Protecionismo até no futebol?

Três dias após a eliminação do Brasil na Copa, surgiu no Congresso um projeto de lei que proibiria a convocação de jogadores vinculados a clubes estrangeiros. Se a regra tivesse valido nesta Copa, 19 dos 26 convocados ficariam de fora; a comissão técnica também teria de ser composta por brasileiros com vínculo profissional no país. A justificativa promete fortalecer o campeonato, elevar as receitas e incentivar a formação de talentos. Diante de um problema real, recorre-se à resposta mais familiar: limitar as escolhas e torcer para dar certo.
Para produzir os resultados prometidos, a proposta depende de uma premissa: que a possibilidade de defender a Seleção compense salários e oportunidades melhores no exterior, mantendo mais jogadores no país. Na medida em que a saída reduz o tempo em que o público acompanha seus principais talentos, enquanto a distância financeira para as grandes ligas dificulta retê-los, a preocupação que motiva a proposta é compreensível.
Contudo, simplesmente manter jogadores no Brasil não significa que se tornarão melhores. Afinal, a qualidade em campo depende da infraestrutura, da capacidade dos técnicos, dos métodos de treinamento e, sobretudo, do nível dos companheiros e adversários enfrentados. Sem alterar esses fatores, a regra pode manter contratos no Brasil e, ao mesmo tempo, limitar a evolução dos atletas.
O futebol, porém, tem uma peculiaridade em relação a outros mercados, afinal, o jogador pode competir no exterior sem deixar de defender seu país na Copa. Com a nova regra, teria de escolher entre salários mais altos e desenvolvimento nas ligas mais competitivas, abrindo mão da Seleção, ou permanecer no Brasil ganhando menos para continuar convocável.
Se escolhesse sair, o país perderia justamente parte dos brasileiros mais expostos aos ambientes capazes de aprimorar seu talento. Ao comparar a evolução de 119 seleções entre 1994 e 2010, um estudo encontrou que o aumento da presença de jogadores em clubes estrangeiros esteve associado a um desempenho melhor das seleções de origem. Um aumento de dez pontos percentuais nessa medida correspondia, em média, a uma melhora de cerca de cinco posições no ranking da Fifa. O efeito era maior nos países com clubes domésticos menos competitivos, onde a experiência adquirida tende a fazer mais diferença.
A abertura também não necessariamente enfraquece a formação local; pode, inclusive, mudar seus incentivos. Outro estudo analisou a decisão Bosman, que em 1995 eliminou as taxas de transferência para jogadores sem contrato e as quotas aplicadas a atletas de outros países da União Europeia. Os autores desenvolveram um modelo em que a maior disputa por talentos eleva o retorno dos clubes que os descobrem, desenvolvem e exportam. A melhora posterior das seleções sub-16 de países europeus fora da elite é compatível com esse mecanismo, já que esses jogadores haviam recebido quase toda a sua formação no país de origem.
Nenhuma dessas evidências permite afirmar que a migração, sozinha, melhora o desempenho das seleções. Mas elas apontam em direção contrária à aposta do projeto: permitir que os atletas joguem em ambientes mais competitivos pode aprimorá-los. A justificativa da proposta, por sua vez, não explica como impedir convocações elevaria receitas ou fortaleceria campeonatos; fica tudo a cargo da fé no protecionismo.
Portanto, se o objetivo é fortalecer o futebol brasileiro, deveria ser proposta uma política focada em tornar o ambiente doméstico mais competitivo, rentável, capaz de formar e atrair talento. Calendário racional, regras que premiem a boa gestão, centros de formação melhores e técnicos mais qualificados ajudariam a reter brasileiros e trazer profissionais de outros países que elevassem o nível da competição. E assim, fazer do Brasil um mercado em que os melhores queiram trabalhar, não usar a Seleção para compensar tudo o que o futebol doméstico ainda não oferece.
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Folha de São Paulo



