Teste de resistência: Flávio Bolsonaro corre para não perder terreno no Rio

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Uns meses atrás, o plano do PL para manter sua bandeira bem fincada no Rio de Janeiro, onde o bolsonarismo vem colecionando expressivas vitórias nos últimos pleitos, estava todo traçado. Para garantir um sólido palanque no terceiro maior colégio eleitoral do país, o projeto de Flávio Bolsonaro, aspirante ao Planalto, passava pela azeitada máquina do Palácio Guanabara, onde o então governador Cláudio Castro deixaria a cadeira vaga para seu secretário das Cidades, o deputado estadual Douglas Ruas (PL). Ele seria então alçado, sem grandes sobressaltos, à presidência da Assembleia Legislativa (Alerj) e, nesta condição, por uma sequência de acontecimentos que rompeu de forma inédita a lógica sucessória, seria de Ruas o posto maior do Estado, o que lhe daria holofotes e uma poderosa caneta muito antes das eleições de outubro. Os dois nomes para o Senado também já estavam acertados — um seria o próprio Castro, do mesmo PL, e o outro, Márcio Canella, do aliado União Brasil.
Pois passados seis meses, quase nada saiu como esperado, e a campanha de Flávio se viu obrigada a recalcular a rota em cima do laço. A primeira baixa veio em maio: Castro, que àquela altura brigava nos tribunais para reverter uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que o tornara inelegível, teve que deixar de vez o páreo após se enredar em duas operações policiais pelas quais é investigado. Mais recentemente, foi a vez de Canella, o ex-prefeito de Belford Roxo, um nevrálgico colégio eleitoral fluminense, ser rifado. Suspeito de envolvimento em uma rede de lavagem de dinheiro, acabou preso em flagrante com um fuzil dentro do carro e, logo liberado, agora circula com tornozeleira eletrônica. Já Ruas, apesar de ter assumido a presidência da Alerj, não foi guindado ao Guanabara (cujo leme ficou nas mãos do desembargador Ricardo Couto, o único quadro apto à sucessão à época que Castro saiu de cena) e patina nas pesquisas para o governo em um duelo no qual o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) tem folgada vantagem. “A aposta é que, com a campanha, Ruas se cacife com o voto do eleitor bolsonarista”, diz um assessor próximo de Flávio. Acontece agora uma corrida contra o tempo para tentar viabilizar esse desejo.
Às voltas com questões espinhosas em série no plano nacional (leia a reportagem na pág. 28), Flávio afastou-se temporariamente dos dilemas do Rio, o que deixou uma ala do PL local em alerta diante da lentidão na batida de martelo na escolha de nomes para integrar o palanque bolsonarista. E a pressão sobre ele subiu. A VEJA, o presidente do diretório municipal da sigla, Bruno Bonetti, chegou a dizer: “Uma decisão ruim é melhor do que a indecisão”. Em visita ao estado na terça-feira 14, após costuras daqui e dali, Flávio resolveu então adiantar-se à convenção do partido, em 25 de julho, e escalou o já senador Carlos Portinho para uma das vagas em aberto. De discurso mais moderado, a visão é de que ele pode vir a furar a bolha do bolsonarismo radical. A outra indicação, que pelo combinado seria da Federação União Progressista, caiu no colo do vereador carioca Leniel Borel (PP), pai de Henry Borel, o menino assassinado pelo padrasto, o ex-vereador Dr. Jairinho — tema do documentário Caso Henry Borel: a Marca da Maldade, disponível no canal Veja+ no YouTube. Ele adentrou a política agitando a bandeira da defesa dos direitos da criança e do adolescente, da qual os bolsonaristas querem se apropriar.
Os últimos movimentos são apenas o início de um xadrez que promete a cada dia ser mais intrincado. Embora o PP esteja a princípio fechado com Flávio, uma banda do partido não para de flertar com Paes, enquanto a Federação acena com a neutralidade na corrida presidencial. Filiado à sigla, o próprio vice na chapa de Ruas, Rogério Lisboa, ex-prefeito de Nova Iguaçu, estaria sendo cortejado por Paes e não descartaria pular para o outro lado do ringue. Não é a única situação que expõe o quanto, na política fluminense, tudo é ainda mais junto e misturado do que na arena nacional. A vice na chapa de Paes é a advogada Jane Reis (MDB), na mira de uma investigação da PF sobre um esquema de desvio de recursos públicos. Ela vem a ser irmã de Washington Reis, cacique emedebista que já avisou: vai trabalhar em prol da candidatura de Flávio. E, mesmo ao lado de Paes, aliado de Lula, Jane diz que por nada se deixará fotografar junto ao petista.

Sem que o STF tenha decidido ainda o imbróglio sem precedentes que fez de Couto governador interino, restou a Ruas a caneta de presidente da Alerj para tentar deixar o pífio patamar que hoje não passa dos 15% nas pesquisas (versus os mais de 50% de Paes). Para se colar ao bolsonarismo, ele expulsou parlamentares de esquerda de comissões ligadas a minorias e direitos humanos e alojou aliados no lugar. Também posou de moralizador em uma Alerj afundada em escândalos, ao criar um grupo de trabalho (já dissolvido) para fiscalizar gastos do Judiciário, gesto visto como direta afronta a Couto, com quem Lula vem estabelecendo bom diálogo. Com a campanha na rua, a partir de 16 de agosto, ele seguirá o roteiro de Flávio, enaltecendo a linha dura na área da segurança pública.
O maior pesadelo dos bolsonaristas é que Paes ganhe a contenda no primeiro turno, o que o deixaria livre para centrar os esforços na reeleição de Lula em um colégio eleitoral que vem fazendo toda a diferença para o grupo. No pleito presidencial de 2022, vencido pelo petista com uma apertada margem de 2 milhões de votos, Jair Bolsonaro cravou vantagem de 1 milhão no estado. Nos últimos meses, todas as aferições vinham posicionando Flávio à frente de Lula, mas aí vieram reveses como o escândalo do filme Dark Horse, e a curva se inverteu: o petista agora está na dianteira em solo fluminense, ainda que por pouco, segundo levantamentos recentes. “O Rio pode ajudar a definir uma eleição acirrada no segundo turno, compensando até dificuldades em outros estados”, avalia a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ. Será uma prova de fogo para o bolsonarismo.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004
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