Política

Republicanos sinaliza neutralidade na eleição, mas Flávio busca apoio com acordos nos estados

Aposta da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para ocupar a vaga de vice na chapa presidencial, o Republicanos tem indicado que ficará neutro na eleição nacional, mas negociações em quatro estados podem mudar esse cenário e aproximar os dois partidos. A convenção nacional ainda não está marcada e deve ocorrer perto do fim do prazo, que começa na segunda-feira (20) e acaba em 5 de agosto.

Na última segunda (14), as duas siglas encaminharam uma aliança no Espírito Santo. O ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) declarou apoio a Flávio, criticou as prisões dos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e afirmou que Maguinha Malta (PL) será sua candidata ao Senado.

As declarações, feitas a um canal de YouTube bolsonarista, seguiram um roteiro negociado com o PL para obter apoio do partido do senador Magno Malta –que tinha se lançado pré-candidato ao governo capixaba. Eles devem se unir numa chapa para enfrentar o governador Ricardo Ferraço (MDB).

A tendência do Republicanos é se manter neutro na disputa presidencial, sem aliança formal com o presidente Lula (PT) ou com Flávio, segundo quatro dirigentes do partido. O presidente da sigla, deputado federal Marcos Pereira (SP), divulgou nota no domingo (12) para negar qualquer acordo por enquanto.

“Na última sexta-feira [10], em São Paulo, uma pesquisa encomendada pelo partido foi apresentada para uma parte da bancada paulista. Pelas sondagens iniciais, o presidente Marcos Pereira detectou, preliminarmente, um sentimento de frustração à pré-candidatura de Flávio e uma indicação de preferência pela neutralidade nestas eleições“, disse a nota divulgada pela executiva do Republicanos.

Dirigentes partidários dizem que a sigla tinha uma posição mais favorável a Flávio, mas o cenário mudou quando foi revelado, em maio, que ele pediu dinheiro e se encontrou com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Os recursos, segundo Flávio, seriam para custear um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas as notícias atingiram sua pré-candidatura e suas intenções de voto.

Um fator que pode mudar a tendência à neutralidade, de acordo com dirigentes do Republicanos, é o apoio do PL a candidatos do partido aos governos estaduais. Isso foi decisivo para a sigla decidir endossar a reeleição de Bolsonaro em 2022, quando o ex-presidente filiou ao Republicanos os ex-ministros Damares Alves, para disputar o Senado no Distrito Federal, e Tarcísio de Freitas para concorrer em São Paulo.

Desta vez, além da aliança entre Malta e Pazolini, no Espírito Santo, a legenda quer que o senador Wellington Fagundes (PL) desista de concorrer para apoiar o governador Otaviano Pivetta em Mato Grosso e que o PL declare apoio aos senadores Alan Rick no Acre e Cleitinho Azevedo em Minas. Os partidos já estão juntos na campanha pela reeleição do governador Tarcísio.

Desses estados, o mais distante é o apoio em Mato Grosso. Fagundes lidera pesquisas e avisou na semana passada ao presidente nacional do Republicanos que não deve desistir. No Acre, o senador Marcio Bittar (PL) está dividido entre a reeleição da atual governadora ou compor com Rick.

Em Minas Gerais, o PL tentou construir uma candidatura alternativa a de Cleitinho, que é o líder nas pesquisas. Foram estudados dois nomes, do presidente da Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais), Flávio Roscoe (PL), e do ex-prefeito de Betim Vittorio Medioli (PL), mas a tendência é apoiar Cleitinho para fortalecer o palanque bolsonarista no estado, segundo dirigentes do PL mineiro.

O problema é que Cleitinho ainda não confirmou a candidatura ao governo e disse recentemente que pode deixar a decisão para o fim do prazo, em agosto, diante de pressões para que saia da disputa. Esses dirigentes do PL afirmam que a decisão será do diretório estadual e que não houve orientação explícita da nacional para fechar um acordo com o senador em troca do apoio a Flávio.

O PL também indica que o Republicanos ocupará a vice na chapa caso aceite a coligação. Há, no entanto, divergências sobre o nome. A equipe de Flávio sugere que a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, do Republicanos, fique com a função. Mas o partido não se sente representado por ela, que acabou de se filiar, e prefere indicar um de seus quadros mais antigos se a aliança ocorrer.

O senador, porém, diz que não fará esforços e promessas que não poderia cumprir para atrair o partido. A promessa da vice seria, em âmbito nacional, a principal cartada.

Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Flávio prometeu indicar Marcos Pereira para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) em troca da aliança. O presidente nacional do Republicanos divulgou nota negando esse acerto.

Dois deputados federais que conversaram com Pereira dizem que a possibilidade de ocupar uma vaga no STF, sonho antigo do dirigente partidário, está sempre nas conversas em torno de apoio do partido, mas que o convite não foi feito. Eles também minimizam uma possível oferta, afirmando que as pesquisas apontam vitória de Lula e que, se isso ocorrer, de nada valeria essa promessa.

O próximo presidente da República poderá indicar até quatro vagas no STF com a aposentadoria compulsória dos ministros aos 75 anos. A conta inclui a cadeira que era de Luís Roberto Barroso e que não foi preenchida desde o ano passado.

O apoio do Republicanos pode ser decisivo para tirar Flávio do isolamento partidário. PP e União Brasil caminhavam para apoiá-lo, mas a neutralidade se tornou o cenário mais provável com após o escândalo do Banco Master e divergências entre PL e políticos desses partidos nas eleições estaduais.

Folha de São Paulo

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