Notícia falsa sobre Nossa Senhora tem impacto menor que Dark Horse

A propagação da notícia falsa de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) vai revogar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, caso seja eleito presidente, colocou a campanha do parlamentar na defensiva em momento acirrado da disputa com o presidente Lula (PT), na reta final do primeiro turno.
O espraiamento das menções à fake news nas redes e meios de comunicação é, no entanto, muito inferior ao do vazamento do áudio em que o senador pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para custear o filme Dark Horse.
A circulação da fake news envolvendo a santa e o candidato perdeu fôlego progressivamente nas redes sociais ao longo do fim de semana, com o número de citações recuando mais de 50% neste domingo (27) na comparação com a última sexta-feira (25), no auge da crise.
O tema não ganhou maior tração nem depois de o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), ter anulado a decisão do ministro André Mendonça que proibia publicações nas redes sociais sobre o tema. As análises são das empresas de inteligência de dados Palver, Bites e Tunad.
Mesmo com um impacto menor do que o escândalo Dark Horse, a controvérsia sobre a padroeira teve relevância destacada nas análises de dados. A Palver ressaltou que a discussão alcançou o patamar de nível alto no TikTok, enquanto a consultoria Tunad registrou um salto de 359% nas buscas no Google na última sexta.
O episódio provocou uma mobilização imediata das campanhas na reta final do primeiro turno. Flávio Bolsonaro acionou a Justiça Eleitoral e publicou nove vídeos de desmentido.
Ao mesmo tempo, aliados de Lula —como a primeira-dama Janja, o vice Geraldo Alckmin (PSB) e os candidatos Fernando Haddad (PT) e Simone Tebet (PSB)— usaram o tema em publicações e atos públicos para acenar ao eleitorado católico.
A diferença entre as principais turbulências recentes a atingir a candidatura de Flávio fica clara na análise da consultoria Palver.
O instituto mede o número de menções por milhão de palavras publicadas. O pico do caso Dark Horse, em maio, é usado como o teto para comparar diferentes redes sociais, como X (antigo Twitter) e YouTube, e em meios tradicionais como as rádios.
No X, o vazamento do áudio de Flávio atingiu o limite de 6.330 menções por milhão de palavras. Já o boato sobre Nossa Senhora registrou 2.310 menções por milhão no seu ponto mais alto, na última sexta. Esse valor representa 36,5% do teto.
O tema foi dominante na rede na última sexta, mas ficou longe do recorde de desgaste do senador com o áudio em que ele pede dinheiro ao dono do Banco Master para financiar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A distância é ainda maior nos aplicativos de mensagem e de vídeo. O caso Dark Horse chegou a 87,6% do teto no WhatsApp, 75,7% no TikTok e 100% no YouTube. Nos casos do WhatsApp e Tik Tok, o teto foi estabelecido pelas citações ao julgamento do ministro Alexandre de Moraes no STF em 15 de setembro, pois o tema ainda supera as menções ao caso Dark Horse.
O boato sobre a santa teve alcance menor fora do X. No WhatsApp, atingiu 9,4% do teto. No TikTok, ficou em 14,6%. Na TV e no rádio, ficou na faixa “baixa”, com 2,1% e 2,3%.
O perfil político do X pode ter superdimensionado o tamanho da crise para a campanha, segundo Felipe Bailez, presidente da Palver. Ele diz que a rede é mais politizada do que as demais e, por isso, amplia debates que não chegam com a mesma força ao público de outras plataformas.
O alcance de público do X é também significativamente menor no Brasil quando comparado às plataformas líderes do país. A pesquisa indica que apenas 16% dos usuários de internet no Brasil acessam o antigo Twitter diariamente, o que coloca a rede na 10ª posição no ranking geral de aplicativos e redes sociais, segundo dados do Cetic.br, principal órgão responsável por produzir indicadores sobre o acesso à internet no Brasil.
Plataformas de massa como o Instagram e o YouTube registram 73% de acesso diário cada uma, enquanto o WhatsApp lidera isolado com 91%.
A crise envolvendo Nossa Senhora também perdeu fôlego rapidamente nas redes sociais, segundo dados da consultoria Bites. O volume de menções diárias despencou de 591 mil na sexta-feira (25) para 399 mil no sábado (26), chegando a 273 mil neste domingo (27). Para Manoel Fernandes, diretor da Bites, a desaceleração indica que o episódio não tem o mesmo potencial de dano do escândalo Dark Horse.
O esvaziamento do tema manteve-se constante mesmo após o ministro Flávio Dino ter derrubado a ordem de remoção de conteúdos expedida pelo TSE, registrando uma desaceleração contínua ao longo da tarde de domingo — de 33 mil posts às 14h para 20 mil às 17h.
Apesar do menor fluxo habitual de usuários na internet aos domingos, Fernandes avalia que o desgaste gerado pela polêmica entre Flávio Bolsonaro e os eleitores católicos deve se dissipar nos dias subsequentes.
Já a consultoria Tunad mediu as pesquisas no Google por “Nossa Senhora Aparecida” no Brasil entre 1º e 26 de setembro de 2026. Os números mostram que, até o dia 24, o interesse pelo tema mantinha uma linha de base estável, com média de 15 mil pesquisas diárias.
Na sexta-feira, quando a controvérsia chegou ao Tribunal Superior Eleitoral e gerou a ordem de remoção de conteúdos, o volume de buscas disparou para 69 mil em um único dia. O salto representou um crescimento de 358,7% sobre a média do período, registrando um tráfego 4,7 vezes superior ao de uma sexta-feira comum. Esses dados de intenção de busca indicam que a fake news provocou uma forte corrida por informações sobre o tema.
Folha de São Paulo



