Paternidade ativa pode fazer parte de novo modelo de masculinidade, diz autora de ‘O Cérebro do Pai’

Em 2024, um estudo foi publicado na revista Nature, referência nas ciências biológicas, com um raro mapeamento. Os cientistas encabeçados por Laura Pritschet acompanharam uma mulher antes, durante e dois anos depois da gestação. Esse processo incluiu mais de 20 ressonâncias magnéticas num estudo que indicou os impactos da gravidez no cérebro das mulheres.
As conclusões do estudo foram que a gestação de fato muda a composição cerebral das mulheres, com uma poda sináptica que afina as habilidades de cuidado. O volume da massa cinzenta pode diminuir cerca de 4%. A mudança coincide com aumentos nos níveis de estradiol e progesterona.
Os estudos sobre as mudanças fisiológicas da maternidade são importantes, mas, para a neurocientista americana Darby Saxbe, não contam a história completa. É por isso que, nas últimas décadas, ela se debruça sobre o outro lado dessa equação: os pais.
Professora de psicologia da University of Southern California, a USC, ela procurou entender se os homens também sofrem mudanças neurológicas com a paternidade. Sem que uma gestação dispare uma mudança hormonal, a hipótese de Saxbe é que o cuidado na prática é o que transforma o cérebro dos homens.
As décadas de pesquisa no tema deram origem ao livro “O Cérebro do Pai”, que chega ao Brasil pela HarperCollins em setembro.
Saxbe é uma defensora da ideia de que a paternidade, diferentemente da maternidade, é construída de uma forma mais social do que física. “Alguns homens causam uma gravidez e depois nunca mais veem a mãe, e, portanto, nunca chegam nem a conhecer o próprio bebê. Apenas causar uma gravidez não seria suficiente para mudar hormônios ou o cérebro”, diz em entrevista por videoconferência à Folha.
A neurocientista diz acreditar que, num cenário de ressurgimento da ideia de papéis tradicionais de gênero, a paternidade pode oferecer um modelo de masculinidade mais saudável e interessante para os homens.
Fiquei bastante curiosa para entender melhor por que a senhora acredita que a ciência ignorou a paternidade por tanto tempo enquanto dedicou muito tempo e recursos ao estudo da maternidade?
Isso vai na contramão do que sabemos sobre as ciências biomédicas, que colocam o foco em corpos e experiências masculinas, porque muitos cientistas foram homens. Acho que isso refletiu o entendimento cultural de que o cuidado infantil é, principalmente, trabalho feminino.
Nas culturas ocidentalizadas e industrializadas, o trabalho foi feito por cientistas homens que tinham esposas donas de casa que faziam a maior parte dos cuidados. Essa suposição acaba sendo incorporada à pesquisa. Só depois que as mulheres começaram a fazer algumas dessas perguntas é que esse ponto cego em relação à paternidade foi desafiado.
E tanto mulheres que talvez tenham amigos ou parceiros mais envolvidos na criação dos filhos, quanto homens que são eles mesmos pais envolvidos, estiveram à frente desse novo campo de pesquisa.
E o que a senhora acha que mudou para direcionar o foco ao estudo da paternidade?
Parte disso é que agora temos ferramentas melhores para olhar dentro do cérebro e para os hormônios. Isso impulsionou muito o campo de pesquisa do cérebro parental de modo geral. Mas acho que também tem a ver com o fato de que o papel dos pais mudou na sociedade.
Então sabemos que o envolvimento dos homens no cuidado infantil diário e prático aumentou dramaticamente na segunda metade do século passado. E parte disso foi influenciada pela entrada das mulheres no mercado de trabalho remunerado. Parece que a pesquisa às vezes fica atrás da cultura, mas finalmente isso é refletido na pesquisa.
Sabemos há um tempo que a gravidez e o cuidado mudam significativamente o cérebro das mulheres e que os hormônios têm um papel importante nisso tudo. No caso dos pais, existe a possibilidade de que o próprio ato de cuidar seja o principal fator de mudança?
Sim, acho que é uma bela ilustração da plasticidade dependente da experiência: à medida que os homens passam mais tempo com seus bebês vemos uma mudança mais profunda. O que nos mostra que é essa prática, esse tempo e esse investimento que estão sendo refletidos no cérebro. E vemos em nossos estudos que o tempo de cuidado dos pais e suas motivações para cuidar são preditores da magnitude da mudança em seus cérebros.
Sabemos que o tamanho de partes específicas do cérebro das mães muda bastante. O que é diferente entre as mudanças no cérebro das mães e no cérebro dos pais?
Existem algumas mudanças semelhantes, mas nos pais elas são de menor magnitude, mais variáveis e mais sutis. O cérebro perde um pouco de volume de massa cinzenta. E, com isso, ele fica podado de uma forma que ajuda a funcionar de modo mais eficiente. E é isso que está acontecendo tanto no cérebro da mãe quanto no cérebro do pai. A direção da mudança é a mesma, é uma perda de volume.
Tanto em mães quanto em pais, vemos grandes mudanças no que chamamos de rede de mentalização, que nos ajuda a imaginar as motivações das outras pessoas. Também vemos mudanças na rede visual, o que faz sentido porque estamos atentos às expressões faciais e gestos do nosso bebê. O que é um pouco diferente é que, nas mães, também vemos mudanças no subcórtex do cérebro, que é a parte do cérebro mais moldada por hormônios e que se considera que impulsiona sensações viscerais, como medo e recompensa. Não vimos mudanças nessa parte do cérebro dos pais.
E, nas mães, as mudanças em todo o cérebro foram tão profundas que se você colocar imagens de cérebros de mulheres com e sem filhos num mecanismo de inteligência artificial, ele poderia identificar facilmente as mães.
E, nos pais, o cérebro de alguns encolheu um pouco, o volume de outros aumentou um pouco. Isso está muito mais ligado ao tempo e à experiência deles na paternidade.
As mudanças acontecem em todos os pais ou só naqueles que estão ativamente envolvidos no cuidado dos filhos?
Essa é uma das coisas que é um pouco única para os pais. Alguns homens causam uma gravidez e depois nunca mais veem a mãe. Portanto, nunca chegam nem a conhecer o próprio bebê. Apenas causar uma gravidez não seria suficiente para mudar hormônios ou o cérebro do homem. Não é apenas se você é o pai biológico, é se você está participando desse cuidado intensivo e repetitivo que os bebês exigem.
Sabemos que os hormônios da gestação e todas as mudanças no corpo nas mulheres têm um grande impacto na percepção da maternidade. Mas fiquei curiosa se e como o processo da gravidez e toda a tecnologia que agora temos, por exemplo, o ultrassom em 3D, pode afetar a formação de um pai.
Defendo no livro que as mães sentem que conheceram o bebê ao longo de um período de vários meses na gestação, enquanto o pai está realmente apenas conhecendo o bebê pela primeira vez quando o parto acontece. Ele corre atrás para se atualizar, mas pode sentir que está atrasado. Isso cria alguns desafios tanto para as mães quanto para os pais.
Mas existe mais tecnologia que permite que os pais se sintam conectados. Eu falo no livro sobre um estudo de ultrassom em 3D em que fizeram pais praticarem interação com o bebê antes do nascimento, e descobriram que isso aumentou a sensibilidade paterna. Eu realmente acho que existe um limite de quanto se pode conseguir só de ver uma fotografia ou até mesmo um vídeo.
No fundo, somos mamíferos, respondemos ao toque e ao cheiro. Na gravidez, a mãe sente o bebê chutar. Esse tipo de experiência corporificada é mais difícil de conseguir para os homens, mesmo com muita tecnologia.
Mas com certeza a cultura, a tecnologia, as narrativas e os pais compartilhando experiências, e os pais estarem conectados com suas parceiras, tudo isso ajuda bastante.
A senhora também fala um pouco no livro sobre depressão pós-parto e como ela também pode afetar os homens. Sinto que existe um certo tabu em relação a esse assunto. A senhora acha que a paternidade é um fator de risco para a saúde mental dos homens?
Isso tem sido controverso. Houve uma reação contrária vinda das mães, o que para mim é bem compreensível, porque elas estão dizendo: lutamos tanto para defender a saúde mental materna, e ela foi tão ignorada por tanto tempo. Os médicos não nos levaram a sério. Finalmente temos esse reconhecimento, e agora todos esses homens estão vindo reclamar das experiências deles.
Eu entendo essa reação, mas realmente acho que existem muitos fatores de risco compartilhados em torno da transição para a paternidade/maternidade, o que significa que os desafios não são exclusivos das mães.
Com certeza as mães estão passando por uma experiência hormonal e biológica diferente, mas, muitas das partes que podem estar ligadas à depressão pós-parto, como se preocupar com as finanças ou com a moradia, ou com o papel social e sentir que sua identidade está mudando, perder sono e estar exausto pelas demandas do cuidado, são compartilhadas.
Se os pais estão envolvidos ativamente como cuidadores, eles vão ter todos os mesmos sentimentos e experiências. Existem esses fatores de risco. Para responder à sua pergunta de forma mais ampla, eu diria que nem sempre a paternidade é fator de risco para depressão.
A paternidade pode ser benéfica para a saúde mental dos homens. Os homens também podem ganhar um senso maior de propósito e conexão. E tudo isso é protetor para a saúde mental.
Voltando à ideia do tabu social em torno disso, a senhora acha que parte dessa reação pode ter algo a ver com o fato de que a paternidade e o cuidado estão distantes dessa ideia de masculinidade que temos nas sociedades ocidentais?
É interessante porque, de certa forma, os homens estão participando muito mais do cuidado infantil diário, e, por outro lado, temos esse ressurgimento de papéis de gênero neotradicionais. Nos Estados Unidos, o governo Trump tem essa noção de masculinidade. Por isso acho que pode ser desafiador para homens que talvez se sintam desconfortáveis em assumir um papel de cuidador principal, confortar um bebê, tirar um tempo do trabalho para se dedicar à criação dos filhos.
Tudo isso pode desafiar nossas suposições sobre o que significa ser másculo. Acho que temos essa estrutura cultural de que ser másculo é ser forte, nunca admitir vulnerabilidade, ser durão, ser feroz, ser agressivo, ser um provedor muito bem-sucedido que ganha muito dinheiro. Essas coisas podem entrar em conflito com a noção de alguém cuja prioridade é cuidar de crianças pequenas.
Eu argumento no livro que existe uma versão positiva de masculinidade que é realmente sobre proteger, proteger os vulneráveis, cuidar dos jovens, ensinar, liderar, como um líder comunitário. Existe a necessidade de um reenquadramento para ajudar os homens a sentir que isso pode ser congruente com os ideais de masculinidade deles.
A paternidade pode potencialmente reduzir os níveis de testosterona. E esse é um hormônio muito fortemente associado a essa ideia de masculinidade agressiva que está tendo esse retorno estranho.
Existe um verdadeiro fascínio pela testosterona agora. E existe esse entendimento simplificado de que testosterona é igual à masculinidade. Na verdade, os homens têm níveis variados de testosterona que deveriam estar se adaptando e se ajustando aos seus diferentes objetivos ao longo da vida. Você precisa de testosterona alta em certos contextos, mas não quer manter uma testosterona muito alta ao longo de toda a sua vida. Isso pode comprometer seu humor, seu funcionamento imunológico, seu funcionamento cardíaco. Ironicamente, também pode diminuir sua contagem de espermatozoides.
Esse fascínio pela testosterona reflete talvez um entendimento precário sobre hormônios. Esse é um hormônio imperfeitamente correlacionado com o comportamento. Então não é como se fosse igual à agressão, mas pode impulsionar comportamentos mais agressivos em certas situações.
No livro, a senhora menciona a importância da licença-paternidade. A senhora acha que, para um homem, mergulhar na paternidade pode ser uma forma de construir uma visão mais saudável de masculinidade?
Eu realmente acho que um homem pode ter muito poder e trazer muito valor para o mundo por meio do seu papel paterno. No livro, falo um pouco sobre as estruturas que temos em torno da política, da religião e da cultura, de que a ideia do papel do pai é muito importante ao longo da nossa história cultural.
O argumento que estou tentando fazer é que, quando os pais estão envolvidos no cuidado, isso beneficia as crianças, pode beneficiar as mães, e também pode ser benéfico para os próprios homens. Quando você olha para o senso de propósito deles, quando você olha para o senso de integração social deles. Se você perguntar aos homens: Quais são as coisas mais importantes na sua vida? Com o que vocês se importam mais? Onde vocês sentem que têm um senso de legado? Frequentemente eles vão falar sobre seus relacionamentos e vão falar sobre seus filhos.
Acho que podemos realmente celebrar isso pensando em como investir em políticas que realmente apoiem os homens a se posicionarem como pais. Vejo nisso uma posição muito pró-masculina, mas pró-masculina de uma forma que permita aos homens talvez ter uma vida plena, rica e mais complexa.
Informação
Folha de São Paulo



