Política

Um jogo de mentes brilhantes

A semana passada foi especial. Tive a oportunidade de apresentar um artigo na quarta edição do Workshop de Teoria dos Jogos, organizado pela professora emérita da FEA-USP Marilda Sotomayor. O evento está entre os mais importantes do mundo na área, reunindo minicursos, sessões plenárias e especiais, além de apresentações orais e pôsteres.

Nessa edição, o workshop recebeu seis ganhadores do Prêmio Nobel, três deles presencialmente. Isso dá uma ideia de sua relevância acadêmica. Uma realização dessa magnitude é rara na academia. A doutora Sotomayor certamente figura no rol dos cientistas brasileiros que estiveram mais perto de ter seu trabalho reconhecido com o Prêmio Nobel. A Folha publicou uma reportagem incrível, “Jamais vou ganhar o Nobel’: Quem é Marilda Sotomayor, brasileira referência em teoria dos jogos“, sobre sua trajetória.

Tive a honra de ser sua aluna na USP e de aprender com ela o que é teoria dos jogos e suas aplicações. Suas aulas e sua paixão pela disciplina me levaram a dedicar minha tese ao tema. Era inspirador ter uma professora em uma área predominantemente masculina.

A teoria dos jogos, embora seja muito teórica, ajuda a compreender e prever o comportamento dos agentes no mundo real. Entre tantas aplicações, as discutidas nesta edição do workshop ilustram bem sua importância.

Imagine se duas pessoas quisessem doar um rim a seus familiares, mas fossem incompatíveis entre si. E se cada uma pudesse doar para o familiar da outra e, assim, salvar duas vidas? O algoritmo que resolve esse problema foi desenvolvido pelo doutor Roth, laureado com o Nobel de 2012. Já o Dr. Maskin, laureado com o Nobel de 2007, discutiu reformas nos sistemas eleitorais. Imagine se cada eleitor pudesse declarar na urna não apenas seu candidato favorito, mas também uma ordem completa dos candidatos. Como isso poderia alterar o resultado da eleição?

Entre essas aplicações, a área em que a professora Marilda é uma das maiores referências mundiais é a dos mercados de matching. Considere um mercado composto por dois grupos distintos: universidades e estudantes. O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) é um exemplo de aplicação desses modelos. Os estudantes listam suas preferências por cursos e universidades, enquanto as instituições selecionam os candidatos com base nas notas dos estudantes. A teoria garante não só a existência, mas também como gerar um matching M (ou emparelhamento) entre estudantes e faculdades, com a propriedade básica de que não haja um estudante e uma escola não pareados entre si, tais que ambos preferissem ser pareados um ao outro, em vez do parceiro definido por M.

Sua contribuição, no entanto, não se limita à pesquisa. A vida acadêmica pode ser contagiante, principalmente quando encontramos modelos de referência e pessoas generosas como a Marilda.

Na conferência, conheci um ex-orientando dela, Felipe Bardella, que participou do evento com seus filhos. Ele me contou uma história que ilustra bem esse sentimento.

Paraense e engenheiro formado pelo ITA, decidiu cursar o mestrado em economia para estudar teoria dos jogos com a professora. Marilda lhe disse que, para aceitá-lo como orientando, ele precisaria cursar Análise Real no Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada).

O problema é que o curso coincidia com o período de seu casamento. Para não perder a orientação, decidiu se casar e adiar a lua de mel. Felizmente, sua noiva compreendeu a situação. O casamento deu certo, e a orientação também.

Espero que a professora Marilda continue formando novas gerações de pesquisadores e contribuindo para o avanço da teoria dos jogos.

Essa coluna foi escrita em parceria com o professor David Turchick da FEA/USP.


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Folha de São Paulo

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