Política

Quem é Mariângela Fialek, a Tuca, suspeita de operar esquema envolvendo emendas

Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, é servidora da Câmara dos Deputados e foi, durante anos, assessora de confiança do então presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL). Atualmente lotada na liderança do PP, partido de Lira, ela é apontada pela Polícia Federal como peça central de um esquema de desvio de emendas parlamentares em benefício do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que não tem mandato.

Segundo a decisão do ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), que determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens de Valdemar, a extração de dados do celular de Tuca —apreendido em dezembro passado, na primeira fase da Operação Transparência— revelou “a existência de um arranjo decisório paralelo para a destinação de verbas públicas”. Nele, Valdemar aparece como responsável por definir e remanejar emendas apesar de não ser parlamentar.

A PF descreve Tuca como a “personagem principal do engendro”. Ela seria quem centralizava, processava e organizava as indicações de Valdemar, com o auxílio de outros dois servidores da Câmara: Nara Benedetti Nicolau Brum e Garigham Amarante Pinto, ambos da liderança do PL.

Nos diálogos citados na decisão, é Tuca quem recebe as cobranças e os pedidos vindos de Valdemar por meio dos outros dois. Em uma conversa de agosto do ano passado, Garigham avisa que havia marcado uma reunião com Valdemar e que ele “vai jogar no turismo os 24” —o que seria uma referência a R$ 24 milhões em emendas na área de turismo. Tuca responde pedindo calma e diz que já teria resolvido parte dos valores.

No dia seguinte, cobrada novamente por Garigham sobre se havia “fechado o valor do Pres. Valdemar”, ela sugere trocar mais indicações para a área de turismo. Em outra mensagem, pede a Garigham a planilha da estatal federal Codevasf —indício de que geria simultaneamente diferentes frentes de indicações.

A investigação aponta que o grupo usava planilhas para sistematizar as indicações e incluía nomes de deputados como falsos solicitantes das emendas, dando aparência de legalidade a repasses que eram na prática definidos por Valdemar. Ao todo, a polícia identificou 21 emendas suspeitas nessas condições, com empenhos entre junho de 2024 e março de 2026, somando R$ 119,2 milhões —dos quais R$ 104 milhões já haviam sido efetivamente pagos.

Procurada pela Folha, a defesa de Tuca ainda não se manifestou sobre os elementos apresentados na decisão do STF desta semana.

Na avaliação da PF, os indícios apontam para o crime de peculato-desvio, que não exige enriquecimento pessoal do servidor: basta que a verba pública tenha sido aplicada de forma diversa da prevista em lei.

O nome de Tuca já havia surgido em agosto de 2024, quando a Folha revelou que a Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional da Câmara distribuiu R$ 1,1 bilhão em emendas seguindo orientações repassadas por ela, então assessora de Lira. Segundo mensagens obtidas pela reportagem à época, Tuca enviava à cúpula da comissão listas prontas de municípios que deveriam receber obras e maquinário, em arquivos chamados de “minuta de ofício, indicação de beneficiários”.

Essas listas eram depois assinadas pelo presidente do colegiado, o deputado José Rocha (União Brasil-BA), e encaminhadas ao Ministério da Integração Nacional e do Desenvolvimento Regional, responsável por executar as emendas —muitas vezes sem que os próprios integrantes da comissão soubessem o destino final dos recursos.

Em dezembro, a primeira fase da Operação Transparência resultou em busca e apreensão na casa e no local de trabalho dela —inclusive na própria Câmara—, além da quebra de seu sigilo telefônico e telemático. Segundo a decisão de Dino à época, as medidas se justificavam por fortes indícios de que ela integrava “uma estrutura organizada voltada ao indevido direcionamento de emendas parlamentares”, supostamente sob ordens diretas da antiga presidência da Câmara.

A Polícia Federal investiga a participação dela nos crimes de peculato, falsidade ideológica, uso de documento falso e corrupção.

Outro lado

Em nota à época da primeira fase da operação, os advogados de Tuca, Luis Inácio Adams e Maria Claudia Bucchianeri, afirmaram que sua atuação era “estritamente técnica, apartidária e impessoal” e que todo o material de trabalho dela é público, disponível no Portal da Transparência.

Valdemar Costa Neto, por meio dos advogados Marcelo Ávila de Bessa e Thiago Fleury, afirmou que a decisão de Dino “parte de premissas frágeis, inferências subjetivas e de uma indevida criminalização da atividade político-partidária” e negou qualquer vantagem pessoal com as emendas.

Procurado pela Folha, Garigham Amarante Pinto disse que atua de forma técnica e não tem o que comentar. A reportagem ainda não localizou Nara Benedetti Nicolau Brum para que se manifestasse.

Arthur Lira informou que não vai comentar, já que a decisão de Dino não o cita.

Folha de São Paulo

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