Na pecuária brasileira, liderança é só o começo


Em 2025, o Brasil liderou o mercado mundial de carne bovina, com uma produção de 12,3 milhões de toneladas, colocando 3,5 milhões de toneladas em 177 países. Isso sem comprometer o consumo interno, já que 63,3% da carne abasteceu o mercado doméstico.
Para atingir esses patamares de produção, atravessamos um longo caminho. Nos últimos 30 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produtividade cresceu 183% e a área de pastagens diminuiu 18% (ponto para a sustentabilidade).
Já o abate de machos com mais de 36 meses passou de 70,3% para 10,7% (ponto para a produtividade). Nosso rebanho está apascentado em 159,8 milhões de hectares, em pastagens de mais de 2,5 milhões de estabelecimentos, e ainda deixa preservados 64% do território com vegetação nativa.
Contudo, chegar ao topo é mais fácil do que permanecer lá, e nossos desafios continuam. Ainda temos uma assimetria abismal de produtividade: São Paulo produz 327 quilos de carcaça por hectare, e o Amapá, 0,56 quilo, por exemplo.
E, claro, o mercado internacional impõe exigências cada vez maiores. A União Europeia, que desde 2019 vem desenvolvendo sua política “Green Deal” a fim de descarbonizar o bloco, tem estabelecido regras rígidas.
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A determinação de que a carne não seja oriunda de áreas desmatadas ou ilegais obrigou o Brasil a estabelecer o Plano Nacional de Identificação Bovina (PNIB), uma espécie de boi com CPF, cuja meta, ambiciosa, é atingir 100% do rebanho nacional até 2032.
O governo brasileiro está trabalhando na implementação do PNIB, e já ocorreram alguns avanços, resultantes de uma sinergia dos governos federal e estaduais com a iniciativa privada, mas a tarefa é longa.
A UE também anunciou que, em setembro deste ano, se o protocolo livre de antimicrobianos não estiver implantado, a carne brasileira não será aceita. Na prática, isso veta o uso de ionóforos, uma prática usual em nossos confinamentos.
Não se trata de uma condição imposta recentemente, o que revela uma lentidão de resposta do Brasil, possivelmente derivada de uma leitura equivocada de que as regras, ao final, não iriam se cumprir.
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É preciso ter em mente que a União Europeia não impõe regras a ninguém: como compradora, ela simplesmente determina o que quer. Quem quiser aderir, que o faça. Não que o bloco europeu seja expressivo em termos quantitativos, pois representa algo ao redor de 4% das nossas exportações, mas ele funciona como um cartão de visita internacional e sinaliza qualidade para todos os outros mercados – especialmente nosso principal comprador, a China, destino de 47,8% do nosso produto em 2025.
E por falar em China, temos novidades. Nosso maior comprador estabeleceu cotas com tarifas viáveis para seus principais parceiros, e, embora o Brasil tenha uma participação generosa, agora esse mercado tem limites.
Em 2026, até agosto, já deveremos atingir a cota com 12% de tarifa; acima disso, a taxa salta para 55%, o que já está se refletindo sobre o valor interno da arroba. É preciso ficar atento a esses movimentos do mercado e antecipar soluções para um cenário em que Europa e China não estejam plenamente incluídas.
*Luiz Josahkian é zootecnista, professor de melhoramento genético e superintendente técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ)
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