Política

Salles diz que família Bolsonaro exige obediência absoluta e divide a direita

Crítico do presidente Lula (PT), o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP), 51, credita a vantagem do petista sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas como fruto de erros da campanha bolsonarista – incluindo a relação do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro com Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Em entrevista à Folha, Salles disse que as brigas no clã enfraquecem a direita –em especial os ataques mútuos entre Flávio e sua madrasta, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL)– e que o grupo político de Carlos (PL) e Eduardo Bolsonaro (PL) tem excluído quem não se dispõe a jurar “obediência absoluta”.

Pré-candidato ao Senado por São Paulo, Salles se colocou como opção para a Casa legislativa em 2024, quando se filiou ao Novo. Dois anos depois, apesar de seu partido apoiar a reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), ele concorre de forma independente. Os candidatos apoiados pelo governador são o deputado federal Guilherme Derrite (PP) e o deputado estadual André do Prado (PL).

Sem o palanque de Tarcísio, Salles disse ter sido aconselhado a desistir: são três nomes da direita disputando duas cadeiras, o que pulveriza os votos do campo político. Sua reação foi abrir fogo contra André do Prado, a quem acusa de fingir ser de direita. “Se quiserem ter dois candidatos, o André que desista. Eu vou resistir.”

Ex-ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, ficou marcado por defender “passar a boiada” em reunião ministerial —justificando que aquilo significava resolver as coisas de forma rápida. Eleito o quinto deputado federal mais votado em 2022, com 640 mil votos, ensaiou uma candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2024 e recuou após o PL, partido ao qual era filiado, decidir apoiar a reeleição de Ricardo Nunes (MDB).

Salles aparece numericamente em terceiro lugar no Datafolha do início deste mês, liderado por Marina Silva (Rede), com 18%, e Simone Tebet (PSB), com 16%. Tecnicamente empatado com Tebet, Salles (13%) também empata, dentro da margem de erro de dois pontos, com André (11%) e Derrite (10%).

Alguém pediu ao sr. de forma direta para desistir do Senado?

Vários comentaram que eu precisava desistir, mas por que eu que tenho que desistir? Eu me lancei candidato antes de todos, tenho uma história na direita muito mais sólida do que qualquer outro e estou na frente deles [André do Prado e Derrite] nas pesquisas.

O Tarcísio nunca tocou nesse assunto de desistência comigo. Algumas pessoas, em conversa com o Fernando Meira [presidente do Novo em SP], insinuaram se não era o caso de eu ir para deputado federal, que obviamente eu teria uma votação significativa. Se quiserem ter dois candidatos, o André que desista. Eu vou resistir.

Como o sr. enxerga a disputa na direita para o Senado em São Paulo?

O André não é de direita, ele está se fingindo ser de direita. Apoiou Dilma Rousseff [em 2010] e, na eleição de 2022, ficou ao lado do Rodrigo Garcia contra o Tarcísio no primeiro turno. Ele se juntou ao PT para se eleger presidente da Assembleia Legislativa e tem uma série de parcerias com deputados, vereadores e prefeitos do PT. Tarcísio não o quis como vice. No fundo, não é uma candidatura ao Senado por mérito, mas como prêmio de consolação. Já o Derrite é um bom candidato.

Por que o sr. discutiu com Eduardo Bolsonaro nas redes sociais?

Dos filhos do Bolsonaro, acho o Eduardo o mais preparado. Mas ele fragilizou o discurso que sempre teve contra a corrupção quando aceitou ser suplente do André do Prado, pupilo do Valdemar Costa Neto, que personifica o centrão. Critiquei isso. Ele disse que eu me acovardei na discussão toda de anistia, o que não é verdade. Eu procuro dizer coisas que têm fundamento, que eu possa sustentar. Não digo frase de impacto para depois ter que recuar, como ele com aquela história de “soldado e cabo para fechar o STF“.

Flávio Bolsonaro tem chance de vencer?

Acho que sim, porque como a própria Folha mostrou, a maioria dos brasileiros é de direita. O Lula tem um mau governo, corrupto, e a figura dele está muito envelhecida, desgastada. A vantagem é muito apertada e diante de qualquer descuido do Lula, o Flávio cresce. Só que hoje a campanha do PT está jogando em cima dos erros da campanha do Flávio.

E tem a relação com o Vorcaro

Exatamente. Os erros da campanha do Flávio é que estão dando vantagem ao Lula. Não é o Lula que está indo bem.

O que achou dos movimentos recentes de Michelle Bolsonaro?

O Eduardo e o Carlos têm em torno deles uma série de ativistas, influenciadores e blogueiros que diuturnamente atacam Michelle, Nikolas [Ferreira] e muita gente séria e de direita, mas que, por razões fúteis, acabam gerando ciúmes. Isso desune a direita. Acho que a manifestação da Michelle [em vídeo no qual disse ter sido maltratada] foi um desabafo de alguém que estava cansada de ser atacada por todo esse entorno. O próprio Flávio não atacava, mas também não fazia questão de brecar todos esses ataques que todo mundo via e todo mundo sabia de onde vinha.

Quem promove esses ataques?

São os influenciadores amigos do Eduardo: Kim Paim, Allan dos Santos… Tem uns tantos lá no Twitter, principalmente.

Um ponto fraco do Flávio é a aceitação entre as mulheres. Existe terreno para ele se recuperar?

Acho que sim, a eleição está longe. Tem uma frase interessante que diz que a política é a arte de ciscar para dentro. O que essa turma do entorno do Carlos e do Eduardo está fazendo é ciscar para fora, jogar gente que estava junto para fora –e só não fazem com aqueles que juram obediência absoluta. Gente com escolha não se sujeita a essa história de obediência absoluta.

É o seu caso?

Tenho independência total, não preciso da política para nada. Gosto de política e fui para a vida pública por vocação, não por ausência de alternativa no setor privado. Quando a pessoa não pode sobreviver fora da política e se dar ao luxo de eventualmente perder uma eleição, começa a aceitar e fazer coisas que em condições normais não faria ou aceitaria.

O que fará se não for eleito?

Eu toco a minha vida na advocacia, não tem problema nenhum. Fui candidato três vezes antes de ser deputado federal [2006, 2010 e 2018], perdi e continuei na advocacia. Não preciso da política para viver. Não quero perder a eleição, mas se acontecer, faz parte. Fazer o quê?

A deputada Tabata Amaral [PSB] disse que o sr. teve zero projetos aprovados no atual mandato. Como responde a isso?

Para aprovar um projeto no Congresso, da forma como ele está, você tem que ceder em coisas que eu não estou disposto a ceder. Meus projetos foram apresentados e ficaram pelo caminho. Mas relatei a CPI do MST, a PEC das drogas, a minha emenda incluiu a castração química de pedófilos [no projeto de lei 3976/2020, aprovado em 2024 pela Câmara e parado desde então no Senado]. Ou seja, ainda que eu não tenha projetos da minha autoria aprovados, há ações relevantes da minha autoria que puderam ser feitas sem negociar com a esquerda ou o centrão.

A negociação não faz parte da política?

É parte da política, mas tenho um pouco mais de rigidez nessa capacidade de transacionar ou de negociar com pessoas que têm posições muito diferentes das minhas, sejam porque são de esquerda, sejam porque são do centrão fisiológico.

Se o centrão ocupa tanto espaço, como legislar sem negociar com ele?

O primeiro pressuposto é que eles devem aderir à nossa pauta, e não a direita se submeter à pauta do centrão. O centrão consegue cooptar votos com verbas, emendas, cargos, favores em comissões temáticas. Quando nós éramos governo e a caneta estava na nossa mão, o ministro encarregado de negociação política, que era um general [Luiz Eduardo Ramos], era completamente inadequado para essa função. Você colocar general para negociar política é um desastre, como a maioria das coisas que eles fazem.

Ainda pensa em concorrer à Prefeitura de São Paulo?

Se eu for eleito senador, não vou deixar o Senado para concorrer à prefeitura. Agora, se eu não for eleito senador, aí quem sabe?

RAIO-X | Ricardo Salles, 51

Advogado formado pela Universidade Mackenzie, foi ministro do Meio Ambiente (2019-2021), secretário estadual de Meio Ambiente em São Paulo (2016-2017) e fundador do movimento Endireita Brasil. Foi o quinto deputado federal mais votado em 2022 e é pré-candidato ao Senado nestas eleições.

Folha de São Paulo

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