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Raíssa Soares destaca a importância do movimento na saúde neurológica

Alterações na marcha, tremores, esquecimentos e mudanças de comportamento podem afetar a autonomia e as relações. Para a neurologista Raíssa Barreto Vieira Soares, compreender esse impacto é parte essencial do atendimento. É a partir dessa visão que ela atua nas áreas de distúrbios do movimento e neurologia comportamental, entre Teresina e Floriano, no Piauí.

Nascida em Floriano, Raíssa encontrou ainda na infância uma referência para seguir a Medicina. Seu padrinho e tio, o médico Francisco Luís, irmão de seu pai, costumava receber em casa pessoas que procuravam orientação. Ao observar aqueles atendimentos, ela percebeu que a profissão poderia unir conhecimento e cuidado com a população de sua região.

“Eu via as pessoas chegarem em busca de ajuda e, depois, retornarem em melhores condições. Foi quando percebi que a Medicina poderia me permitir cuidar da minha região. Existe uma satisfação que vai além do retorno financeiro: é saber que o seu trabalho fez diferença na vida de alguém”, relembra.

A escolha pela Neurologia

O interesse pela especialidade ganhou força quando sua irmã começou a apresentar movimentos involuntários na região abdominal. A família passou por diferentes avaliações e chegou a ouvir que o quadro poderia estar relacionado à ansiedade ou a um tique.

Naquele período, Raíssa já cursava Medicina e percebeu que os sintomas eram persistentes. O diagnóstico veio após uma avaliação detalhada, que identificou uma mioclonia diafragmática, distúrbio que afeta o músculo localizado abaixo dos pulmões.

“Aquele atendimento mostrou que eu queria exercer uma Neurologia baseada em observação, exame e escuta. Não queria que uma queixa fosse atribuída rapidamente à ansiedade sem que o paciente tivesse sido avaliado de forma completa”, conta.

Anos depois, o neurologista Kelson James, que havia atendido sua irmã, tornou-se professor da faculdade onde Raíssa estudava. Atualmente, os dois compartilham atividades na Universidade Federal do Piauí, onde ela atua como professora substituta. O reencontro aproxima a experiência que marcou sua escolha profissional da trajetória que hoje constrói no ensino da Neurologia.

Ensino e cuidado caminham juntos

Para Raíssa, a docência amplia o alcance da prática médica. O conhecimento transmitido a um aluno pode ajudá-lo a reconhecer sinais neurológicos em familiares e futuros pacientes.

Ela se recorda de estudantes que identificaram sintomas preocupantes em pessoas próximas depois das aulas. Esses episódios reforçam sua percepção de que ensinar também é uma forma de cuidar.

“Quando um aluno reconhece um sinal que poderia passar despercebido, o aprendizado alcança a família, os futuros pacientes e todos aqueles que ele atenderá ao longo da carreira”, afirma.

Atualmente, Raíssa é neurologista com atuação em Distúrbios do Movimento e Cognição e desenvolve mestrado em Neurologia Comportamental na Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto. Seus planos incluem seguir para o doutorado e construir uma trajetória no ensino público superior.

Um atendimento voltado para a vida real

No consultório, Raíssa procura conhecer o contexto de cada paciente. Além dos sintomas, considera a rotina, o trabalho, os vínculos familiares e as atividades que a condição neurológica começa a limitar.

Essa escuta ajuda a compreender qual perda causa maior impacto. Em alguns casos, a principal dificuldade está na caminhada. Em outros, na memória, no convívio social ou na dependência para realizar tarefas que antes eram feitas sem ajuda.

“O paciente não traz apenas uma doença. Ele traz relações, crenças, trabalho, medos e projetos. Conhecer esse contexto permite entender o que mais o incomoda e qual necessidade precisa ser acolhida primeiro”, explica.

A médica também recebe pessoas preocupadas com informações encontradas na internet. Algumas chegam convencidas de que possuem uma doença grave depois de relacionar sintomas a conteúdos digitais.

Raíssa reforça que sintomas semelhantes podem ter diferentes causas. O medo aumenta quando existe histórico familiar, mas o quadro de uma pessoa não representa necessariamente a repetição da história de um parente.

“Mesmo dentro da mesma família, a manifestação e a evolução podem ser diferentes. O paciente precisa ser avaliado a partir de sua própria história, do estágio em que se encontra e das possibilidades de tratamento disponíveis”, destaca.

Movimento como parte do cuidado

A frase “a vida precisa de movimento” sintetiza a forma como Raíssa acompanha seus pacientes. O conceito não está relacionado apenas à caminhada, mas também ao estímulo cognitivo, à participação social e à manutenção da autonomia.

Nos atendimentos de pessoas com doença de Parkinson, ela observa que o medo de cair ou de ser julgado pode fazer com que alguns pacientes deixem de caminhar e de sair de casa antes mesmo que a limitação física torne isso necessário.

Entre pacientes com alterações cognitivas, a interrupção da rotina após a aposentadoria também pode favorecer o isolamento. Leitura, música, atividades domésticas e exercícios adaptados ajudam a manter o corpo e a mente ativos.

“Movimentar-se não é exigir do corpo aquilo que ele já não consegue realizar. É identificar o que ainda pode ser feito e preservar essa possibilidade. Um passo curto, uma conversa ou uma atividade simples podem manter a pessoa ligada à própria rotina”, comenta.

Tecnologia com indicação individualizada

Entre os avanços presentes em sua atuação está a estimulação cerebral profunda, conhecida como DBS. O procedimento utiliza eletrodos implantados em regiões do cérebro relacionadas ao controle dos movimentos.

A técnica pode ser considerada para pacientes selecionados com doença de Parkinson que apresentam oscilações importantes na resposta aos medicamentos. A indicação depende do estágio da doença, das condições cognitivas, da saúde emocional e da resposta ao tratamento.

O procedimento não representa cura nem elimina obrigatoriamente o uso de medicamentos. Em alguns casos, pode ampliar o período de melhor mobilidade.

Raíssa recorda um paciente acompanhado por sua equipe que apresentava períodos frequentes de travamento. Segundo seu relato, após a ativação do dispositivo, ele conseguiu se levantar e caminhar com mais facilidade. A experiência é individual e não representa garantia de resultado.

“A melhora do movimento foi importante, mas o que mais nos marcou foi perceber a confiança reaparecendo. Ele se levantou, caminhou e sorriu. Naquele momento, os passos também representavam a retomada de uma parte da vida que havia sido limitada”, relembra.

Um futuro ligado ao Piauí

Entre os próximos passos, Raíssa pretende concluir o mestrado, seguir para o doutorado e avançar na carreira acadêmica. Seu objetivo é continuar no Piauí, levando o conhecimento adquirido em centros de pesquisa para pacientes e estudantes.

Para ela, a Medicina também consiste em reconhecer sintomas precocemente, explicar o diagnóstico com clareza e preservar a qualidade de vida de cada paciente.

Quero avançar na pesquisa, continuar na vida acadêmica e permanecer no meu estado. O conhecimento só faz sentido quando retorna às pessoas. Mesmo diante de um diagnóstico difícil, ainda podemos cuidar da maneira como o paciente vive e das possibilidades que permanecem”, conclui.

CRM-PI 6895 | RQE 5796

Instagram: @md.raissasoaresneur

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