Quem é Lucas Polese, eleito deputado federal do PL com votação recorde no Espírito Santo

A entrada na política do capixaba Lucas Polese, deputado federal eleito pelo PL, começou em 2016 com um perfil no Instagram –não dele, mas do que ele chamou de Instituto Liberal do Espírito Santo, o IIes.
A escolha pelo termo instituto foi proposital. “Eu tinha 18 anos quando comecei e ninguém ia parar para ouvir as minhas opiniões. Então coloquei o nome instituto, porque, pô, instituto tem credibilidade. Não vão ser as opiniões do Lucas, vai ser o instituto falando”, afirmou ele à Folha. O objetivo do Iles, como diz a descrição do perfil, é “fiscalizar políticos e defender as ideias de liberdade no Espírito Santo”.
Quando o perfil começou a ganhar tração –hoje soma 7.000 seguidores no Instagram–, ele decidiu se filiar ao PL. A escolha pela sigla foi natural, diz ele. Tendo crescido em um “ambiente antipetista”, notou o que chamou de “viés contrário” por parte dos professores e quis entender o porquê de, em casa, ouvir dos pais uma linha de raciocínio e, na escola, outra.
Leu a Escola Austríaca, uma corrente de pensamento econômico que defende a mínima intervenção do Estado na economia e o livre-mercado radical. Leu Olavo de Carvalho, guru de Jair Bolsonaro (PL). Até que cruzou com uma entrevista de 2014 do ex-presidente, quando ele disse: “A única coisa boa do Maranhão é o presídio de Pedrinhas. É só você não estuprar, não sequestrar, não praticar latrocínio, que tu não vai para lá. Vai dar vida boa para aqueles canalhas?”, questionou Bolsonaro à época.
“Quando decidi ser candidato, queria estar no partido dele. Sempre tive mais ou menos essa mesma linha de atuação, de pensamento”, diz Polese.
Pelo PL, foi eleito deputado estadual no Espírito Santo em 2022 com 29.490 votos. No domingo (4), tornou-se o deputado federal mais votado na história do estado com 19,66% do eleitorado, ou 419.735 votos.
Hoje com 29 anos, ele tomará uma cadeira ao lado dos parlamentares Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) na maior bancada da Câmara dos Deputados, engrossando o quórum de jovens que tiveram como principal motor de campanha a presença nas redes sociais.
A base de seguidores de Polese é menor que a dos pares: enquanto ele soma pouco mais de 302 mil, Nikolas tem 22,8 milhões, e Pavanato, 5,6 milhões. O capixaba ainda recusou verbas do PL para a campanha, apesar de ter sido proposta a ele “uma bolada do fundo eleitoral”, pelo que chamou de “critério filosófico” sobre o uso de dinheiro público.
A campanha prosperou mesmo assim, com a soma de R$ 105 mil, segundo a Justiça Eleitoral, vinda de aportes próprios, do pai e de vaquinhas online. Ele ainda investiu na fórmula de vídeos virais, e Nikolas, que disse que Polese era seu “voto de confiança no Espírito Santo” em vídeos publicados no Instagram, também ajudou a difundir a candidatura do colega de sigla.
Mas o capixaba atribui o resultado nas urnas ao trabalho na Assembleia Legislativa. “Se fosse só a comunicação, talvez eu tivesse sido eleito e tal, mas teria um percentual menor de votos. Para conseguir que, a cada cinco pessoas que saíram para votar aqui no estado, uma votasse em mim, realmente também tinha que ter essas entregas do mandato”, afirma.
Na Assembleia Legislativa, Polese cita como um de seus principais trabalhos a autoria do PL 166/23, que visava penalizar invasores e ocupantes de propriedades privadas no estado para coibir ações de movimentos como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). O projeto chegou a ser aprovado pelo plenário, mas foi vetado integralmente pelo então governador Renato Casagrande (PSB).
O tema é uma das agendas prioritárias dele na Câmara dos Deputados. “A gente conseguiu uma expertise muito grande ao lidar com processos do Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], ao lidar com as instituições, e em razão disso entendemos como que isso funciona e por que tem tantas falhas”, diz.
“Então essa é uma pauta do Estatuto da Propriedade Privada que vai partir muito da gente, assim como questão de agricultura, de direitos básicos do proprietário rural, de uso responsável do solo, questão de cobrança por uso de água. A gente precisa prestar um pouco de moral ao homem que vive no campo.”
Apesar do apoio no Espírito Santo, Polese chega à Câmara com algumas controvérsias no seu histórico de vida pública.
Em 2023, o deputado foi multado por uma blitz policial da Lei Seca enquanto usava um veículo oficial. Na época, a Polícia Militar informou que Polese teria se recusado a fazer o teste do bafômetro, e então foi lavrado um Auto de Infração de Trânsito em seu nome.
Ele justificou o uso do veículo oficial dizendo que estava cumprindo agendas diplomáticas –no caso, estava recebendo um embaixador do Azerbaijão– e, “com muita insistência do embaixador”, brindou uma taça de vinho com ele. O caso foi arquivado.
“Eu era um opositor, quase que o inimigo número um do governo do Estado, e era amplamente vigiado. O processo foi arquivado justamente por eu ter provado que eu estava trabalhando”, afirma ele. “Meu erro foi de ação, um erro de decisão, não um erro de corrupção, de estar fazendo coisa errada.”
Polese também foi condenado a pagar uma indenização de R$ 8.000 a um professor da rede municipal de Jaguaré, no norte do estado, depois de publicar um vídeo nas redes sociais em que associava o educador à doutrinação ideológica, apologia ao comunismo e incentivo à invasão de propriedades rurais.
De acordo com o processo, ele utilizou sem autorização imagens do professor ministrando uma palestra de conscientização sobre os impactos de agrotóxicos. O juiz entendeu que a atividade foi estritamente pedagógica e que as acusações feriram a honra do docente.
Polese, à época, disse apenas que um professor que leciona usando uma camiseta com símbolo do comunismo faz apologia à ideologia comunista. A defesa recorreu da decisão.
“É só fazer um exercício de lógica. Se fosse um professor indo dar aula com uma suástica, as pessoas iam dizer que ele tava fazendo apologia ao nazismo, não é? Estou simplesmente falando da semântica da palavra ‘apologia’. Você usar a camisa com símbolo de um movimento político, você está fazendo apologia a ele ou está rechaçando ele?”, afirmou à reportagem.
Questionado sobre a comparação com o nazismo, ele afirmou: “Não estou falando que o comunismo é igual ao nazismo. É a semântica das palavras”.
Folha de São Paulo



