Saúde

Usuários de canetas emagrecedoras relatam perda de interesse em atividades que já foram prazerosas

Aos 25 anos, a advogada Giovana dos Santos Sene conta que emagreceu sete quilos e deixou de usar insulina após começar um tratamento com Mounjaro para controlar a glicemia e tratar o sobrepeso. Afirma, porém, sentir queda na disposição, na libido e no interesse por atividades de lazer que antes lhe davam prazer.

Moradora de Marília, no interior de São Paulo, Giovana diz que começou a aplicar o medicamento há cerca de dois meses, por indicação médica. Desde a primeira dose, notou redução importante do apetite. Vieram depois fraqueza, cansaço e desânimo, que ela compara a um período anterior de depressão.

Os sintomas são mais intensos no dia seguinte à aplicação, ela diz, quando também sente náusea e mal-estar, e diminuem ao longo da semana. Como o tratamento é semanal, precisa aplicar uma nova dose quando finalmente está melhor, e vê os sintomas voltarem.

Giovana conta que passou a sair menos e perdeu o interesse por encontros. Também ficou mais emotiva e chora com mais frequência.

“Estou tentando focar em mim e estou bem desinteressada por outras pessoas, o que para mim é uma coisa diferente. Antes do medicamento eu não era assim. Mesmo não tendo um relacionamento, eu tinha algum interesse, um casinho ou outro. Agora não tenho interesse nenhum”, diz.

Ela chegou a pensar em interromper o tratamento, mas decidiu seguir o plano médico, de cerca de três meses.

Relatos de anedonia, que é a redução da capacidade de sentir prazer, têm surgido entre usuários de canetas emagrecedoras —que são agonistas de GLP-1, hormônio natural produzido pelo intestino. Ainda não há, porém, evidências suficientes de que medicamentos como Mounjaro (tirzepatida) e Ozempic (semaglutida) alterem a percepção de prazer, a libido ou o humor.

Em coluna publicada na Folha, o neurocientista Álvaro Machado Dias levantou a hipótese de que tirzepatida e semaglutida poderiam afetar circuitos cerebrais ligados ao desejo e à atribuição de valor às experiências.

Para o neurologista Renato Faria da Gama, professor da pós-graduação em Neurologia da Afya, as evidências de que os medicamentos para emagrecer podem afetar a sensação de prazer estão muito mais no campo da teoria do que da percepção no mundo real, mas há mecanismos biológicos que podem sustentar a hipótese.

O especialista explica que, inicialmente, acreditava-se que as canetas emagrecedoras tinham efeito mais restrito às áreas do cérebro envolvidas no controle da fome e da saciedade. Hoje, sabe-se que também atuam em regiões cerebrais envolvidas no processamento de recompensas, na motivação e nas emoções.

“Quando o indivíduo chega com muita fome e come uma refeição saborosa, esse sistema de recompensa é ativado e ele fica saciado, tem aquela sensação de bem-estar. Quando tem uma relação sexual e consegue alcançar o ápice da relação, também existe a ativação desse sistema e ele se sente satisfeito”, explica Gama.

Por isso, segundo o neurologista, existe a hipótese de que os medicamentos que atuam nesse circuito possam interferir também na motivação sexual.

Uma revisão publicada em março na revista Sexual Medicine Reviews mostrou que estudos em animais sugeriram redução da motivação sexual após a ativação dos receptores de GLP-1. Em humanos, os resultados são escassos e heterogêneos: há relatos de redução da libido e disfunção sexual, mas também estudos que não encontraram prejuízo, sem evidência suficiente para estabelecer uma relação de causa e efeito.

O nutrólogo Guilherme Giorelli, professor e coordenador da pós-graduação de Nutrologia do Einstein Hospital Israelita, afirma que, além do possível impacto dos medicamentos sobre o sistema de recompensa, o desânimo e a perda de libido podem ter causas indiretas, como a própria mudança abrupta na alimentação, que provocar cansaço, fraqueza e indisposição.

Giorelli afirma que os agonistas de GLP-1 também atuam em circuitos que envolvem o córtex pré-frontal, região relacionada à tomada de decisões e ao controle de impulsos.

“A medicação reduz esses comportamentos impulsivos. E comportamento impulsivo você vai ter em relação a alimentação, bebida alcóolica, compras, sexo.”

Um estudo publicado neste ano na revista Obesity Pillars descreveu três mulheres com obesidade que manifestaram sinais de anedonia durante o tratamento com 15 mg semanais de tirzepatida.

Após a redução da dose para 10 mg ou menos, as três apresentaram melhora de sintomas como falta de motivação e apatia emocional. Em um dos casos, o aumento da dose para 15 mg fez os sintomas retornarem. Os autores ressaltam, porém, que a série inclui apenas três casos e não permite estabelecer relação de causa e efeito.

A possibilidade de mudanças nos relacionamentos após uma perda de peso importante também não é nova. O termo “Ozempic divorce” passou a ser usado nos Estados Unidos para descrever separações ocorridas após um processo de emagrecimento, fenômeno já observado em relação à cirurgia bariátrica.

Estudo realizado com mais de 29 mil pessoas na Suécia e publicado em 2018 no JAMA Surgery encontrou maior incidência de divórcio entre participantes casados que passaram pela cirurgia bariátrica —mas também uma maior probabilidade de iniciar novos relacionamentos entre os solteiros. As mudanças foram mais frequentes entre aqueles que perderam mais peso.

Informação

Folha de São Paulo

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