Nova fase da Operação Rejeito mostra envolvimento de aliados de Zema com espionagem ilegal

A segunda fase da Operação Rejeito, que investiga casos de fraude, lavagem de dinheiro e corrupção na mineração em Minas Gerais, revelou o envolvimento de empresários do setor com um esquema de espionagem ilegal. A nova etapa da investigação da Polícia Federal (PF), intitulada “Contrassabotagem”, cumpriu, na quinta-feira (18), mandados de busca, apreensão e prisão preventiva, em Belo Horizonte e em Ibirité, município da região metropolitana da capital mineira.
Os levantamentos da PF indicam que Alan Cavalcante do Nascimento, proprietário da Fleurs Global Mineração, e sua esposa, Tayná Vitória Cerqueira Gouveia, eram articuladores de uma organização criminosa que monitorava clandestinamente juízes e outras autoridades, com objetivo de influenciar em investigações e processos judiciais relacionados ao setor. Os dois foram presos preventivamente.
O pedido feito pela PF à Justiça Federal para deflagrar a nova fase da operação possui mais de 40 páginas e demonstra que o grupo conseguiu obter ilegalmente dados protegidos por sigilo bancário e telefônico, a partir da contratação de uma empresa clandestina que utilizava métodos como vigilância presencial, dispositivos de rastreamento e registros fotográficos.
A investigação também identificou a existência de um grupo na plataforma WhastApp, chamado “Três Amigos da Mineração”, do qual eram membros, além de Alan Cavalcante, João Alberto Paixão Lages e Helder Adriano de Freitas, vinculados à empresa Minerar Participações S.A..
O espaço digital era utilizado pelos empresários para trocar informações sobre a espionagem ilegal. A Polícia Federal acessou as conversas após extraí-las do celular de um dos sócios do dono da Fleurs. A PF também encontrou uma planilha com dados sobre o mapeamento da rotina política e pessoal de autoridades da Justiça e do Ministério Público que atuam no enfrentamento a crimes ambientais.
De acordo com o relatório da PF, os dados já obtidos indicam que a prática do grupo criminoso tinha como propósito garantir o “controle estratégico” e a “antecipação de possíveis reações institucionais adversas às atividades do grupo”. Também existe a suspeita de que os empresários tenham tentado subornar agentes públicos para obter informações restritas.
Para Wallace Alves de Oliveira, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do Meio Ambiente no Estado de Minas Gerais (Sindsema), as novas informações reveladas pela operação são graves e demonstram a “sofisticação da organização criminosa”.
“Também expõe a insegurança enfrentada pelos trabalhadores(as) do meio ambiente em Minas Gerais. É gravíssimo constatar que agentes criminosos se organizaram para monitorar e assediar pessoas que consideram opositores, sobretudo porque o Brasil está entre os países que mais matam ambientalistas e defensores de direitos humanos”, avalia.
Ele também destaca que é comum, entre os trabalhadores do meio ambiente de Minas Gerais, relatos de assédio, abuso e ameaças. “Já ouvimos relatos sobre pessoas que entregaram seus cargos após receber ameaças e de servidores que tinham a impressão de estarem sendo seguidos. Faltam provas, mas sobra o medo. As últimas ocorrências demonstram que nunca foi uma simples paranoia”, continua.
Relação com o governo Zema
A primeira fase da Operação Rejeito expediu, no dia 17 de setembro do ano passado, 79 mandados de busca e apreensão, determinou 22 prisões preventivas, incluindo a de Alan Cavalcante, e bloqueou R$ 1,5 bilhão em bens de empresas, empresários e servidores públicos ligados à mineração.
Além de explicitar o envolvimento de empresários ligados ao ramo da mineração com a corrupção, as investigações da PF também apontaram para a presença dessa prática no Estado, em especial no governo de Minas Gerais, ao longo das gestões de Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD).
A operação de 2025 resultou na prisão de servidores e na exoneração de diretores de órgãos ambientais e de patrimônio do estado, entre eles Rodrigo Franco, que era presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam). Segundo a apuração da Polícia Federal, esses agentes públicos atuavam para facilitar a concessão de licenças para mineração em áreas protegidas, como a Serra do Curral, na capital mineira.
“O governo Zema introjetou nas instituições mineiras uma ideologia fanática segundo a qual o dito ‘setor produtivo’ é sempre honesto, competente, e bem intencionado. Essa narrativa serve como base para o apagamento dos limites entre o público e o privado, facilitando a captura da coisa pública pelos interesses privados”, afirma Oliveira, ao analisar a relação das últimas gestões do Executivo mineiro com as empresas de mineração.
O presidente do Sindsema também destaca que parte dos cargos de confiança do governo estadual foram inclusive indicados pelo setor minerário.
“O Conselho de Políticas Ambientais é composto unicamente por essas entidades há anos. Após oito anos de governo com esse modus operandi, os agentes do setor produtivo estão mais entremeados nas nossas instituições do que jamais estiveram”, chama a atenção.
Serra do Curral no centro da disputa
Uma das principais vítimas do esquema foi a Serra do Curral, conhecida como cartão-postal de Belo Horizonte. Além de patrimônio histórico e cultural da capital de Minas Gerais, a área é também essencial para o abastecimento hídrico das cidades da região metropolitana de BH.
Mesmo com toda a relevância da serra, a Operação Rejeito demonstrou que houve fraudes na concessão de diversas licenças para mineração no território, com o pagamento de suborno a agentes públicos e servidores da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Minas Gerais (Semad). Entre as mineradoras citadas nas investigações aparece com destaque a Fleurs Global, de Alan Cavalcante, por envolvimento em fraudes documentais.
O grupo também foi acusado de realizar descarte ilegal de rejeitos na Serra do Curral, além de operar irregularmente na região, gerando danos socioambientais. Até 2024, a empresa já colecionava 17 acusações de crime ambiental e, mesmo assim, recebeu aval do governo Zema para atuar na área, por meio de Termo de Ajustamento de Conduta (TACs).
Após a primeira fase da operação da PF, a Justiça suspendeu a atuação da mineradora na serra. A Fleurs Global é o principal empreendimento de Alan Cavalcante, empresário de Alagoas que enriqueceu atuando no setor minerário em Minas Gerais. Segundo apuração da Revista Piauí, até 2023, ele controlava 38 empresas e movimentava cerca de R$ 4 bilhões.
Novos escândalos devem surgir
Para Wallace Alves de Oliveira, a publicização do envolvimento de Cavalcante e de seus parceiros com a espionagem ilegal é mais um capítulo desse enredo que, na avaliação dele, ainda não deve ter chegado ao fim.
“Certamente ainda há conteúdo que já foi investigado, mas ainda não se tornou público. É possível que agentes que emitiram atos autorizativos para esse conjunto de empreendimentos ainda precisem explicar certas decisões administrativas peculiares”, conclui o presidente do Sindsema.
Outro lado
O Brasil de Fato MG entrou em contato com o governo de Minas para comentar sobre as denúncias, mas não obteve respostas. O texto será atualizado, se houver posicionamentos.



