O canto da sereia: o esforço dos presidenciáveis para tentar seduzir o setor produtivo

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Foi um decisivo ponto de virada. Em junho de 2002, Lula se preparava para disputar a Presidência pela quarta vez. Para evitar um novo fracasso, os estrategistas da campanha se convenceram ser preciso superar a histórica desconfiança do setor produtivo em relação ao petista, o que só seria possível se ele assumisse o compromisso público com a manutenção dos pilares da política econômica. Na época, o Brasil ainda experimentava as conquistas do Plano Real, a inflação estava controlada e foram criados mecanismos rígidos de controle de gastos. Lula divulgou então um documento — a “Carta ao Povo Brasileiro”, rabiscada por Antonio Palloci —, garantindo que não haveria ruptura. Em outras palavras, não faria nada daquilo que sempre pregou. Deu certo. Ele foi eleito, reeleito em 2006 e ainda fez a sucessora, Dilma Rousseff, que desviaria o governo da rota prometida pelo antecessor e acabou apeada do cargo. Para os partidos, seduzir empresários, industriais e banqueiros é essencial para viabilizar qualquer projeto de poder — e um passo em falso nesse terreno pode ser fatal.
Há duas semanas, Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo do PT, defendeu, em conversas com interlocutores do mercado financeiro, o controle de capitais, o fortalecimento de bancos públicos e o aumento do salário mínimo como porta de saída do Bolsa Família, relativizando a relevância do ajuste fiscal. Provocou barulho e incômodo. Uma parte respeitável da engrenagem econômica prevê colapso, a partir de 2027, se não houver um controle de gastos das contas públicas.
As propostas heterodoxas e estatizantes explanadas por Gabrielli correram como rastilho de pólvora. Antes que a bomba estourasse, o Palácio do Planalto pôs no circuito o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que apressou-se a disparar telefonemas desautorizando o colega petista e se apresentando como o único porta-voz da pauta econômica do presidente. Ao contrário de Gabrielli, Durigan prometeu medidas de controle dos gastos imediatamente depois das eleições — se, é claro, Lula vencer.
Os empresários ficaram mais calmos com a garantia do ministro, mas não plenamente convencidos. Foi preciso chamar reforço. Ex-chefe de Durigan em Brasília, Fernando Haddad foi escalado por Lula para disputar o governo de São Paulo. Em uma dura corrida ladeira acima contra a reeleição de Tarcísio de Freitas, o ex-ministro cumpre duas missões — no pleito estadual, peleja para ajudar Lula a obter a melhor votação possível no maior colégio eleitoral do país, enquanto, nos bastidores, lança mão do trânsito conquistado no período em que comandou o Ministério da Fazenda para tranquilizar um mercado atemorizado com o risco de crise fiscal. Haddad mantém encontros quinzenais com o presidente para traçar estratégias e ajustar o programa petista para a economia. Em conversas reservadas, o próprio Lula tem falado da necessidade de corrigir a gastança de seu governo, ponderando que ele é o único político capaz de impor as medidas impopulares que serão necessárias.

Responsável pela pauta econômica do programa de Flávio Bolsonaro, a ex-presidente da Caixa Econômica Daniella Marques aproveitou a má impressão deixada por Gabrielli em alguns setores para contrapor o PT com a plataforma do candidato do PL. Segundo um executivo que participou de uma dessas reuniões, ela prometeu, em caso de vitória, reduzir 200 bilhões de reais em gastos do governo e vender ativos “não estratégicos” da União para abater a dívida pública. Também garantiu que o presidenciável não fará o ajuste fiscal “nas costas dos mais pobres”, poupando os benefícios sociais. Quem perguntou sobre a viabilidade política da plataforma ouviu que o pacote de projetos que viabilizará os ajustes será negociado e aprovado pela bancada do partido, a maior do Congresso, ainda no período de transição de governo.
Ainda estacionado nas pesquisas, o ex-governador Ronaldo Caiado foi recentemente à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Tanto lá como em almoços com agentes do mercado financeiro, o candidato do PSD tem buscado se posicionar como uma alternativa experiente a Flávio Bolsonaro, enfraquecido por suspeitas sobre sua proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Ele também fala em reduzir o tamanho do Estado e controlar os gastos. O histórico de participação da Fiesp no debate político do país, aliás, vem de longa data. Em 1989, quando Caiado e Lula disputavam sua primeira eleição presidencial, o então comandante da entidade declarou que, se o petista vencesse aquela disputa, 800 000 empresários brasileiros deixariam o país para investir em outros lugares. Deu Fernando Collor. Em 2015 e 2016, o edifício-sede da Fiesp foi um dos pontos de concentração das manifestações populares pedindo o impeachment de Dilma.

Em outra vertente, mas com o mesmo propósito, as campanhas de Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) têm usado o histórico de descumprimento das promessas aos representantes do PIB brasileiro como método de sedução — o “canto da sereia”, na imagem inaugurada pela Odisseia, de Homero, de atração irresistível. Secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade no governo Bolsonaro e agora responsável pela plataforma econômica do ex-governador mineiro, Carlos da Costa tem defendido privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica no primeiro ano de governo e vender ao menos um quarto dos imóveis da União, além de enxugar as políticas sociais “sem eficácia”. Detentor da mesma função na campanha do Missão, o deputado Kim Kataguiri fala em desindexar benefícios sociais do salário mínimo e desvincular as emendas parlamentares da receita, além de cortar privilégios tributários e supersalários.

Antes de 2015, candidatos a cargos eletivos, particularmente à Presidência da República, promoviam peregrinações entre as entidades que representavam empresários, banqueiros e industriais. O objetivo número 1 era arrecadar dinheiro para a campanha. Com a proibição das doações de empresas, as conversas a portas fechadas diminuíram, mas não deixaram de ser decisivas. Só que o objetivo principal agora é angariar apoio. “Estamos chegando às eleições com a maior taxa de juros real do mundo. Esquerda ou direita, os candidatos precisam transmitir credibilidade de como vai ser a condução da política econômica”, diz Renato Breia, sócio-fundador da Nord Investimentos. Os presidenciáveis sabem, por experiências recentes, que caminhar alinhado com quem produz facilita a governabilidade. E sabem, principalmente, do risco político de assumir compromissos e abandoná-los depois das eleições.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006
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