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'Nossa alimentação deve ser saudável para o planeta', diz cientista Rattan Lal



É difícil encontrar uma publicação científica sobre agricultura orgânica ou regenerativa que não cite Rattan Lal, cientista indiano radicado nos Estados Unidos.
Diretor do Centro Rattan Lal para Gestão e Sequestro de Carbono da Faculdade de Ciências Alimentares, Agrícolas e Ambientais da Universidade Estadual de Ohio (OSU), onde é professor, Lal reúne quase 182.000 citações acadêmicas, é autor de mais de 1.140 artigos em periódicos e orientou 430 pesquisadores, sendo globalmente reconhecido como um dos principais nomes da pesquisa sobre saúde do solo.
Em 2007, recebeu o Nobel da Paz como membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e, em 2020, o World Food Prize.
Em passagem pelo Brasil para participar do 10º Simpósio Internacional de Matéria Orgânica do Solo, organizado pelo Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo (CCarbon/USP), Lal conversou com a Globo Rural e não usou meias-palavras quando perguntado sobre qual é o melhor destino de áreas degradadas em processo de recuperação: para ele, devem ser devolvidas à natureza.
Ao longo de décadas de pesquisa, Lal se destacou por defender práticas de manejo que aumentam o teor de carbono no solo, contribuindo tanto para a produtividade quanto para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Globo Rural: Como a preservação do solo pode ajudar no combate às mudanças climáticas?
Rattan Lal: De todos os gases de efeito estufa emitidos pela atividade humana, 30% provêm do sistema alimentar. Desse total, 15% estão relacionados à produção agrícola. A agricultura é frequentemente apontada como um grande problema, e todos falam disso. No entanto, acredito que ela deveria ser parte da solução, não do problema.
Grande parte do ecossistema agrícola perdeu cerca de 30% do solo nas Américas, incluindo Brasil, Estados Unidos e Europa. Já na Ásia, onde a agricultura é praticada há cerca de 10.000 anos – como na China, Índia e Sudeste Asiático –, aproximadamente 75% do carbono orgânico original do solo foi consumido ao longo de 8.000 a 10.000 anos de cultivo.
Hoje sabemos como repor o carbono perdido no solo. Em algumas áreas degradadas, é possível plantar árvores e, com isso, melhorar a eficiência do uso de fertilizantes. O aquecimento global ainda pode ser mantido abaixo de 2°C. Isso é possível.
GR: O Brasil tem trabalhado em um programa para recuperar pastagens degradadas. Como você avalia esse plano?
Lal: O pasto degradado é muito comum na região amazônica onde a floresta foi removida para a implantação de pastagens. Com o sobrepastoreio e a ausência de reposição de resíduos orgânicos, o solo se degradou. Na ciência do solo, existe a chamada lei do retorno, que estabelece que tudo o que é retirado da terra deve ser reposto. Quando se extrai mais do que se devolve, como ocorre com a biomassa, o solo se degrada, e sua produtividade diminui.
A melhor abordagem é devolver à terra tudo o que dela foi retirado. Recentemente, essa reposição passou a ser feita com fertilizantes. Eles são úteis, mas não representam a melhor solução. A alternativa mais eficiente é a reciclagem da matéria orgânica. Ao recuperarmos áreas degradadas, devolvemos a terra à natureza, permitindo que as árvores cresçam.
Estima-se que utilizamos cerca de 5,2 bilhões de hectares para a agropecuária no mundo, dos quais 3,7 bilhões são destinados à pecuária. A pecuária é importante, mas será que precisamos de toda essa área? Temos cerca de 1,5 bilhão de hectares de terras cultiváveis, e em regiões da África e da Ásia a produtividade pode ser significativamente ampliada. Assim, dos cerca de 5 bilhões de hectares atualmente sob uso agrícola, mais de 2 bilhões poderiam ser devolvidos à natureza. Essa é a melhor solução.
No entanto, os agricultores só farão isso se forem compensados pela sociedade. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve o Programa de Reserva de Conservação (CRP), criado para lidar com a erosão na bacia do Rio Mississippi. Diante da alta sedimentação que dificultava a navegação, o governo passou a pagar agricultores para converter áreas altamente erodidas em vegetação permanente, como gramíneas e florestas, garantindo a eles a mesma renda que teriam com o cultivo de milho, soja ou trigo.
Cerca de 40 milhões de acres (pouco mais de 16 milhões de hectares) foram incluídos no programa. Esse é o tipo de iniciativa que precisamos adotar. No caso das pastagens degradadas, é necessário compensar os produtores e devolver essas áreas à natureza.
GR: Quando você fala em devolver à natureza, refere-se à recuperação florestal, e não ao uso agrícola dessas áreas, como tem sido proposto por parte do setor?
Lal: Sim. O Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, e eu visito o país desde 1975. Globalmente, produzimos cerca de 3,2 bilhões de toneladas de grãos – incluindo trigo, arroz, milho, soja, sorgo e painço –, mas cerca de 1 bilhão de toneladas são desperdiçadas. No caso de frutas frescas, como mamão e manga, mais de 60% da produção é perdida, especialmente em países do sul da Ásia.
Portanto, por que produzir mais para desperdiçar mais? Precisamos ser mais cuidadosos com o desperdício de alimentos. Cerca de 30% do que consumimos são grãos, e até mesmo autoridades nos Estados Unidos reconhecem perdas dessa ordem – embora eu acredite que o número real possa chegar a 40%. Isso ocorre tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento. O desperdício de alimentos é um problema grave. Devemos evitar desperdícios e adotar hábitos alimentares mais adequados e saudáveis.
GR: Há um discurso recorrente de que é necessário aumentar a produção para atender ao crescimento da população mundial…
Lal: Sei que no Brasil se consome muita carne, especialmente carne bovina, mas não é necessário consumi-la quatro vezes ao dia. Talvez duas ou três vezes por semana seja suficiente – e saudável. Ao mesmo tempo, é fundamental proteger a natureza. Nossa alimentação deve ser saudável não apenas para as pessoas, mas também para o planeta. Tudo o que consumimos deve contribuir para um planeta mais saudável, não mais degradado.
O problema está em nós, que não respeitamos a natureza. Em conflitos ao redor do mundo, seja na Ucrânia, na Ásia Ocidental ou em outras regiões, há sempre três elementos: as duas partes em confronto e a terra onde ocorre o conflito. Essa terceira parte costuma ser ignorada. O solo é contaminado, a água e o ar se tornam tóxicos. Mesmo após o fim de uma guerra, os impactos permanecem, comprometendo a qualidade dos alimentos no futuro. A guerra é, portanto, um crime contra a natureza.
“É necessário investir em educação e em políticas que recompensem agricultores que preservam o solo”
GR: Ao falar sobre recuperação de pastagens, muitos projetos no Brasil propõem o uso dessas áreas para lavouras. É possível conciliar produção e reflorestamento?
Lal: Acredito que o melhor caminho é devolver essas áreas à natureza. Não devemos ser excessivamente exploratórios, retirando tudo da terra.
Rattan Lal
Divulgação/CCARBON
GR: E qual é o papel dos sistemas agrícolas, incluindo a pecuária, na recuperação do solo?
Lal: O gado é muito importante e faz parte de sistemas integrados. A produção deve combinar lavouras, pecuária e árvores. Não se trata de cultivo contínuo de grãos, mas de integração. Esse equilíbrio é essencial. O foco não deve ser apenas a produção máxima. Há uma obsessão por altos rendimentos, que muitas vezes leva ao desperdício. Podemos aceitar uma redução de 10% a 15% na produção, desde que o meio ambiente não seja degradado.
GR: Como o senhor avalia o desempenho do Brasil nesse contexto?
Lal: O Brasil tem se saído bem. Junto com países como Argentina, Chile e Uruguai, é um dos principais exportadores de alimentos do mundo. No entanto, a questão ambiental ainda precisa avançar. Há degradação ambiental, apesar de o país contar com conhecimento técnico, cientistas qualificados e uma população consciente. Esses esforços deveriam ser recompensados. O desafio é promover uma agricultura ecologicamente correta.
GR: A agricultura pode ser considerada fundamental para a recuperação do solo?
Lal: Sem dúvida. A agricultura precisa ser parte da solução. Todos nós nos alimentamos diariamente, então ela não pode ser vista como algo negativo. É necessário investir em educação e em políticas que recompensem agricultores que preservam o solo. Se houver redução de produtividade, eles devem ser compensados.
Consumidores também podem contribuir, valorizando produtos provenientes de agricultura regenerativa, agroecologia ou sistemas de conservação, com menor uso de insumos químicos. Fertilizantes e pesticidas têm seu papel, mas devem ser utilizados com moderação. A diferença entre remédio e veneno está na dose. O mesmo vale para insumos agrícolas. Um solo saudável pode, inclusive, reduzir a necessidade de pesticidas, pois se torna naturalmente mais resistente a doenças.
GR: Qual é o principal desafio para mudar o cenário atual?
Lal: A mudança de mentalidade, tanto dos produtores quanto das políticas públicas. As políticas devem ser favoráveis à natureza, à agricultura e aos agricultores.
GR: Qual é o potencial do Brasil para ampliar o sequestro de carbono no solo?
Lal: O Brasil tem enorme potencial. Sua agricultura teve um crescimento extraordinário desde a década de 1960 e se tornou um exemplo global. Além de aprimorar seus próprios sistemas produtivos, o país pode contribuir com outras regiões, como a África Subsaariana. O Cerrado brasileiro, que visitei em 1975 e era praticamente improdutivo, hoje é altamente produtivo.
A África possui características semelhantes e pode se beneficiar de práticas como agricultura de conservação, manejo adequado de resíduos e sistemas eficientes de irrigação. Uma cooperação sul-sul pode transformar essa região em um importante polo de produção de alimentos.


Globo Rural

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