Revelações sobre Moraes e Vorcaro colocam STF em encruzilhada inédita

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O Supremo Tribunal Federal teve papel decisivo para impedir e punir a tentativa de golpe. Nessa jornada em defesa da democracia, nenhum ministro do STF se destacou tanto quanto Alexandre de Moraes. Transformado em inimigo público número 1 pelo então presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, Moraes resistiu às agressões, comandou a eleição de 2022, chancelou a posse do candidato vitorioso nas urnas (Lula) e, depois de garantida a transição de poder, ainda condenou à cadeia o capitão e seus comparsas por atentarem contra a democracia. Em consequência, tornou-se uma das autoridades mais influentes e temidas do país. Várias decisões polêmicas dele passaram a ser relevadas em retribuição à sua ação para barrar a intentona autoritária. O poder conquistado por Moraes parecia ter se tornado uma barreira inquebrantável ao redor dele, acima de qualquer tipo de contestação.
Foi assim até virem à tona mais detalhes das relações que ele manteve com Daniel Vorcaro, dono do Master e protagonista de uma das maiores fraudes bancárias da história do país. Desnudada num relatório de 218 páginas elaborado pela Polícia Federal, as relações entre Moraes e o ex-banqueiro atingiram em cheio a reputação do ministro, chamuscaram a já arranhada imagem do STF e colocaram o tribunal numa encruzilhada: escolher entre o desgaste de investigar um de seus principais integrantes ou empurrar o caso para debaixo do tapete e mergulhar de vez no descrédito. Já se sabia que o escritório de advocacia da esposa de Moraes havia fechado um contrato de 129 milhões de reais com o Master e que Vorcaro, antes de ser preso pela primeira vez, em novembro passado, pediu socorro ao ministro. Moraes vinha sendo poupado de dar maiores explicações, até a revelação de uma série de diálogos travados por ele com Vorcaro.
Com base nas informações contidas no celular apreendido do ex-banqueiro, o ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, ordenou que a PF identificasse as autoridades com prerrogativa de foro que trocaram mensagens e telefonemas com Vorcaro ou tiveram seus nomes citados em conversas dele. O relatório traz como destaques Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O papel de protagonista, no entanto, é de Moraes, a quem Vorcaro recorre a fim de obter informações sigilosas, pedir conselhos jurídicos e solicitar ajuda para pressionar autoridades a salvá-lo da derrocada financeira e da cadeia. “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”, escreveu o executivo ao ministro em 14 de novembro de 2025.

Segundo a PF, o ex-banqueiro trocou pelo menos 51 mensagens com Moraes em 21 dias. Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes sobre a conveniência de uma fuga: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. No dia seguinte, ele pediu ao ministro que intercedesse junto a “Andrei” para adiar possíveis diligências contra o Master. Em 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar para Malta. No dia seguinte, o Master foi liquidado pelo Banco Central, comandado por Gabriel Galípolo, que aparece nas mensagens como uma fonte de preocupação para o ex-banqueiro. Antes da liquidação, Vorcaro enviou para Moraes: “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem, que aí vai tudo pro saco”.
De acordo com a investigação da PF, ambos foram apresentados por Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro, em cuja casa chegaram a se encontrar. Vorcaro e Moraes utilizavam mensagens em modo de visualização única, destruídas imediatamente depois de lidas. Os investigadores conseguiram acessar o que o ex-banqueiro escrevia porque ele fazia rascunhos no bloco de notas do telefone antes de entrar em contato com o magistrado por meio de um aplicativo de troca de mensagem. Foi por isso que a PF descobriu a prioridade máxima dada ao pagamento das parcelas do contrato com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, que, conforme a polícia, foi revisado pelo próprio marido dela. “Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não tô entendendo isso. Contrato mais importante que temos”, reclamou Vorcaro em uma mensagem enviada a um membro de sua equipe. A PF também identificou a negociação para a assinatura de um segundo contrato com a mesma banca, estimado em 50 milhões de reais, que seria pago inclusive com cotas de um jato Legacy 650 e de um helicóptero.

Como não teve acesso ao celular de Moraes, até porque o ministro não é investigado formalmente, a PF não sabe quais foram as respostas dadas por ele. Antes de retirar o sigilo em torno do material, Mendonça pediu à PGR que se manifestasse sobre o relatório. Citado nos diálogos, Gonet chamou atenção pela rapidez e por não ter se declarado impedido de julgar o caso. Em menos de 24 horas, recomendou que o material da PF fosse declarado nulo. Paralelamente, Mendonça pediu que o plenário do Supremo julgue o caso. Numa nota curta, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, avisou que serão analisadas as posturas de Moraes e também os atos processuais de Mendonça, que, conforme os críticos, não poderia, como juiz, demandar à PF a produção do relatório. “A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades”, declarou Fachin. Na primeira sessão do Supremo realizada após o estouro da crise, na quarta 2, os ministros seguiram a pauta normal, sem tocar na crise. Sentados lado a lado, Moraes e Mendonça fingiram normalidade. O clima entre eles já havia se tornado pesado antes mesmo da divulgação do relatório da PF.
Na última segunda-feira, quando esse material ainda estava protegido por sigilo, Moraes foi ao gabinete de Mendonça para cobrar o colega. “Quero ser bastante direto com você. Estou sabendo que você está me investigando”, disse Moraes, fazendo referência às mensagens que recebera de Vorcaro. Mendonça retrucou: “Eu não sabia que o interlocutor do Vorcaro era você. Não estou te investigando, ministro, porque, para investigar, eu preciso de autorização do plenário”. Veio a tréplica de Moraes: “É isso que eu queria saber”. Mendonça, então, lembrou ao colega que o caso estava em sigilo máximo e questionou sobre como ele teria ficado sabendo da existência do relatório. Moraes respondeu em tom irônico: “Tenho as minhas fontes”.

Um dia após autorizar a divulgação das descobertas, veio a público a informação de que o próprio Mendonça se reunira com o ex-banqueiro para tratar de um assunto de interesse do Master. Além disso, foi divulgado que um juiz auxiliar do gabinete do relator colheu um depoimento de Vorcaro sem a presença de um representante da PF. Mendonça confirmou o fato, mas alegou que não houve perguntas sobre Moraes. Na ocasião, como revelou a coluna Radar, de VEJA, o ex-banqueiro reclamou da resistência da PF e da PGR em aceitar seu pedido de delação premiada. “Tenho muito a relatar, mas não querem me ouvir”, disse.

Na arena política, as novidades sobre o caso Master fizeram a oposição aumentar a pressão para que Davi Alcolumbre coloque em votação o pedido de impeachment de Moraes. O presidente do Congresso, a quem Vorcaro diz em sua confissão ter pago 30 milhões de dólares no exterior, segundo reportagem de VEJA, segue resistindo. “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado sou eu e o ministro Alexandre de Moraes”, afirmou ele na quarta 2, citando o caso do financiamento do filme em homenagem a Jair Bolsonaro com dinheiro de Vorcaro — o inquérito corre também aos cuidados de Mendonça.
No início de agosto, em encontro realizado na casa de Moraes, Alcolumbre esteve com Lula e selou um pacto de reaproximação com o presidente. A campanha do petista à reeleição acusa Mendonça de tentar interferir nas eleições, desgastando Moraes para impulsionar a candidatura de Flávio Bolsonaro — estratégia para tentar desqualificar o trabalho do magistrado, até aqui realizado de maneira correta.

O relator do caso Master tem reforçado que seu objetivo é apenas apurar responsabilidades na fraude bancária bilionária — seja de políticos, servidores públicos ou colegas magistrados. O Supremo precisa fazer uma investigação séria sobre os graves indícios de crimes, até para Alexandre de Moraes ter o direito de se defender. O que não pode acontecer é a Corte varrer a história para debaixo do tapete. Ao analisar o caso em plenário, o Supremo mostrará à sociedade se há limites para o corporativismo, para as investigações e o funcionamento das instituições. Espera-se que, diante da encruzilhada, o tribunal escolha o caminho republicano.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011
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