Qualidade da alimentação infantil é melhor que variedade – 17/07/2026 – Equilíbrio

Quanto maior a variedade de alimentos que uma criança aceita no prato, mais saudável será sua alimentação. Essa é uma crença comum entre pais que procuram a ajuda de especialistas porque seus filhos comem apenas uma quantidade limitada de alimentos. Mas será que essa afirmação corresponde à realidade?
Pesquisadores do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda), do Instituto Pensi, analisaram o repertório alimentar de 237 crianças e adolescentes com dificuldades alimentares.
Os resultados mostram que a relação entre variedade e qualidade da dieta é mais complexa do que normalmente se imagina. O estudo foi publicado na revista Recent Progress in Nutrition (Lidsen Publishing).
A variedade da dieta faz parte de um processo de aprendizagem que começa já na fase de introdução alimentar. Esse processo contempla a oferta frequente de diferentes alimentos adequados à idade, respeitando os sinais de prontidão do bebê e de forma segura.
Ao longo do desenvolvimento, é necessário evoluir a consistência dos alimentos, ajustar os volumes oferecidos e manter o aleitamento materno (ou a fórmula infantil), compreendendo que o bebê pode passar por fases em que comerá mais ou menos.
Seletividade alimentar
Por volta de um a dois anos de idade, é comum que a criança comece a demonstrar preferências alimentares, ora comendo mais de alguns alimentos, ora deixando outros um pouco de lado. Isso é normal e esperado. A seletividade alimentar costuma surgir nesse momento.
Durante essa fase, situações como a redução da quantidade consumida, recusas a determinados alimentos, texturas, consistências, cores e sabores, entre outras queixas, podem surgir e tendem a ser transitórias, quando bem direcionadas.
Mas, quando se mantêm, frequentemente trazem grande preocupação para pais e cuidadores. Com paciência, exposição contínua aos alimentos e orientação adequada de um nutricionista é possível preservar a qualidade e favorecer a ampliação gradual do repertório alimentar.
Frente a esse cenário, algumas práticas alimentares inadequadas podem influenciar a evolução do problema. Um exemplo é deixar a criança escolher o que quer comer ou substituir uma refeição previamente planejada por leite, bebidas açucaradas ou outro alimento que ela peça.
Também é comum permitir o consumo de alimentos ainda não adequados à idade, tais como frituras, biscoitos, sucos industrializados, bebidas lácteas com adição de açúcar e doces em geral.
Cerca de 20% a 30% das crianças neurotípicas (que não apresentam transtornos do neurodesenvolvimento) tenham algum grau de dificuldade no processo de experimentação e escolha dos alimentos, e a idade de maior prevalência é entre os dois e seis anos.
Além disso, também pode haver crianças com problemas clínicos e sensoriomotoras orais que limitam a ampliação do repertório alimentar. Essas possibilidades precisam ser verificadas por profissional especializado.
Quantidade não é qualidade
Respondendo à pergunta inicial, os resultados deste estudo indicam que ter um repertório alimentar ampliado não garante, por si só, uma melhor qualidade da alimentação. No grupo analisado, crianças e adolescentes que aceitavam mais alimentos não foram os que apresentavam as dietas mais saudáveis.
Ao estratificar a amostra por faixa etária e analisar o número de alimentos aceitos, pudemos observar que, conforme a idade aumentava, também aumentava o número de alimentos aceitos. Os menores de dois anos aceitavam, em média, quase 20 alimentos, enquanto os adolescentes aceitavam quase 30.
À primeira vista, essa parece ser uma boa notícia. A questão é que parte significativa desse aumento era composta por alimentos ultraprocessados, como salgadinhos, biscoitos, sobremesas e bebidas açucaradas. Em outras palavras, havia mais variedade, mas não necessariamente mais nutrientes.
Além disso, mesmo aceitando um número menor de alimentos, os bebês apresentavam o perfil alimentar mais favorável: consumiam proporcionalmente mais frutas, legumes, verduras e preparações simples.
Já a partir da fase pré-escolar, os alimentos ultraprocessados passaram a ocupar mais espaço na alimentação. Esse resultado mostra que avaliar apenas o número de alimentos aceitos pode ser enganoso. A qualidade do que entra no repertório é tão valiosa quanto a sua diversidade.
O que molda o repertório
Crianças nascem com uma preferência natural por sabores doces e por alimentos mais previsíveis em aparência, textura e sabor.
Entre as crianças com dificuldades alimentares, essa tendência pode ser ainda mais evidente. No estudo, os alimentos mais aceitos tinham características muito semelhantes: eram frequentemente doces, claros, crocantes ou fáceis de mastigar.
Batata frita, pipoca, biscoitos e chocolates apareceram entre os itens mais aceitos. Já alimentos com sabores azedo e amargo, como muitas frutas e vegetais, perdiam espaço com o aumento da idade.
O ambiente alimentar também exerce enorme influência. Quando pais e cuidadores ficam preocupados com a alimentação da criança, é compreensível que ofereçam repetidamente os alimentos que sabem que são aceitos.
O risco dessa estratégia é que ela carrega a possibilidade de ampliar o repertório alimentar em uma direção pouco saudável. Em vez de aprender a aceitar frutas, verduras e refeições variadas, a criança passa a conhecer cada vez mais versões de alimentos altamente palatáveis, ricos em açúcar, gordura e sal.
Ampliar o repertório alimentar é um objetivo fundamental, mas não deve ser o único. O sucesso não está apenas em fazer a criança comer mais, e sim em ajudá-la a aceitar uma maior variedade de alimentos nutricionalmente adequados.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.
Informação
Folha de São Paulo



