O dia em que Lito me mostrou um avião que ninguém via

“Ô, repórter da Folha, vem aqui para eu lhe mostrar uma coisa, isso dá uma matéria que ninguém fez.” Era um jatinho abandonado num canto qualquer entre as pistas de Guarulhos.
Lito Sousa, que morreu nesta quinta (1º), aos 59 anos, era convidado especial de um spotter day (encontro de fotógrafos de aviões) promovido pelo aeroporto internacional de Guarulhos para comemorar seus 40 anos, em 22 de fevereiro de 2025, um dos tantos de que tenho participado nos últimos anos.
O conheci na fila de credenciamento, ele estava imediatamente à minha frente. Me apresentei como repórter da Folha e pedi seu contato —é sempre bom ter o telefone de especialista em aviação na agenda. Frio, me passou o número da assessoria de imprensa. Senti um ar de arrogância dessas novas estrelas da internet.
Mas o cara não esqueceu do aperto de mão. De dentro do ônibus que levou uma centena de pessoas ao local onde passariam o dia fotografando o sobe e desce de aviões, ele me chamou de canto quando viu o tal jatinho e contou que aquela aeronave tinha feito um pouso de emergência anos antes com o então senador Aécio Neves a bordo —e que nunca mais saiu do aeroporto.
Foram oito meses de negociações para que GRU Airport, a concessionária que toma conta do aeroporto, e a Polícia Federal nos deixassem chegar perto do Hawker 800 —eu e o repórter fotográfico Rubens Cavallari, que também estava naquele spotter day. A reportagem foi publicada em 10 de dezembro do ano passado. Não sei se Lito leu.
Num recente evento do Comando de Aviação do Exército em Taubaté (SP), Eduardo Gorio, dono do canal Golf Oscar Romeo, outro fenômeno na internet, com câmeras espalhadas para filmar aeroportos ao vivo, contou que um de seus vídeos decolou de forma impressionante, apenas por ser citado pelo outro youtuber.
Não dá para questionar uma pessoa que tem quase 5 milhões de seguidores apenas no Instagram. Lito falava de um jeito fácil sobre aviação. Era adorado e às vezes criticado.
Ele tinha suas polêmicas. Em 2024, questionou o corte de uma entrevista que deu para a TV Globo, sobre o acidente com um avião da Voepass, que matou 62 pessoas em 2024 no município de Vinhedo.
Pouco antes do anúncio de sua doença, provocou polêmica ao questionar em vídeo a antecipação pela coluna Mônica Bergamo do relatório do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) sobre esse mesmo acidente.
Chegou a ser criticado na própria publicação em seu canal no Instagram por supostamente reclamar de furo tomado. A maioria o defendeu.
Mas sua doença chocou o meio. Como mostrou a Folha, Lito conseguiu unir os três presidentes das principais companhias aéreas brasileiras em um vídeo em sua homenagem.
Grupos de spotters no WhatsApp estavam abalados no início da noite desta quinta-feira (1º), quando em um vídeo, Mila Seidl anunciou a morte do marido, antes da confirmação oficial.
Renan Kaique da Silva Santos, 27, publicou uma foto de um livro sobre o Airbus A380, o maior avião de passageiros do mundo, que levou autografado.
“Em 2021, ele fez uma festa para comemorar os 2 milhões de inscritos e eu tinha comprado os livros dele”, afirma. “Fiquei emocionado só de estar frente a frente com ele e com a Mila. Mostrei os livros e pedi para autografarem.”
Para o servidor público Fernando Augusto García Júnior, 53, um dos líderes do grupo Brazilian Spotters, morreu uma referência. “O Lito é o professor que todo spotter quer ter por perto, que faz aquele comentário sobre avião, conta aquela história que emociona”, diz.
O adolescente Carlos Eduardo Gonçalves Vaz, o Cadu “Spotter Vaz”, 16, lembra de ter se aproximado de Lito Souza para uma foto durante o Domingo Aéreo de São Paulo em 2022. Conta ter ouvido algo como “você eu já conheço, está em quase todos os eventos”.
“Só o fato de ter sido reconhecido por ele no meio de tanta gente tornou aquele um dos momentos mais especiais da minha vida. É uma lembrança que vou levar para sempre”, diz o garoto fotógrafo, já tão apaixonado por aviação quanto o ídolo.
Lito foi muito rápido, disseram os entusiastas pela aviação nesses grupos. Mas os aviões e suas histórias ficam. Como aquele jatinho do aeroporto de Guarulhos, que está lá até hoje.
Informação
Folha de São Paulo



