Política

Reação de Flávio a Michelle agrava crise para senador

Na magistral abertura de “Anna Kariênina”, o escritor oitocentista russo Liev Tolstói escreveu: “Todas as famílias felizes são parecidas, mas cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira”. Os Bolsonaros que o digam.

O mais recente episódio de embate interno no clã do ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado, com a mulher de Jair acusando o pré-candidato ao Planalto Flávio de humilhação, é mais um tiro grave na postulação do senador pelo PL-RJ.

Ele vem no pior momento para Flávio, que havia estancado a sangria provocada pelo caso “Dark Horse”, embora seu áudio prometendo fidelidade ao “irmão” Daniel Vorcaro ainda deva ser muito lembrado caso sua campanha vá até o fim.

Contendo danos, o senador já trabalhava formas de ampliar sua presença no eleitorado feminino, aquele macroestrato que mais lhe rejeita em pesquisas de intenção de voto. No mais recente Datafolha, esses 52% da amostra davam a ele 37% num segundo turno contra o presidente Lula (PT), que amealhava 52%.

É uma diferença superior aos nove pontos que o bolsonarista tem à frente do petista entre os 48% de homens ouvidos. Isso para não falar no apoio que Michelle tem entre os evangélicos. Num pleito a ser decidido no detalhe, cada décimo conta.

Os caudalosos vídeos de Michelle, publicados com ajuda profissional óbvia, usam a disputa comezinha do Ceará para mostrar o tamanho do azedume entre a ex-primeira-dama e os filhos de Bolsonaro.

Acusações misóginas remetendo ao dito francês “procure a mulher” para encontrar a solução de um problema, ou mesmo à influência de Yoko Ono na separação dos Beatles, já começaram entre alguns bolsonaristas ouvidos nesta manhã de quinta (25). Mas elas não resolvem, e sim agravam a questão.

A primeira reação de Flávio sobre o caso foi péssima para ele. “Sou casado há 16 anos, pai de duas filhas maravilhosas e nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na minha vida. Jamais o faria com a esposa do meu próprio pai”, disse.

Só depois veio o protocolar pedido de desculpas, em caso de não ter sido compreendido. É algo análogo ao sujeito branco acusado de racismo e responde dizendo que tem amigos negros —pode ser verdade e funcionar na esfera privada, mas para figuras públicas a história é outra. É reforço da pecha.

Apesar de, como seria previsível, dizer que não quer briga, Michelle manteve-se na trincheira e descartou um encontro com Flávio. O senador ainda buscou se vitimizar usando o pior dos termos, afirmando não ter sido correspondido.

Vitimização por vitimização, o “fiquei na minha” da “insignificante” Michelle parece bem mais eficaz para ser trabalhado pelos batalhões de corte da internet, para não falar nos termos idiota, humilhação, maus-tratos.

Questões semânticas, aliás, permeiam a crise. A mulher de Jair chamou Flávio de “meu enteado” sem inocência alguma, buscando estabelecer hierarquia. Acusou ele e “seus irmãos”, quase uma declaração de formação de quadrilha, de agir de forma coordenada contra ela.

Restam agora especulações sobre o que a ex-primeira-dama pretende, além do prosaico buscar respeito dentro da família do marido. Ela busca montar uma bancada própria no Senado neste ano, apostando em mulheres, como no caso cearense que serviu de estopim da atual crise.

Mas observadores veem pretensões maiores à frente, embora no PL a ideia de que ela possa substituir Flávio na campanha presidencial seja tratada como ilusória. No mínimo, o perímetro foi delimitado.

As disputas do clã remontam a 2018, com os sumiços de Carlos Bolsonaro em protesto pelo surgimento de novas vozes na campanha que se provou vitoriosa do pai. Percorreram o governo, com os choques entre a ala militar e os ditos ideológicos —o mesmo Carlos e Eduardo.

Pior para Flávio, que agora vai correr para anunciar uma vice mulher. Citando desavenças como naturais, ele afirmou que “isso acontece nas famílias, nas empresas e também na vida pública”. Tolstói concordaria, restando saber o fim da história.

Folha de São Paulo

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