ela cita a chamada “engenharia institucional”, que envolve o sistema eleitoral, o formato do sistema partidário, o tamanho dos distritos eleitorais e o modelo de financiamento das campanhas. “No quesito financiamento público, o percentual de 30% da verba do ‘Fundão’ a ser distribuído às candidatas mulheres é frequentemente descumprido pelos partidos e, ao invés de serem punidos, os partidos se esforçam para se auto-anistiar (vide PEC da Anistia em 2024).”
Entre os obstáculos extrainstitucionais estão a falta de tempo livre em razão da dupla ou tripla jornada de trabalho, a dificuldade de construção de redes de apoio, a menor inserção em espaços de ativismo social e no mercado de trabalho, além da permanência das relações patriarcais na sociedade e nas organizações partidárias. “O ambiente político-partidário é intimidador às mulheres, inibindo-as no desenvolvimento de uma ‘ambição política’”, pontua.
Violência política também afasta mulheres
Outro obstáculo apontado pela professora é a violência política de gênero. “As mulheres ainda enfrentam a violência política de gênero, sendo as mulheres negras ainda mais atingidas.”
Ela relaciona essa violência às desigualdades raciais que atravessam o sistema político. “O racismo estrutural impacta fortemente na diversidade racial no âmbito da representação política, tanto para homens como para mulheres negras.”
Cotas são necessárias, mas não bastam
Para Moritz, a política de cotas é fundamental, mas não suficiente para alterar o cenário. “A política de cotas para as mulheres é necessária, mas sozinha ela tem sido insuficiente e ineficaz para reverter a situação de desvantagem das mulheres na esfera da representação política.”
Segundo ela, somente a partir da eleição de 2010 as legendas passaram a cumprir a regra dos 30% de candidatas em suas listas para as eleições proporcionais. Mesmo assim, os partidos muitas vezes indicam mulheres com pouca competitividade e poucas possibilidades reais de eleição apenas para cumprir a exigência legal. “Além da adoção das cotas deve-se levar em consideração se ela é cumprida (ou não) e quais sanções estão previstas para o caso de descumprimento.”
O resultado desse conjunto de fatores é a permanência do Brasil entre os países com menor representação parlamentar feminina. Segundo o relatório da União Interparlamentar citado pela pesquisadora, o país ocupava a 139ª posição entre 183 parlamentos em janeiro de 2026.
Apesar das barreiras, Moritz ressalta que não é possível atribuir a baixa representação feminina à falta de disposição dos eleitores para votar em mulheres. “Cabe destacar que o eleitorado brasileiro vota em mulheres.”
Ela lembra que o Brasil já elegeu duas vezes uma mulher para a Presidência da República, Dilma Rousseff, e cita ainda candidatas que se destacaram nas urnas no Rio Grande do Sul, como Maria do Rosário, Manuela d’Ávila, Fernanda Melchionna, Luciana Genro e Silvana Covatti.
“A maioria das mulheres reeleitas deputadas federais em 2022 fez uma boa votação, entre 100 e 300 mil votos. O que geralmente acontece é a concentração de muitos votos em poucas candidatas.”


