Seis em cada dez jovens aceitariam salário menor por trabalho menos estressante

Seis em cada dez jovens brasileiros aceitariam ganhar um pouco menos para trabalhar em um ambiente com menos pressão e estresse, segundo pesquisa da Fundação Itaú, que entrevistou 1.816 pessoas de 16 a 29 anos.
Apesar disso, o levantamento divulgado nesta sexta-feira (21) também mostra que o salário foi apontado por 64% dos entrevistados como o fator mais importante na escolha de um trabalho. Benefícios, plano de carreira e ambiente agradável apareceram empatados, com 31% cada.
Para Carla Chiamareli, gerente do Observatório Fundação Itaú e responsável pela pesquisa, embora a remuneração seja a principal preocupação na hora de escolher uma vaga, ela não é suficiente para garantir a permanência no emprego. “São duas coisas que se complementam, não são opostas”, afirma em entrevista à Folha.
A diferença aparece também na experiência de quem já passou pelo mercado. Entre os jovens que trabalham ou já trabalharam, 69% dizem que já saíram de algum emprego por vontade própria. O principal motivo, citado por 43%, foi falta de respeito ou tratamento inadequado de líderes ou chefes. Na sequência aparecem jornadas longas ou acúmulo de funções (36%), excesso de cobrança ou pressão por resultados (32%) e falta de oportunidade de crescimento ou plano de carreira (28%).
A relação mais flexível com o trabalho também aparece quando os jovens imaginam o futuro profissional. Hoje, 30% dizem que um emprego com carteira assinada representa o que procuram. Ao questionados sobre perspectivas daqui a cinco anos, porém, a proporção cai para 16%, enquanto a preferência por trabalho autônomo sobe de 28% para 42%.
A mudança, segundo Chiamareli, está relacionada à pouca experiência dos jovens e à forma como eles imaginam a própria trajetória. “Tem um pouco de imaturidade, de desconhecimento do mundo. Eles precisam de mais tempo para conseguir ter essa clareza da diferença entre o ter o próprio negócio e ser contratado em um trabalho formal, bem remunerado, estável”, diz.
A pesquisa mostra que os jovens reconhecem a experiência prática como um dos principais diferenciais para conseguir uma boa oportunidade. Ela foi citada por 55% dos entrevistados, à frente de boa comunicação (51%) e comprometimento (36%).
O problema é que a falta de experiência aparece como a principal dificuldade para conseguir emprego: 49% dos jovens apontaram esse obstáculo. A concorrência com outras pessoas foi citada por 39%, seguida por dificuldades de deslocamento (28%), falta de qualificação ou preparo (25%) e dificuldade para conciliar estudo e trabalho (24%).
“O que me chamou atenção é o quanto a escola, educação básica e nível superior, não estão preparando bem os jovens para a realidade do mundo do trabalho”, diz Chiamareli. Segundo ela, as aulas sobre mercado profissional costumam ser muito “poéticas”, sem refletir, de fato, as demandas do “mundo real”.
Durante o questionário, nove em cada dez jovens disseram que a prática ensina mais do que os estudos, e 60% afirmam que programas de apoio à inserção profissional deveriam oferecer cursos práticos, e não apenas teóricos.
A falta de experiência também ajuda a explicar o peso das redes pessoais na entrada no mercado. Segundo a pesquisa, 96% dos jovens consideram que conhecer alguém dentro de uma empresa ou ser indicado por familiares e amigos ajuda a conseguir emprego. Entre os que trabalham ou já trabalharam, 77% afirmam já ter conseguido uma vaga por indicação.
O fenômeno, porém, é desigual. Para 32% dos jovens das classes A e B, a indicação é decisiva para conseguir um trabalho, percentual que cai para 16% entre os das classes D e E, segundo Chiamareli.
Para a pesquisadora, as diferenças de renda também aparecem no acesso à formação. A pesquisa mostra que 41% dos jovens entrevistados estão no ensino superior, mas o percentual é de 49% entre aqueles das classes A/B e de 24% entre os das classes D/E.
Os jovens também demonstram confiança no futuro. Nove em cada dez acreditam que sua situação financeira estará melhor daqui a cinco anos, e 88% acham que terão condição financeira melhor que a dos pais. Ao mesmo tempo, 61% têm receio de não conseguir pagar as contas e ter uma vida tranquila no futuro.
Nove em cada dez jovens acreditam que a tecnologia poderá substituir muitos empregos nos próximos anos, e metade dos entrevistados têm receio de perder oportunidades de trabalho por causa dos avanços tecnológicos. Ao mesmo tempo, 97% dizem que a tecnologia pode ajudá-los a aprender e crescer profissionalmente.
“Acho que o jovem tem que experimentar diferentes formas de trabalho, diferentes formas de vínculo, até ele ter essa projeção de que amanhã estará melhor, terá seu próprio negócio”, diz a especialista.
A pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho foi realizada entre 11 e 23 de maio, com 1.816 entrevistas presenciais com jovens de 16 a 29 anos. A amostra é representativa da população brasileira nessa faixa etária, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O estudo também teve uma etapa qualitativa, com 16 grupos focais virtuais.
Informação
Folha de São Paulo



