Quesede teria enviado R$ 570 mil para lobista Roberta Luchsinger

A empresária e lobista Roberta Luchsinger teria recebido pelo menos R$ 570 mil em pagamentos feitos por meio de pessoas e empresas ligadas ao então secretário-executivo da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia, Quesede Ayres Henrique, em agosto e setembro de 2024. Os repasses ocorreram enquanto ela atuava nas supostas tratativas para a liberação de um empréstimo de R$ 710 milhões da Prefeitura de Goiânia junto ao Banco do Brasil, com garantia da União. As informações foram divulgadas pela coluna de Andreza Matais, do Metrópoles.
Os comprovantes bancários e mensagens obtidos pelo Metrópoles indicam que parte dos pagamentos foi feita pouco antes e outra parte logo depois de o governo federal autorizar a operação.
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O dinheiro chegou a Roberta por diferentes caminhos. Em 21 de agosto de 2024, dois pagamentos que somavam R$ 400 mil foram feitos pela Construservice Empreendimentos e Construções, empresa do empresário Eduardo “DP” Barros Costa. Outros R$ 50 mil foram pagos em 30 de agosto por uma empresa chamada JJ2 CI. Já em 4 de setembro, Quesede encaminhou um comprovante de R$ 120 mil para uma conta indicada pela lobista. Ao todo, os documentos citados na apuração apontam R$ 570 mil em pagamentos no período.
Pagamentos
21/08/2024 – R$ 186 mil – enviado pela Construservice
21/08/2024 – R$ 214 mil – enviado pela Construservice
30/08/2024 – R$ 50 mil – enviado pela JJ2 CI
04/09/2024 – R$ 120 mil – origem não identificada
Total = R$ 570 mil
A Construservice mantinha contratos com a Prefeitura de Goiânia. Segundo dados do Portal da Transparência citados pelo Metrópoles, a empresa recebeu R$ 127 milhões do município. Em julho de 2024, mês anterior aos pagamentos, foram R$ 1,4 milhão.
A empresa é controlada por Eduardo “DP” Barros Costa, citado em investigações relacionadas ao chamado “orçamento secreto”. A defesa do empresário não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem.


Mensagens ligam pagamentos à negociação do empréstimo
Enquanto os pagamentos eram realizados, Roberta mantinha contato com Rogério Ceron, que comandava a Secretaria do Tesouro Nacional. O órgão participava da análise técnica necessária para que Goiânia obtivesse a garantia da União para o empréstimo.
As conversas começaram antes, em 2023, mas ganharam intensidade em julho de 2024, quando a análise da operação estava em andamento. Em uma das mensagens, Roberta encaminhou a Ceron o número do processo administrativo referente ao empréstimo e perguntou sobre o andamento.
Dias depois, ela também tentado aproximar Ceron de Rogério Cruz (ex-prefeito de Goiânia). O ex-prefeito teria sido indicado para uma reunião com o então secretário do Tesouro. De acordo com o Ministério da Fazenda, porém, não há registro de que esse encontro tenha ocorrido.

O parecer técnico sobre a operação saiu em 30 de julho. A manifestação da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional foi emitida em 7 de agosto.
Em 15 de agosto, Roberta avisou a Ceron que o processo estava “assinado” e comemorou o andamento da operação. Ainda faltava, naquele momento, o despacho do então ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
A autorização foi concedida em 30 de agosto de 2024 e publicada no Diário Oficial da União em 2 de setembro.
A operação de crédito havia sido autorizada pela Câmara Municipal de Goiânia em março de 2024. O projeto permitia que o município contratasse até R$ 710 milhões para investimentos em infraestrutura, saúde, educação, mobilidade e modernização da gestão.

Pagamentos vieram antes e depois do aval
As mensagens obtidas pelo Metrópoles mostram que Roberta também tratava diretamente com Quesede Ayres sobre os pagamentos. Em 21 de agosto, ela enviou ao então secretário dados de contas bancárias de sua empresa, a RL Consultoria, e da agência de turismo TTW Brasil Operações Turísticas.
A orientação era dividir os valores entre as duas empresas. Na sequência, Quesede encaminhou os comprovantes dos dois pagamentos que, juntos, somaram R$ 400 mil. O dinheiro, no entanto, saiu da conta da Construservice.

Um dos depósitos foi destinado à agência de turismo indicada por Roberta. O outro, de acordo com a reportagem, foi feito para a conta de um homem de 20 anos identificado como João Mateus Teles Santana, que não foi localizado pelo Metrópoles.
Numa troca de mensagens, Roberta diz a Quesede para avisar Cruz sobre o empréstimo. “Pode avisar seu prefeito que segunda-feira tá resolvido. Publicado e assinado”. Quesede reage com uma figurinha “Eita Glória”. Em seguida, Roberta manda Quesede visitar Brasília: “E você vá a BSB porque coloquei o meu na reta por você”. Quesede responde: “Combinadíssimo”.
Em 04 de setembro, Quesede Ayres teria viajado de Goiânia e a Brasília. Roberta Luchsinger teria cobrado mais dinheiro dele e pediu que fosse a sua casa porque estava com o “Fábio”. “Mas venha sozinho pq o Fábio não quer ninguém aqui para não dar falação”. Quesede manda um comprovante de pagamento de R$ 120 mil para a conta de um homem que ela teria indicado em 22 de agosto. Roberta diz que tem que pagar mais R$ 50 mil em uma conta do Banco do Brasil.
No dia seguinte, 22 de agosto, Roberta voltou a enviar dados bancários para Quesede. Desta vez, as mensagens indicavam pagamentos que chegariam a R$ 420 mil, incluindo R$ 300 mil destinados a uma pessoa ligada ao imóvel que ela alugava em Brasília.
Em 30 de agosto, poucas horas antes da autorização do empréstimo, Roberta avisou Quesede que o aval estava prestes a ser publicado e pediu que ele comunicasse Rogério Cruz.
Naquele mesmo dia, após a autorização do Ministério da Fazenda, Quesede enviou um comprovante de R$ 50 mil para uma conta indicada por Roberta. Em 4 de setembro, já depois da publicação do aval, outro pagamento de R$ 120 mil foi realizado.

O que dizem Fazenda e envolvidos
O Ministério da Fazenda afirmou que a concessão da garantia da União seguiu critérios técnicos e que a análise foi feita de forma independente pela Secretaria do Tesouro Nacional e pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
Segundo a pasta, Goiânia atendia aos requisitos fiscais exigidos para a operação. O município tinha, à época, condições de endividamento consideradas compatíveis com as regras para obtenção da garantia.
A Fazenda também informou que o Tesouro solicitou quatro complementações de informações à Prefeitura de Goiânia antes de concluir a análise.
A assessoria de Fernando Haddad declarou que o processo seguiu o trâmite considerado normal, dentro do prazo previsto, e que o empréstimo atendia aos requisitos técnicos. Haddad, segundo a nota, não teve contato com Roberta Luchsinger nem tratou com ela sobre a operação.
Rogério Cruz também negou ter mantido contato com a lobista. A assessoria do ex-prefeito afirmou que, caso terceiros tenham usado o nome dele em alguma conversa, isso teria ocorrido sem autorização ou conhecimento.
Quesede Ayres não respondeu aos contatos do Metrópoles. A defesa de Roberta Luchsinger, o advogado de Eduardo “DP” Barros, a Controladoria e a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia também não haviam se manifestado até a publicação da reportagem.
Empréstimo bancou obras em Goiânia
O empréstimo de R$ 710 milhões foi contratado pelo município junto ao Banco do Brasil para financiar investimentos. A autorização legislativa previa recursos para obras de infraestrutura, além de investimentos em saúde, educação e mobilidade.
Dados publicados posteriormente apontaram que parte dos recursos já havia sido liberada e utilizada pela Prefeitura de Goiânia. Segundo levantamento citado pelo Metrópoles, até junho de 2026 haviam sido liberados R$ 375 milhões, dos quais R$ 287 milhões tinham sido gastos em obras de infraestrutura, saúde e educação.
Mensagens também citam dinheiro vivo
A apuração do Metrópoles aponta ainda outros pagamentos relacionados a Roberta e Quesede que não puderam ser diretamente vinculados ao processo do empréstimo.
Em setembro de 2024, por exemplo, mensagens indicam que Quesede teria entregue dinheiro em espécie ao motorista da lobista, Ulisses Viana Júnior. Depois da entrega, o motorista informou a Roberta que havia recebido “1M”, em referência a um valor em dinheiro.
A reportagem ressalva, contudo, que não foi possível determinar a que serviço ou compromisso esses outros pagamentos estavam relacionados.
Outros pagamentos aparecem nas mensagens
As mensagens recuperadas do celular de Roberta também deram origem a outras reportagens sobre pagamentos e contatos envolvendo pessoas do cenário nacional.
Entre os nomes citados está Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em conversas divulgadas anteriormente pelo Metrópoles, Roberta teria orientado pagamentos para “Fábio”, incluindo uma transferência de R$ 26.809 para a agência de viagens TTW, em julho de 2024.
Em outro episódio, em novembro daquele ano, ela cobrou de Quesede um pagamento de R$ 100 mil. O valor acabou sendo depositado na conta da RL Consultoria. Na mesma noite, Lulinha embarcou para Lisboa. As mensagens, porém, não identificam nominalmente o destinatário do pagamento.
Os fatos envolvendo Roberta Luchsinger e Lulinha são atualmente alvo de inquéritos no Supremo Tribunal Federal. As investigações tratam, entre outros pontos, de suspeitas de tráfico de influência e de pagamentos relacionados a pessoas próximas ao presidente da República. Lulinha nega irregularidades.
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